Valquírias - As mensageiras de Odin

12/08/2018

A palavra Valkyrja (plural Valkjrjur), em norueguês antigo, e sua equivalência em inglês arcaico Waelcyrge, significam "aquela que escolhe os que vão morrer". Esses termos são mencionados nos Eddas, nas sagas do século XIII e XIV, em diversos poemas, nos manuscritos anglo-saxões, em encantamentos, inscrições rúnicas, talismãs e gravações nos monumentos vikings. Nas escavações arqueológicas foram recuperados inúmeros broches e amuletos com imagens estilizadas de mulheres com longas túnicas, cabelos trançados, levando chifres com bebidas ou em pé ao lado de um cão ou cavaleiro. Listas com nomes enfatizam a associação das Valquírias com batalhas, descrevem suas habilidades e atributos e, principalmente, sua missão para escolher aqueles guerreiros que seriam mortos nos campos de batalha e deles selecionados os mais valentes para serem conduzidos para os salões do deus Odin em Valhalla.

Nos mitos nórdicos, as Valquírias aparecem como Filhas de Odin, frequentemente chamadas de suas auxiliares e mensageiras. Atendendo seu pedido, elas "voavam"montadas em velozes cavalos brancos para os locais das batalhas, escolhendo aqueles guerreiros que iam ser vitoriosos e os que iam morrer. "Ser escolhido por uma Valquíria e por ela conduzido para Valhalla"era a glória máxima para um guerreiro, pois elas preferiam apenas os mais valentes, merecedores das festas eternas nos salões de Odin e que iam fazer parte dos Einherjar, a tropa de elite, que irá lutar na batalha final do Ragnarök. Aqueles que não eram considerados dignos da escolha das Valquírias iam para o reino subterrâneo da deusa Hel.

Nas descrições mais recentes, as Valquírias apareciam como louras e lindas jovens, com pele alva, olhos azuis, cabelos longos e louros, vestidas com reluzentes armaduras e elmos, portando escudos e às vezes espadas. Seus cavalos eram criados de elementos etéricos e quando desciam para a terra, cristais de gelo e gotas de orvalho caíam das suas crinas e do seu suor, enquanto o reflexo das armaduras das Valquírias formava as luzes mutantes da Aurora Boreal. Por isso lhes eram atribuídas influências benéficas para fertilizar a terra e nutrir as plantas. Como tinham o dom da metamorfose, as Valquírias podiam se transformar em cisnes, corvos ou lobos, como camuflagem ou diversão. Quando elas assumiam a forma de cisnes, buscavam locais reclusos para tirar a plumagem e se banhar nos rios. Um lazer perigoso, pois, se algum homem encontrasse ou roubasse os seus trajes de penas, elas não podiam mais retornar para Valhalla e eram obrigadas a segui-lo e se casar com ele.

Por representar um elo entre o mundo dos vivos e mortos, o plano divino e humano, em algumas estórias as Valquírias aparecem como esposas de heróis ou almas de mulheres que tinham sido sacerdotisas ou rainhas, que receberam uma elevação espiritual devido aos seus méritos em vida e se transformaram em Valquírias.

Gerações de contadores de estórias e poetas criaram diversas apresentações e qualidades das Valquírias, em que podem ser percebidos conceitos e traços comuns com as Nornas (por decidirem a sorte dos guerreiros), com as poderosas guardiãs individuais e familiares (elas também davam sorte e proteção aos seus afilhados), as magas e videntes (por tecerem proteções mágicas para os heróis e vaticinarem seu destino), as figuras de mulheres guerreiras que lutavam junto dos seus homens (como as Amazonas, as heroínas e noivas celtas) e as "sacerdotisas da morte". Estas oficiantes fúnebres eram mulheres que realizavam os sacrifícios para Odin: de prisioneiros, escravos ou das consortes que, voluntariamente, se ofereciam para acompanhar seus maridos ou donos mortos em combate. Essa última atuação pode ser vista no rito funerário de um chefe viking com a morte ritualística de uma escrava, realizada por uma mulher chamada de "Anjo da Morte". A escolha dos prisioneiros que iam ser sacrificados era feita por videntes ou sacerdotisas, que assumiam os títulos de "aquelas que escolhem os que vão morrer", próprios das Valquírias.

A origem dos espíritos femininos que participavam de forma ativa nas batalhas é muito antiga, precedendo as fontes escritas antes citadas. Existem referências sobre a existência de entidades sanguinárias nórdicas que eram semelhantes com as Erínias gregas (as Fúrias), as Górgonas greco-romanas ou as deusas guerreiras celtas (como Brigantia, Morrigan e Badb), que assumiam formas de corvos e prediziam a sorte dos homens nas batalhas. Conhecem-se também algumas Matronas cultuadas pelos soldados romanos como companheiros do deus Marte, chamadas de Alaisiaga e cujo título era "condutoras da batalha" e "doadoras da liberdade" (Baudihillie e Friagabi).

O conceito sobre a existência de uma companhia de "mulheres sobrenaturais" associadas com os combates nos cultos germânicos foi comprovado por dois encantamentos encontrados no século IX em Merseburg (Alemanha), que descrevem mulheres chamadas Idisi (ou Disir) "criando amarras ou soltando-as", para prender os inimigos ou auxiliar seus protegidos e que eram chamados de Sigewife (mulheres vitoriosas). "Amarrar ou soltar" correntes ou amarras, assim como "voar" sobre cavalos e lançar flechas eram atributos de Odin e das Valquírias, sendo que as "amarras" podiam ser mentais ou psíquicas (manifestadas como pânico, cegueira e paralisia temporária) e que deram origem a um dos nomes das Valquírias - Heijjotur -"amarras de guerra".

Além das descrições das Valquírias como guerreiras montadas em cavalos, com armaduras ou mantos de penas, registros mais antigos apresentam mulheres sobrenaturais gigantes e grotescas, verdadeiras mensageiras da morte, carregando baldes de sangue para despejar nos campos de batalha, cavalgando sobre lobos ou remando barcos sob uma chuva de sangue. Essas figuras eram consideradas presságios de combates sangrentos e mortes, às vezes aparecendo nos sonhos dos homens e antecedendo os combates, ou nas visões das videntes como maus augúrios para os guerreiros. A mais famosa e lúgubre descrição é encontrada no Njals Saga, em que é descrita a visão de um grupo de mulheres chamadas Valquírias, que teciam em um tear formado de entranhas de homens, os pesos dos fios sustentados por crânios ensanguentados. Elas entoavam uma canção lúgubre, que prenunciava uma carnificina, com a sua participação como aparições sombrias no meio das nuvens, encarregadas da escolha daqueles que iriam morrer.

A semelhança entre as descrições de mulheres sobrenaturais participando das batalhas, encontradas nas lendas escandinavas, germânicas e celtas, sugere a existência de mitos antigos sobre espíritos femininos associados com deuses de guerra e cuja aparência tenebrosa e sanguinária era bem diferente das belas imagens do Período Viking. Foram os poetas, artistas e escritores medievais que transformaram as figuras assustadoras - mas fazendo jus ao título de "as que escolhem quem irá morrer"- em lindas princesas que escoltavam os guerreiros mortos para Valhalla e lhes ofereciam chifres com hidromel ou como "donzelas luminosas" que os esperavam no além e até mesmo se casavam com os heróis.

As Valquírias foram exaustivamente descritas e retratadas em diversos relatos épicos, poemas, estórias, lendas, inscrições rúnicas, amuletos, obras de arte, gravuras, teatro, filmes, óperas e temas musicais. Na segunda ópera de Wagner do ciclo O anel dos Nibelungos - Die Walkiire - conta-se a lenda de Brünnhilde e de Siegmund, enquanto. A cavalgada das Valquírias passou a ser usada em varios filmes e apresentações. Nos Eddas é descrito outro aspecto da Valquiria como a consorte espiritual de um herói, que aparece para incentiva-lo, pressagiar conquistas ou derrotas e finalmente recebê-lo como amante, após sua morte em combate. Esse conceito é encontrado também no poema "Vólsunga Saga", na estoria de Sigurd e Brynhild, no mito das "donzelas-cisne" e nas lendas xamânicas, em que existem menções sobre as "esposas espirituais" que protegem seus "maridos contra espíritos hostis e os acompanham na sua última viagem, para o Além.

Além das qualidades guerreiras, as Valquírias eram consideradas deusas da fertilidade (devido ao orvalho originado do suor do cavalo) e "realizadoras dos desejos humanos" na sua qualidade de Oskmeyjar (aspecto associado com o título de Odin, Oski, que significa "realizador de desejos"). Nos mitos mais antigos, as Valquírias escolhiam seus protegidos e lhes ensinavam artes mágicas, resgatavam os guerreiros dos navios que se afundavam ou os que se perdiam nas tempestades, sendo suas protetoras durante toda a sua existência. Em caso de perigo iminente, os alertavam nos sonhos ou visões, podendo até mesmo discordar da decisão de Odin quanto à sua morte no campo de batalha. Nos mitos estórias mais recentes são descritas punições das Valquírias rebeldes, como no famoso mito de Brynhild-ou Brunhilda- do Völsunga Saga, imortalizada pelas operas de Wagner.

Avaliando a suposta punição da desobediência de uma Valquiria (mesmo sendo filha preferida de Odin), podemos perceber a legitimação da autoridade masculina - divina ou humana - que, ao ser desafiada por atos de liberdade e afirmação do poder guerreiro feminino, usava o casamento como castigo para retirar as características marciais e a liberdade da Valquiria. Assim como as donzelas-cisne que, ao serem capturadas por homens, tornam-se simples mulheres com o casamento (porém buscando sempre a sua natureza livre e suas "asas'), a punição de uma Valquíria era o casamento. Mesmo se o escolhido por Odin como marido fosse um príncipe ou rei, elas se tornavam simples esposas e mães, funções que não desafiavam o poder guerreiro masculino. Apesar de a sociedade nórdica honrar e respeitar os direitos de livre expressão das mulheres, somente os homens podiam ser os "senhores da guerra", glorificados após as vitórias que lhes garantiam a imortalidade nos salões de Valhalla, devidamente servidos e cuidados pelas Valquírias como "as copeiras de Odin e as condutoras dos herois para o paraíso .

Nas fontes antigas as Valquírias eram representadas como Valmeyjar (donzelas das batalhas), Hjalmmeyjar (donzelas com elmos) ou Skjaldmeyjar (donzelas com escudo) e seus nomes dos poemas épicos são relacionados com a guerra.

No entanto, nas representações iconográficas do Período Viking, as Valquírias aparecem usando vestidos longos, cabelos trançados e levando chifres com bebidas. A representação da jornada do herói do campo de guerra para Valhalla não podia ser esmaecida ou abalada pela atuação de uma Valquíria, portanto armas e cavalgando. Desta forma, no Período Viking, em que prevalecia o culto odinista e a supremacia dos heróis, a participação das Valquírias foi minimizada como guerreira e colocada em realce a sua transformação em "donzela-cisne", um aspecto inofensivo à estrutura social patriarcal. Para que uma mortal se tornasse Valquíria e recebesse a imortalidade, ela devia permanecer virgem e obedecer a Odin, a mesma condição imposta também às Valquírias vistas como "copeiras" dos Einherjar pela ótica viking. Porém, mesmo assim, as Valquírias preservaram sua missão espiritual como intermediárias entre o plano divino e humano, agindo como agentes do destino e protetoras dos seus "afilhados".

Existem na literatura escandinava algumas descrições de gigantas que se comportavam como Valquírias, ajudando jovens heróis ou assustando os inimigos com suas aparições ameaçadoras ou visões macabras. Elas apareciam em grupos de três, cavalgando lobos e acompanhadas de corvos.

A associação com as Nornas coloca em evidência a atuação das Valquírias na modelagem do orlög (destino pessoal). Como emissárias de Odin, elas podiam transmitir a sabedoria mágica das runas e auxiliar os iniciados a atravessar a ponte de Bifrost (travessia impossível de fazer sem a sua ajuda). O desejo máximo de um herói ou iniciado era "casar-se com a sua Valquíria", ou seja, alcançar a plena conexão com ela conscientemente, para aprender e ser conduzido por ela. Porem, para merecer a sua proteção e suas dádivas, era necessária muita dedicação e aprendizado, pois somente assim poderia ser alcançada a "fusão", a elevação espiritual que permitia a expansão da consciência e a plenitude da integração, ainda em vida, para homens e mulheres. Alguns autores modernos atribuem à Valquíria a equivalência do Eu superior, a guardiã da alma e a "noiva brilhante" com que a consciência almeja se unir. Porém este conceito é mais condizente com os cultos odinistas, pois os adeptos de outros caminhos espirituais podem ter certa dificuldade ao atribuir à sua anima ou protetora o nome e o modelo da Valquíria, principalmente as mulheres que não tem conexão ou afinidade com a tradição nórdica.

O numero e os nomes das Valquírias variavam segundo as fontes, no poema "Völuspa" são citadas seis, em outras fonte seu número aumenta para 9, 12, 27 ou 30, seus nomes descrevendo suas atribuições; o grupo que aparecia nos campos de batalha podia ser de 9, 13 ou 27 Valquírias.

A título de curiosidade vou mencionar alguns dos nomes mais conhecidos:

Brynhild (malha de aço), Geirahod (flecha), Goll (grito de batalha), Gunnr (luta), Gondul (bastão mágico), Herfjòtur (algemas), Hildr (batalha), Hlókk (tu­ multo), Hrist (terremoto), Kara (coragem), Mist (névoa), Randgridr (escudo), Reginleif(herança divina), Svava (golpe), Rota (turbilhão), Skeggjold (machado de combate), Sigrdrifa (raio da vitória), Sigrun (vitória), Skògul (combate), Radgridr (conselho de paz) e Thrundr (poder). Outras fontes também mencionam Alvitr, Geirabol, Goll, Hladgudr, Herja, Judur, Ölrun, Prudr, Reginleif e Svipul. As líderes eram Gundr, Rota e a Norna Skuld (a que está sendo).

As Valquírias eram ligadas à deusa Freyja, sua condutora, que, na sua condição de Vai Freyja - deusa da guerra e da morte - podia escolher metade dos guerreiros mortos e levá-los para sua morada em Folkvang, onde havia um salão especial para eles chamado Sessrumnir (muitos assentos).

As vezes, a Valquíria podia ser confundida ou equiparada com afy lgja ou as Disir, mas assim como existem semelhanças entre elas, cada arquétipo tem suas próprias características. A Valquíria não é ligada a uma família, nem é o espírito de uma ancestral como as Disir. Ela tem uma consciência própria e é detentora de sabedoria e poder mágico, enquanto afylgja é um aspecto de estrutura psicoespiritual de cada ser e a ele ligada até a sua morte. As Valquírias atuavam principalmente como entidades guerreiras e psicopompos, condutoras dos mortos. As Disir podiam predizer ou induzir a morte, mas a sua principal ocupação era proteger, cuidar, orientar e assistir seus protegidos da linhagem familiar, sendo mais empenhadas com a perpetuação da vida do que com a supervisão dos mortos.

É importante lembrar e honrar devidamente esses arquétipos ancestrais, pois independentemente dos seus nomes e características, eles fazem parte do passado ancestral e seu poder e sabedoria é milenar, sendo preservado e atuante até hoje.


Fontes: Templo de Apolo, FAUR, Mirella.O princípio feminino - As deusas e seus mitos.in:__________.Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.São Paulo/SP:Cultrix,2011.Cap. 5.p.284-289 

Imagem: Pablo Fernandez