Smeagol / Gollum

05/06/2018

Sméagol / Gollum... Este artigo pretende, além de revelar um pouco do percurso de Sméagol/Gollum, desde O Hobbit até O Senhor dos Anéis (e daí que a análise se centre, predominantemente, nestas duas obras, escritas e organizadas por Tolkien), aprofundar a sua dimensão simbólica, não no sentido da alegoria, mas no da "Moral" que, como Tolkien admite, subjaz a toda a escrita.

Quando Tolkien, pela primeira vez, nos revela Gollum, em O Hobbit, pouco esclarece acerca da sua origem: "Ali na água profunda e escura vivia o velho Gollum, uma pequena criatura viscosa. Não sei donde ele veio, nem quem ou o que ele era. Era um Gollum - tão negro como a escuridão, exceptuando os dois grandes, redondos e claros olhos da sua cara magra. Tinha um pequeno barco a remava silenciosamente pelo lago, pois de um lago se tratava, largo, fundo e de uma friura de morte. Remava com os grandes pés pendurados aos lados do barco, mas sem nunca provocar uma ondinha que fosse. Oh, não! Os seus olhos claros do feitio de lampiões procuravam peixes cegos, que agarrava com os dedos compridos e com a rapidez do pensamento. Também gostava de carne. Achava a de gnomo boa, quando conseguia apanhá-la; mas tomava todo o cuidado para nunca o descobrirem. Esganava-os pelas costas, se algum se aproximava sozinho da borda de água, enquanto ele por lá andava à caça. Isso acontecia muito raramente, pois os gnomos tinham a sensação de que qualquer coisa desagradável lá estava de tocaia, nas próprias raízes da montanha." (O Hobbit, pp.70-71). Curiosamente, quando Tolkien refere "Era um Gollum" dá a sensação de se estar a referir a mais uma das numerosas raças que povoavam a Terra Média, uma outra raça que, por ser "negro como a escuridão", se identificaria com gnomos, orcs e trolls. No entanto, e desde logo, ficam bem definidos os principais traços físicos e psicológicos desta que viria a ser uma personagem determinante na Trilogia do "Senhor dos Anéis".
É na Irmandade do Anel que Tolkien esclarece a sua origem, através das palavras de Gandalf:

"Muito depois disso, mas mesmo assim há muito, muito tempo, vivia nas margens do Grande Rio, na orla da Terra Erma, um pequeno povo destro de mãos e silencioso de pés. Suponho que pertenciam ao tipo dos Hobbits, e eram aparentados com os pais dos Stoors, pois amavam o rio, nadavam frequentemente nele e faziam pequenos barcos de juncos. Havia entre eles uma família de grande reputação, pois era maior e mais rica do que a maioria e governava-a uma avó severa e entendida nas antigas tradições e na cultura do povo. O indivíduo mais curioso e com espírito mais ávido de saber dessa família chamava-se Sméagol. Interessavam-no as raízes e os começos, mergulhava em charcos fundos, escavava sob as árvores e as plantas e abria túneis em montes verdes. De tal modo, que deixou de olhar para cima, para o cume dos montes, para as folhas das árvores e para as flores que abriam no ar: a sua cabeça e os seus olhos andavam sempre virados para baixo.
Tinha um amigo parecido com ele chamado Déagol, de olhar mais vivo, mas menos inteligente e forte. Uma vez, meteram-se num barco e desceram os Campos Alegres, onde havia grandes extensões de íris e juncos em flor. Quando chegaram, Sméagol saiu do barco e foi farejar nas imediações da margem, mas Déagol deixou-se ficar sentado no barco, a pescar. De súbito, um grande peixe prendeu-se-lhe no anzol e, sem que Déagol tivesse tempo para compreender o que lhe acontecia, foi arrastado para a água, mesmo para o fundo. Aí largou a linha, pois pareceu-lhe ver qualquer coisa a brilhar no leito do rio. Conteve a respiração e apanhou o objecto.
Depois emergiu, a soprar água, com algas nos cabelos e um punhado de lodo na mão, e nadou para a margem. E, maravilha, quando sacudiu o lodo da mão viu que tinha na palma um belo anel de ouro, que brilhava e reluzia ao sol de tal maneira, que o seu coração se alegrou! Mas Sméagol estivera a observá-lo, escondido atrás de uma árvore, e, enquanto Déagol admirava, encantado, o anel, ele aproximou-se-lhe pela retaguarda, devagarinho...
- Passa para cá isso, Déagol, meu querido, pediu Sméagol, por cima do ombro do amigo.
- Porquê?- perguntou-lhe Deágol.
- Porque é o dia dos meus anos, meu querido, e eu quero-o! - respondeu-lhe Sméagol.
- Não me interessa, já te dei uma prenda, mais até do que podia. Eu é que achei isto, e vou ficar com ele.
- Ah, vais, meu querido, vais?- redarguiu Sméagol, e, deitando as mãos ao pescoço de Déagol, estrangulou-o, porque o ouro lhe parecia tão bonito e reluzente. Depois pôs o anel no dedo." (pp.71-72).

O papel que esta personagem desempenhou nos acontecimentos que decorreram em torno da Guerra do Anel leva-nos a determo-nos um pouco mais sobre a sua natureza e percurso. Na verdade, Sméagol/Gollum encarna o que há de mais intrínseco à natureza humana: o conflito entre o Bem e o Mal. Simbolicamente, o imaginário mitológico criado por Tolkien assenta nessa dicotomia: Manwë/Melkor; Irmandade do Anel/Sauron; Gandalf/Saruman, mas é em Sméagol/Gollum que essa dicotomia se funde num único ser, configurando a verdadeira dimensão anímica do ser humano. Aliás, os hobbits são, de acordo com Tolkien, "aparentados connosco, muito mais chegados a nós do que os Elfos e até mesmo do que os Anões. Em tempos remotos, falavam as mesmas línguas dos Homens - à sua maneira, claro - e gostavam ou não das mesmas coisas que os homens (Irmandade do Anel, p. 16). No caso de Gollum/Sméagol, a natureza perversa foi, desde logo, a que se impôs. Como não associar o assassinato de Déagol por Sméagol à morte de Abel às mãos de Caim? E não era Sméagol "o indivíduo mais curioso e com espírito mais ávido de saber"?... O saber! O desejo de alcançar mais sabedoria para poder dominar: foi essa sede de saber e de liberdade que "perdeu" Sméagol, como já perdera Fëanor, e até Melkor! A mesma busca de saber que seduziu os primeiros ser-humanos no Éden bíblico!
Será que o desejo de conhecimento corrompe? A Sméagol corrompeu! Primeiro, porque a busca das "raízes e começos" o foi distanciando do convívio social (fundamental para o crescimento integral do indivíduo), depois porque, através da invisibilidade que o anel lhe concedia, tinha a possibilidade de saber tudo de todos e, assim, detinha o poder de manipular os outros:

"Nunca ninguém descobriu o que acontecera a Déagol, pois foi assassinado longe de casa e o seu cadáver astuciosamente escondido. Mas Sméagol regressou sozinho e descobriu que ninguém da sua família o conseguia ver, quando tinha o anel posto. Ficou muito satisfeito com a descoberta, e teve o cuidado de a ocultar. Serviu-se dessa característica do anel para descobrir segredos, cujo conhecimento utilizava depois para fins perversos e maus. Tornou -se vivo de olho e de ouvido para tudo quanto era prejudicial. O anel dera-lhe poder de acordo com a sua estatura. Não admira que se tenha tornado muito impopular e que passasse a ser repelido pela família toda (quando visível). Davam-lhe pontapés e ele mordia-lhes os pés, Passou a roubar e a resmungar sozinho, com uma espécie de som gorgolejante na garganta. Por isso, chamavam-lhe Gollum, amaldiçoavam-no e mandavam-no para longe. A avó, desejosa de paz expulsou-o da família e pô-lo fora do seu buraco. "(Id. p. 72)

Sintomático é o momento em que Sméagol passa a ser chamado de Gollum: precisamente, quando é banido do convívio com os seus semelhantes. O nome Gollum, "uma espécie de som gorgolejante na garganta", condena Sméagol a uma vivência associal, tal como um bicho, uma pedra, um ser sem identidade própria. Daí que a personalidade de Sméagol se tivesse desdobrado até à cisão: de um lado Gollum, que assimilou e acentuou todas as características perversas de Sméagol, de outro lado "o bom Sméagol" que despertou, por assim dizer, quando contactou com Frodo e Sam, particularmente, com Frodo que, desde o início, o tratou pelo nome próprio, ou seja, o reconheceu como igual e se compadeceu dele. De facto, Sméagol e Gollum passaram a ser duas faces de um mesmo ser e, se Gollum acentuou a vertente negativa é de crer que, por oposição, a parte positiva, por pequena que fosse, permanecesse protegida e impoluta: "Como a confirmá-lo, [Frodo] reparara que Gollum falara na primeira pessoa do singular - fugi -, e geralmente isso parecia um indício, nas raras vezes em que sucedia, de que alguns resquícios da antiga verdade e sinceridade tinham, de momento, vindo ao de cima." (As Duas Torres, p. 272). Sméagol parecia querer emergir, mas passados tantos anos de solidão, sob a influência do anel e de Gollum, seria possível? Não é, pois, de estranhar que Gollum/Sméagol se contorcesse num debate íntimo que o dilacerava, tal como testemunhou Sam:

Sam acordou a pensar que tinha ouvido o amo chamá-lo. Entardecia. Frodo não podia ter chamado, pois adormecera e escorregara, quase para o fundo buraco. Gollum estava junto dele. À primeira vista, Sam pensou que estava a tentar acordar Frodo, mas depois compreendeu que não se tratava disso. Gollum falava sozinho. Sméagol travava um debate com qualquer outra mente que usava a mesma voz, mas que a fazia guinchar e sibilar. Alternavam-se-lhe nos olhos, enquanto falava, uma luz pálida e outra verde:
- Sméagol jurou - disse o primeiro pensamento.
- Sim, sim, meu Precioso - respondeu o outro. - Nós jurámos, mas para salvar o nosso Precioso e não para que fosse para Ele. Isso nunca. Mas vai para Ele, sim, aproxima-se a cada passo. Perguntamo-nos o que vai o hobbit fazer com ele, sim, perguntamo-nos...
- Não sei. Não posso fazer nada. O senhor tem-no. Sméagol jurou ajudar o senhor.
- Sim, sim, ajudar o senhor: o senhor do Precioso. Mas se fôssemos nós o senhor, então poderíamos apoderar-nos dele, sim, e não deixar de cumprir a promessa.
- Mas Sméagol disse que seria muito, muito, bom. Hobbit bom! Tirou a corda má da perna de Sméagol. Fala-me com amabilidade.
- Muito, muito, bom, hem, meu Precioso? Sejamos bons, bons como peixe, meu querido, mas para nós próprios. Sem fazer mal ao hobbit bom, claro, de maneira nenhuma!
- Mas o Precioso cumpre a promessa - protestou a voz de Sméagol.
- Então tira-o - respondeu o outro -, e cumpramo-la nós! Então seremos o senhor, gollum! Obriga o outro hobbit, o hobbit antipático e desconfiado, obriga-o a rastejar, sim, gollum!
- Mas o hobbit bom, não?
- Oh, não! Se nos agradar, não. No entanto, ele é um Baggins, meu Precioso, sim, um Baggins. Foi um Baggins que o roubou. Achou-o e não disse nada, nada! Odiamos os Bagginses.
- Não, este Baggins, não.
- Sim. Todos os Bagginses. Todas as pessoas que tiverem o precioso. Temos de nos apoderar dele!
- Mas Ele verá, Ele saberá. E acabará por no-lo tirar!
- Ele vê. Ele sabe. Ele ouviu-nos fazer promessas estúpidas... contra as Suas ordens, sim. Temos de tirá-lo. Os Espectros andam a procurar. Temos de tirá-lo.
- Para Ele, não!
- Não, meu querido. Olha, meu Precioso, se o tivermos, poderemos fugir, até mesmo d'Ele, hem? Talvez nos tornemos muito fortes, mais fortes que os Espectros. Senhor Sméagol? Gollum, o Grande? O Gollum! Comer peixe todos os dias, três vezes por dia, saído fresquinho do mar. Preciosíssimo Gollum! Tem de ser nosso. Queremo-lo, queremo-Io!
- Mas eles são dois. Acordarão muito depressa e matar-nos-ão - lamuriou Sméagol, num derradeiro esforço. - Agora não. Ainda não.
- Nós queremo-lo! Mas... - Seguiu-se uma longa pausa, como se tivesse despertado outro pensamento. - Ainda não, hem? Talvez não. Ela poderia ajudar... Sim, podia.
- Não, não! Dessa maneira, não! - choramingou Sméagol. - Sim! Nós queremo-lo! Nós queremo-lo!
Todas as vezes que o segundo pensamento falava, a mão comprida de Gollum estendia-se sorrateiramente para Frodo, para se encolher, com um movimento brusco, quando Sméagol replicava. Por fim, ambos os braços se estenderam, com os dedos compridos enclavinhados e trémulos, para o pescoço de Frodo! ((As Duas Torres, pp. 260-261)

É visível, neste debate, que é Gollum que destila as más ideias na mente de Sméagol, mas também não podemos esquecer que foi Sméagol, com os seus actos, com a sua arrogância e ambição que criou Gollum! Assistimos, pois, a uma luta constante no interior deste ser, tão dilacerante como qualquer batalha que envolva dois exércitos inimigos, e houve momentos em que Sméagol se impunha ao Gollum, revelando uma promessa de regeneração:

"Gollum olhou para eles, e passou-lhe uma expressão estranha pelo rosto magro e faminto. O brilho apagou-se-lhe dos olhos, que se tornaram mortiços e cinzentos, velhos e cansados. Pareceu percorrê-lo um espasmo e virou-se e olhou para trás, na direcção da passagem, a abanar a cabeça como se travasse alguma discussão íntima. Depois, aproximou-se e, devagarinho, estendeu a mão trémula, cautelosamente, e tocou no joelho de Frodo, num contacto que foi quase uma carícia. Se, durante um instante fugaz, um dos que dormiam pudesse vê-lo, julgaria ter à sua frente um hobbit velho e cansado, mirrado pelos anos que o tinham transportado muito para além do seu tempo, sem amigos, nem parentes, longe dos campos e dos rios da juventude. Uma criatura velha, esfomeada e merecedora de compaixão" (Id., p. 354)

Mas, será que haveria alguma possibilidade de Sméagol se regenerar? Se Gollum não tivesse emergido novamente, após aquilo que ele entendeu como uma traição de Frodo, quando este o entregou a Faramir, o desfecho poderia ter sido diferente?
A Sam, sensato e astuto, não lhe passou desapercebida esta possibilidade e, com a reserva que o caracterizava, ajuizou:

Sam franziu a testa. Se tal fosse possível, os seus olhos teriam fulminado Gollum. Sentia-se cheio de dúvidas. Segundo todas as aparências, Gollum estava sinceramente preocupado e desejoso de ajudar Frodo. Mas Sam, que não se esquecera do debate que ouvira, tinha dificuldade em acreditar que o havia muito submerso Sméagol tivesse levado a melhor e vindo à superfície: essa voz, pelo menos, não tivera a última palavra no debate. Na opinião de Sam, as metades Sméagol e Gollum (ou aquilo a que, mentalmente, chamava Espião e Aldrabão) tinham feito tréguas e assinado uma aliança temporária; nenhum deles queria que o Inimigo se apoderasse do anel; ambos desejavam evitar que Frodo fosse aprisionado e mantê-lo debaixo de olho enquanto fosse possível - pelo menos enquanto o Aldrabão tivesse uma probabilidade de deitar as mãos ao seu «Precioso». Sam duvidara que houvesse, realmente, outro caminho para Mordor.
«E felizmente nenhuma das metades do patife sabe o que o amo tenciona fazer», pensou. «Se ele soubesse que o Sr. Frodo pretende acabar com o seu Precioso de uma vez por todas, aposto que não tardaria nada a haver sarilho. Seja como for, o velho Aldrabão tem tanto medo do Inimigo - e está, ou esteve, sob ordens de alguma espécie, da parte dele - que preferiria denunciar-nos a ser apanhado e ajudar-nos - e até, talvez, a permitir que o seu Precioso fosse derretido. Pelo menos é essa a minha ideia. Só espero que o amo pense bem; com toda a cautela. É sensato e inteligente, mas tem muito bom coração. Não está ao alcance de qualquer Gamgee adivinhar o que ele fará a seguir.» (267)

Na verdade, não estava ao alcance de "qualquer Gamgee", ou de outro ser qualquer, à excepção de Eru-Ilúvatar, desvendar qual o rumo e o desfecho dos acontecimentos que se seguiram. Mas, desde logo, deveremos admitir que Sméagol, minado pelo poder do anel durante quinhentos anos, nunca se conseguiria impor à vontade do Anel, nem por amor a Frodo. O próprio Frodo, apesar do seu "bom coração", reconheceu o alcance do poder do Anel sobre Sméagol e preveniu-o:

"- Sim, sim, senhor! - exclamou Gollum. - Perigo terrível! Os ossos de Sméagol tremem só de pensar nisso, mas ele não foge. Tem de ajudar o senhor simpático.
- Não me referia ao perigo que todos nós compartilhamos - explicou Frodo. - Refiro-me a um perigo que só te ameaça a ti. Fizeste um juramento por aquilo a que chamas o Precioso. Lembra-te disso! Prender-te-á a essa promessa, mas, ao mesmo tempo, procurará uma maneira de conduzir à tua própria perdição. Isso já começou, até, a acontecer. Revelaste-te há pouco a mim, estupidamente. Devolva-o a Sméagol, disseste. Não voltes a dizê-lo! Não permitas que esse pensamento cresça em ti! Nunca o reaverás. Mas o desejo de o teres poderá atraiçoar-te e levar-te a um fim cruel. Nunca o reaverás. Se a necessidade fosse extrema, Sméagol, eu poria o Precioso, o Precioso que te dominou há muito tempo. Se eu, usando-o, te desse ordens, tu obedecerias, nem que eu te mandasse lançar-te de um precipício ou atirar-se ao fogo. E as minhas ordens seriam nesse sentido. Por isso, tem cuidado, Sméagol!" (As Duas Torres, p.269)

Quem poderia, alguma vez, contrariar a vontade do anel? O grande Isildur não o conseguiu, mas também sabemos que os hobbits eram feitos de outra têmpera!... Afinal, não terão sido criados com esse propósito?...
Gandalf, ele mesmo, ainda a saga da irmandade não tinha começado, deixa entrever possibilidades inesperadas:

"Mas suponho que existiu mais qualquer coisa de que ainda te [refere-se a Frodo] não apercebeste. Nem o próprio Gollum estava completamente destruído. Demonstrou ser mais resistente do que até mesmo um dos Sábios poderia ter imaginado... mais resistente, talvez, do que um hobbit. Havia um cantinho do seu espírito que ainda era seu e pelo qual a luz entrava, como luz a entrar nas trevas por uma fresta: luz do passado. Creio que foi verdadeiramente agradável para ele ouvir de novo uma voz amável que lhe levava recordações do vento e das árvores, do sol na relva e de outras coisas semelhantes e esquecidas.
Mas isso, claro, só serviria para, no fim, tornar a sua parte má ainda mais furiosa. A não ser, evidentemente, que pudesse ser dominada. Que pudesse ser curada. - Gandalf suspirou. - Infelizmente, porém, há pouca esperança de isso lhe poder acontecer. Mas pouca não significa nenhuma, apesar de ele ter possuído o anel durante tanto tempo, quase desde que se lembra. Lembremo-nos de que não o usava muito, havia muito tempo, pois naquele negrume raramente precisava disso. Com certeza nunca se 'desvanecera'. Continuava rijo. Contudo, aquela coisa devorava-lhe o espírito, claro, e o tormento tornara-se quase insuportável.
Afinal, todos os 'grandes segredos' existentes debaixo das montanhas tinham-se revelado apenas noite vazia: não havia mais nada para descobrir, mais nada que valesse a pena fazer; só lhe restavam a repugnante comida que devorava furtivamente e as recordações ressentidas. Era um desgraçado. Detestava a escuridão, mas ainda detestava mais a luz. Odiava tudo, e o anel mais do que qualquer outra coisa.»
- Que quer dizer? - perguntou Frodo. - O anel era, com certeza, uma coisa preciosa para ele, a única que lhe interessava, não acha? Se o odiava assim, por que não se livrara dele, ou não partia e o abandonava?
- Já devias ter começado a compreender, Frodo, depois de tudo quanto ouviste. Ele odiava-o e amava-o, do mesmo modo que se odiava e amava a si próprio. Quanto a livrar-se dele, não podia: não lhe restava qualquer livre vontade na matéria. (A Irmandade do Anel, pp. 73-74)

Aliás, recorrendo (apenas como mais um suporte) aos Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média, logo no início do capítulo "A Caçada do Anel", lê-se que o próprio Sauron reconheceu esse estranho poder que vinha do Gollum:

"Gollum foi aprisionado em Mordor no ano de 3017 e levado para Barad-dur e aí interrogado e torturado. Depois de conseguir saber dele o que podia, Sauron libertou-o e mandou-o embora. Não confiava em Gollum, pois adivinhava nele algo indómito que não podia ser vencido, nem mesmo pela sombra do medo, a não ser destruindo-o. Mas Sauron adivinhou também a profundidade da maldade de Gollum para com aqueles que o tinham «roubado» e, calculando que iria à procura deles para se vingar, esperou que os seus espiões fossem assim conduzidos ao anel." (Contos Inacabados de Númenor e da Terra Média, p.350).

Devemos admitir que Tolkien tenha delineado diferentes finais para a saga do Anel, aliás, ele mesmo revela algumas possibilidades nas suas cartas. Contudo, confesso pessoalmente, a solução encontrada é, a meu ver, a mais rica quer a nível do significado quer a nível da estrutura da acção. Como o próprio Tolkien admite (carta 246), Frodo nunca poderia ter dominado o Anel (isso seria subverter completamente tudo aquilo sobre o qual a estrutura da narrativa se fundamentara - o poder imenso do Anel)! Reclamando o Anel para si, é plausível que, como Senhor do Anel, dominasse os Nove, mas nunca poderia enfrentar Sauron, pois sobre este o Anel não tinha qualquer poder… pertencia-lhe! Tolkien avança, nesta carta, com outras alternativas: ou Frodo, após o primeiro impulso de reclamar o Anel, vislumbraria a necessidade de se imolar juntamente com o Anel para O destruir, ou Gollum, num acto de amor por Frodo e de ódio por Sauron (para que este não reclamasse o Anel), se sacrificaria. Seria bonito, sem dúvida, mas seria plausível? Creio que este final corria o risco de ser demasiado "romantizado" e que a verosimilhança, também necessária num "conto de fadas" (denominação de Tolkien), se perderia!
Tolkien, com a solução encontrada para final, não retira complexidade à personagem de Gollum/Sméagol, nem poder à personalidade de Frodo. Pelo contrário! Sméagol torna-se o ponto chave de toda a acção, um elo estrutural subtil, mas fortíssimo, de toda a acção, desde "O Hobbit": a valorização da compaixão, da generosidade, do desprendimento. Não posso, perdoem-me, deixar de citar:
BILBO - " O hobbit quase deixou de respirar e ficou também rígido. Estava desesperado. Tinha de sair daquela horrível escuridão enquanto ainda lhe restava alguma força. Tinha de lutar, tinha de apunhalar aquela coisa nojenta, de lhe tirar os olhos, de a matar. Era precisamente isso que o outro pretendia, também: matá-lo. Não, não era uma luta leal. Ele agora estava invisível. Gollum não tinha espada. Na realidade, Gollum não ameaçara matá-lo, nem tentara fazê-lo. Por enquanto. E estava triste, sozinho, perdido. Uma súbita compaixão, uma piedade misturada com horror, encheu o coração de Bilbo: um vislumbre de dias intermináveis, iguais, sem luz nem esperança de melhora, pedra dura, peixe frio, sempre a vigiar e a murmurar." (O Hobbit, p. 82);

GANDALF - "Merece a morte! Acho que sim. Muitos dos que vivem merecem a morte. E alguns dos que morrem merecem a vida. Podes dar-lha? Então não te mostres tão empenhado em distribuir a morte como julgamento. Pois nem todos os sábios conseguem ver todos os fins. Não tenho muita esperança de que Gollum possa ser curado antes de morrer, mas, no entanto, essa possibilidade existe. E ele está ligado ao destino do anel. O coração diz-me que ainda tem que representar um papel qualquer, para o bem o mal, antes do fim. E, quando isso acontecer, a compaixão de Bilbo poderá influenciar o destino de muitos, e em especial o teu. De qualquer modo, não o matámos; é muito velho e muito desgraçado. Os Elfos da floresta têm-no preso, mas tratam-no com toda a bondade que conseguem encontrar nos seus sensatos corações."A Irmandade do Anel, p. 79);

FRODO - "Sentiu-se envergonhado. Aquilo parecia-se muito com traição. Não receava, verdadeiramente, que Faramir consentisse que matassem Gollum; mas provavelmente aprisioná-lo-ia e amarrá-lo-ia. E o procedimento de Frodo pareceria, com certeza, uma traição à desgraçada e traiçoeira criatura. Por certo seria impossível fazê-lo compreender, ou acreditar, que Frodo lhe salvara a vida da única maneira possível. Que outra coisa poderia fazer? Ser leal, na medida do possível, a ambos os lados." (As Duas Torres, p. 322);

SAM - "- Agora nós! - exclamou Sam. - Posso finalmente ajustar contas contigo! (...)
A mão de Sam hesitou. O seu espírito fervia de cólera e da recordação de males feitos. Seria justo abater aquela criatura traiçoeira e assassina, justo e muitas vezes merecido. Além disso, parecia a única coisa segura a fazer. Mas, no fundo do seu coração, qualquer coisa o conteve: não podia golpear aquela coisa caída no pó, desamparada, atormentada, completamente destruída. Ele próprio transportara o anel, ainda que por pouco tempo, e isso permitia-lhe avaliar, muito vagamente, a angústia do corpo e do espírito mirrados de Gollum, escravizados ao anel, incapazes de voltar a encontrar paz e sossego na vida. Mas Sam não encontrou palavras para exprimir o que sentia." (O Regresso do Rei, p. 238 );

Digamos que, com a destruição do Anel, não se deu a simples destruição de um foco de Mal. Se nos remetermos à construção do Mundo, de acordo com o imaginário mitológico de Tolkien descrito no "Sillmarillion", os filhos de Ilúvatar (e, aqui, falo em todas as raças, porque, em última instância, foram todos criados pelo Um) perderam-se por ambição, por egoísmo. A destruição do Anel será a remissão desse mal, pois foram a compaixão, a solidariedade e a humildade que o destruíram. Nesta mensagem reside, a meu ver, toda a beleza e intemporalidade da obra de Tolkien.


Fontes: Encyclopedia of Arda, The Thain's Book, Tolkien Gateway, Valinor