Skadi - A Senhora do Inverno

17/08/2018

Skadi era uma giganta renomada pela sua beleza e que se tornou deusa ao se casar com um dos deuses Aesir. Ela morava no palácio Thryndheim (lar do barulho), herdado do seu pai, e era descrita como uma linda e vigorosa mulher, envolta em peles brancas, que deslizava sobre esquis e segurava um arco e flecha.

Considerada a regente do inverno, da caça, dos esquis e trenós, Skadi era reverenciada pela sua coragem, determinação, força, combatividade e a resistência perante desafios e dificuldades. Supõe-se que ela fazia parte das divindades nórdicas ancestrais, e que seu nome tinha sido escolhido para designar Escandinávia como Skadhinauja. Vários lugares no leste e sul da Suécia, que guardam seu nome, revelam a antiguidade do seu culto.

Apesar de ser conhecida como "a noiva brilhante dos deuses , o nome de Skadi significa "sombra", indicando sua ligação com a morte e a escuridão, aspectos associados com os longos meses de inverno que ela regia. Skadi era também regente da caça com arco e flecha, suas armas, usadas pelos caçadores nos seus deslocamentos com esquis e trenos, que a reverenciavam como Öndurdis (a Disir com sapatos de neve). No folclore escandinavo reconstituído pelos contos dos irmãos Grimm e de Andersen, o arquétipo de Skadi reaparece como a Rainha da Neve.

No mito do deus Njörd, foi descrito o seu casamento fracassado, tentando conciliar a pretensão de Skadi de se casar com o deus Baldur, como vingança pela morte do seu pai Thiazzi pelos Aesir. O motivo dos pés - critério definido pelos deuses para Skadi escolher o noivo - aparece em varias estórias e contos de fada e é originário da Idade do Bronze, em que foram gravadas inúmeras representações de pés sobre rochedos, sugerindo os atributos divinos de fertilidade.

A condição imposta por Skadi para se casar com um deus pois ela recusava a proposta dos Aesir feita para ressarcir a morte do seu pai - também indicava uma alusão a ritos de fertilidade. Para fazê-la rir (exigência de Skadi para aceitar negociar), Loki amarrou seus testículos a barba de um bode e a briga entre ambos, culminando com a queda de Loki nos pés de Skadi, atingiu o objetivo. A aparente castração de Loki reproduzia rituais da magia seidhr (reservada só as mulheres, mas usada por Loki e Odin) e foi interpretada também como uma cena de sexo entre Loki e Skadi, conforme foi por ele mencionado posteriormente. Este episódio pode ser uma metáfora da ação do calor (representado por Loki) derretendo a rigidez da terra coberta por camadas de gelo e permitindo assim o abraço de Njörd (o verão), mas que não conseguiu segurar Skadi além da curta duração dos meses de verão. A natureza invernal de Skadi aparece na sua saudade pelas tempestades de neve e os ventos gélidos da sua morada nas montanhas de Jötunheim.

Quando Loki foi julgado e condenado à punição pelo suplício escolhido pela assembleia de deuses - devido às suas inúmeras maldades (culminando com a morte de Baldur por ele orientada) - Skadi se apresentou para colocar uma serpente venenosa sobre sua cabeça, cujo veneno escorrendo sobre o rosto lhe provocava terríveis contorções. A inimizade de Skadi em relação a Loki seria uma vingança tardia da participação dele na morte do seu pai. Nessas citações de episódios de alguns mitos, podemos perceber a presença dos mesmos personagens - Baldur, Skadi e Loki - participando de eventos correlatos, que entremeiam luz e sombra, inverno e verão, traição e vingança, temas comuns na mitologia nórdica.

Algumas fontes afirmam que Odin teria sido amante de Skadi e o filho deles teria sido o ancestral dos monarcas noruegueses. Skadi era prima de Gerda, a amada de Frey.

Skadi era honrada pela coragem e determinação em abrir mão de um relacionamento inadequado, pelas suas qualidades guerreiras - vistas como habilidades nas competições esportivas e nas artes marciais - e pela resistência perante adversidades e desafios (no plano profissional, circunstancial ou familiar). O episódio da sua incompatibilidade no casamento com o deus Njörd mostra o contraste entre duas naturezas e formas diferentes de ver, sentir e viver, colocando em destaque a determinação da noiva em não se submeter às exigências do marido e a coragem para retornar ao lar ancestral e às suas ocupações favoritas. Skadi tornou-se assim a padroeira das mulheres que preferiam a liberdade em lugar das concessões, exigências e sacrifícios inerentes a um relacionamento, bem como para sustentar a sua força e determinação quando o preço da liberdade implicava em privações e solidão

Fontes: Templo de Apolo, FAUR,Mirella.O princípio feminino - As deusas e seus mitos.in:__________.Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.São Paulo/SP:Cultrix,2011.Cap. 5.p.279-280