Vidar - O Deus silencioso e vingador

12/07/2018

Filho de Odin e da giganta Grid (que aparece auxiliando Thor na sua jornada ao reino do gigante Geirrod), Vidar era conhecido como o "deus silencioso e vingador". O silêncio é atribuído por alguns autores a um compromisso ritualístico ou a uma abstinência ritualística associada com intenções de vingança, semelhante ao comportamento de Vali, que se recusou a tomar banho, cortar a barba ou pentear os cabelos até que vingasse a morte de Baldur. Quanto ao atributo de vingador, deve-se ao calçado especial confeccionado pela sua mãe, quando ela soube que o seu filho era destinado a lutar e defender Odin no Ragnarök. Esse sapato especial tinha sido feito com pedaços de botas dos guerreiros mortos em combate, idealizado como uma proteção contra fogo, bastante grande e resistente para suportar os dentes afiados do lobo Fenrir. Apesar de giganta, Grid não representava as forças do caos, mas da ordem e proteção, materna e mágica. Graças a esses sapatos, Vidar escapou ileso das garras e dos dentes de Fenrir no combate final do Ragnarök e vingou a morte do seu pai Odin (morto pelo lobo).

O mito desse combate descreve como Vidar fincou seu pé na boca do lobo e com as mãos abriu suas mandíbulas até que, com a força do calçado mágico, conseguiu rasgar a goela e a cabeça do terrível Fenrir. Em outra versão do mito, Vidar mata a fera com uma espada, mas sendo ressaltada sempre a ênfase na força física de Vidar, força que é superada somente por Thor. Quando ele ia para Valhalla era recebido com alegria e brindes de hidromel, que honravam a sua proverbial força física. Um dia Odin o levou para a fonte de Urdh e ao indagar sobre seu futuro, as Nornas vaticinaram a morte de Odin no Ragnarök, a sobrevivência de Vidar e sua missão no Novo Mundo.

A principal atuação mítica de Vidar é a vingança da morte de Odin e sua sobrevivência no Ragnarök. De acordo com o historiador Georges Dumézil, Vidar era uma continuação de um arquétipo indo-europeu, alinhado com o espaço vertical (representado pelo seu pé empurrando a mandíbula inferior do lobo e sustentando a superior com as mãos) e horizontal (através do seu forte calçado rasgando a goela). Por isso, ele define os limites espaciais, assim como Heimdall guardava os limites temporais. Ao matar Fenrir, Vidar impede que ele destrua o cosmos, que será depois regenerado no fim do Ragnarök.

Os seus pais simbolizavam a mente (Odin) e a matéria (Grid), enquanto Vidar era considerado a personificação da floresta primeva ou das forças indestrutíveis da natureza. Ele morava em Landridi (a terra larga) em um palácio decorado com folhagens e flores, no meio de uma floresta impenetrável, em que reinava o silêncio e a solidão, suas eternas companhias. Essa imagem é compatível com o agreste cenário nórdico, com as extensas florestas envoltas em névoas, cujas trilhas silenciosas evocavam a reverência pela sacralidade da natureza dos antigos habitantes. Vidar era descrito como um homem alto e bem feito, usando uma armadura, uma espada de lâmina larga e um pesado sapato de ferro e couro. Como o mito menciona a confecção do sapato mágico dos restos de couro das botas dos guerreiros mortos, era um costume nórdico dos sapateiros doarem o máximo das suas sobras de couro, para atraírem a proteção de Vidar. 

Vidar não era apenas a personificação da natureza intacta, mas também um símbolo de renascimento e renovação, revelando a eterna verdade de que "os novos brotos e flores aparecem para substituir os que pereceram". Alguns mitólogos supõem que ele tinha apenas uma perna (por ter sido descrito apenas um sapato) ou que ele personificava uma tromba d'água, que apareceu de repente no ultimo dia do Ragnarök para apagar o fogo selvagem representado pelo terrível lobo Fenrir.

Fontes: Ragnarok, o Crepúsculo dos deuses, Templo de Apolo, Norse Mythology