Shiva - O Deus da Destruição

03/08/2018

Shiva, o benfeitor Destruidor Terceiro membro da Trindade hindu, com Vishnu e Brahma, Shiva é o deus que destrói para criar de novo. O seu símbolo é o linga, que representa a energia vital, pedra fálica erguida numa bacia quadrada, que representa o yoni, o sexo feminino. Num templo de Shiva, o linga, que é o umbigo do mundo, ocupa um lugar central: «Aquele que venera o falo, sabendo que é a causa primeira, a fonte da consciência, a substância do universo, está mais perto de mim do que qualquer outro ser» (Shiva Purana). O falo fecunda a matriz para realizar a união dos princípios: «A vasta imensidão é a matriz na qual deponho a minha semente. Dela nasce o primeiro elemento e, depois, todos os outros elementos da existência» (Bhagavad Gita).

Shiva é o deus mais poderoso do panteão indiano. Na sua forma védica, é Rudra, o deus negro e demoníaco das tempestades e da morte, senhor da destruição, símbolo da vida selvagem, que comanda as «ruidosas, devastadoras e sibilantes devoradoras de carne» (Rigveda, IV), e a quem se implora: «Não sejas insensível, não faças mal ao nosso gado, nem aos nossos cavalos, não massacres os nossos heróis com a tua fúria, Senhor das Lágrimas» (Shvetashvatara Upa-nishad, 4,22). Nos Vedas, a palavra shiva, «benéfico», é um qualificativo aplicado a Rudra nos seus aspetos mais suaves. No hinduísmo, Rudra desaparece para se tornar um aspeto de Shiva; daí a natureza dupla de Shiva, simultaneamente destruidor e benfazejo. Assim, é graças a ele que as pessoas se desembaraçam dos velhos hábitos e que se pode realizar a renovação. Ela é a tendência para a dispersão em virtude da lei segundo a qual tudo o que nasce se deve desintegrar e desaparecer. Shiva representa, para o homem, a morte física, que é temida, mas também a libertação dos apegos, que é profundamente desejável.

Enquanto Shankara, é aquele que dá a felicidade ilimitada, que é a experiência do conhecimento supremo. A sua representação mais alegre e uma das mais populares é o Shiva Nataraja, o Dançarino Cósmico. Esta dança da felicidade, a Anandatandava, representa a destruição e a criação do universo, bem como o ciclo das reencarnações do homem. Enquanto dança, o deus pisa um demônio desprezível, que representa o ego ignorante, Apasmara Purusha. Uma das suas mãos esquerdas com o dedo apontado para o pé levantado representa moksha, a libertação do devoto, desembaraçado dos seus laços terrestres. Quanto às línguas de fogo que rodeiam o dançarino, representam certamente a destruição, mas a própria dança é um ato de criação que desperta as energias potenciais e propaga aos quatro cantos do mundo as cinzas do universo destruído, para desenhar os contornos do mundo novo. A dança é uma forma de exercício corporal que, como o ioga, conduz ao transe. Por conseguinte, não admira que o senhor do Ioga seja também o da Dança.

Shiva, deus do ascetismo e dos yogis, pratica o autodomínio e vive na solidão. É a ele que se atribui a revelação das técnicas do ioga aos homens. Asceta perfeito, é representado nu, com os cabelos em desalinho e o corpo coberto de cinza.

A própria aparência de Shiva difere da dos outros deuses. Apresenta-se sob múltiplos aspectos e, no Shiva Purana, são-lhe atribuídos 1008 nomes. É, entre outros, o deus com três olhos (tri-locana), com o pescoço azul (nila-kantha), portador do Ganges (Gangadhara), com os cabelos em desalinho (jata-dhara). Cada um dos seus quatro rostos representa um aspecto do seu poder: o Rugidor, o Grande Deus, o Senhor da Dança, o terrível e o belo Senhor. Os seus três olhos representam o Sol, a Lua e o fogo. Quando chega a altura de terminar um ciclo do mundo, quando se rompe o equilíbrio frágil entre as forças do bem e as forças do mal, Shiva abre o seu terceiro olho e destrói toda a Criação. Este olho apareceu no dia em que a sua esposa Parvati, por brincadeira, pôs as mãos frente aos seus olhos; o mundo ficou mergulhado na escuridão e toda a vida se tornou impossível na Terra. Em tempos normais, este temível terceiro olho mantinha-se fechado. Uma serpente dá três voltas ao seu pescoço, simbolizando o passado, o presente e o futuro, assim como o poder do ioga, que permite a Shiva destruir e reconstruir o mundo. Numa das suas mãos segura um tridente, que representa os três aspetos da Trindade: criação (Brahma), conservação (Vishnu) e destruição (Shiva). Com esse tridente, mata os demônios ou destrói o universo depois de chegada a hora. Tem também um pequeno tambor de couro, o damaru, que simboliza a união dos dois princípios, o masculino (o linga) e o feminino (o yoní). Usa um colar de caveiras e o seu corpo branco acinzentado está coberto de cinzas. Com efeito, os yogis descobriram que a energia sexual é a mais eficaz para a conquista de si próprio. Ao queimar a sua energia sexual, Shiva produz as cinzas com que depois cobre o corpo. É para se parecerem com ele que os saddhus (eremitas) esfregam o corpo com as cinzas das piras funerárias. Shiva apresenta-se sentado numa pele de tigre, que evoca a sua soberania sobre a natureza, cuja origem é contada numa lenda. Certo dia em que Shiva errava, nu, pela floresta, as mulheres dos sábios ficaram seduzidas pela sua beleza. Para se livrarem desse asceta importuno, os sábios fizeram aparecer um tigre, mas o deus matou o tigre e sentou-se em cima da sua pele.

Embora viva como asceta, Shiva ama a sua primeira esposa, Sati, que se sacrifica pelo fogo, bem como a segunda, a carinhosa Parvati. É pai de Ganesh, o deus com cabeça de elefante. Vive nos Himalaias, no monte Kailash, e monta o touro Nandin (Alegre), branco como o cume dos Himalaias e, tal como o seu amo, símbolo do instinto erótico.

Uma das grandes benesses atribuídas a Shiva tem a ver com a estória do Ganges. Na origem, o Ganges era um rio celeste personificado por uma deusa, Ganga. Mas havia tantos homens mortos na Terra que as suas cinzas ameaçavam tornar o solo estéril e abafá-lo. Foi então que o asceta Bagirata rezou para que o Ganges descesse do Céu para a Terra. Mas se as suas preces fossem ouvidas, a Terra seria totalmente inundada e toda a vida seria irremediavelmente varrida da sua superfície. É então que intervém Shiva, que faz o Ganges descer sobre a sua cabeça. As ondas do rio misturam-se então com a sua cabeleira e chegam à Terra numa multidão de cursos de água. Do céu, os deuses contemplavam o magnífico espetáculo: «Montadas em carros semelhantes a cidades, em cavalos, em elefantes e em embarcações, as divindades acorreram para ver essa maravilhosa descida do Ganges para este mundo - eles, os deuses de estado incomensurável. E enquanto que afluíam assim com o brilho dos seus adornos, o firmamento, sem nuvens, brilhou como que iluminado por uma centena de sóis [...]. Os jorros da água branca de espuma encheram os ares [...]»(Anthologie sanskrite, L. Renou).

Os santuários de Shiva, uma das mais complexas divindades hindus, estão geralmente localizados longe dos das outras divindades. Shiva é o deus tutelar de Benares (Varanas), no ponto de encontro dos três Ganges (o Ganges celeste, o rio terrestre e o rio subterrâneo). Os hindus pensam que quem morrer em Benares e cujas cinzas sejam espalhadas no rio alcança diretamente o nirvana.


Informações extras

Shiva era originalmente o deus da tempestade Rudra nas orações védicas, até que se tornou um deus à parte no século II a.e.c. Como Vishnu era o preservador, Shiva era o destruidor; ainda que fosse também um juiz misericordioso, tanto um unificador como um despedaçador. O deus dos opostos, Shiva conduzia uma dança frenética e selvagem ao lado de demônios e renegados. Sua meditação e dança contínuas forneciam-lhe grande poder e força. Ele possuía armas invencíveis, como seu terrível terceiro olho, um tridente, uma espada e raios. A cada ciclo do universo, Shiva abre seu terceiro olho e dança, destruindo tudo à sua vista, incluindo o próprio universo, até que a criação tem início novamente


A fonte da força de Shiva

Segundo deus da Trimurti hindu, ou trindade de deuses, Shiva e tido como 'o destruidor'. Seu poder destrutivo é equilibrado pelo de criarão, assim como sua dança selvagem é contrabalançada pelo amor à meditação, e seu julgamento rápido pela misericórdia. Shiva sempre teve grande força e muitas armas, mas aumentava seu poder enganando os outros deuses quando eles estavam sob o ataque de demônios e precisavam de sua ajuda. Um grupo de demônios, ávidos de poder, convenceu brahma a lhes dar três dos mais fortificados dos castelos já
construídos. Eles só poderiam ser tomados por um deus, usando apenas uma flecha. Assim que os demônios ocuparam os castelos, os deuses perceberam que nenhum deles tinha uma flecha tão poderosa, capaz de destruir tais fortalezas. Os demônios também tinham ciência disso e logo começaram a atacar os deuses. Shiva, o destruidor, era o mais forte dentre os deuses, e, assim, as outras divindades pediram a sua ajuda. Ele lhes emprestou metade de sua Força, o que não funcionou. Para ser uma arma eficaz a força precisa ser equilibrada pelo controle, e nenhum dos outros deuses era capaz de controlar sequer metade da força de Shiva.

Por isso, Shiva elaborou um plano diferente. Se os deuses unissem suas forças e depois lhe emprestassem metade dela, ele ficaria muito mais forte e ainda seria capaz de controlar essa força enorme. Assim eles derrotariam os demônios. Os deuses concordaram, e Shiva concentrou toda aquela nova força, atirando uma única flecha, que derrotou os demônios. Finda a guerra, os deuses pediram suas forcas de volta, o que Shiva recusou. Tornara-se assim o mais poderoso dos deuses e como tal permaneceu.


A disputa entre Shiva e Daksha

Um dos mais famosos mitos sobre Shiva está relacionado à inimizade com a família de Brahma. Tudo começou quando Shiva cortou uma das cabeças de Brahma e foi banido do céu. A seguir, ele criou problemas para Daksha, o filho de Brahma, o forçou o seu casamento com a filha de Daksha. Longe de trazer a reconciliação, o casamento piorou o mau relacionamento entre eles. Apenas a intervenção de Vishnu evitou a tragédia. Quando Shiva cortou uma das cabeças de Brahma, os outros deuses baniram-no
do céu. Então, quando Daksha organizou a festa de noivado a filha Sati, Shiva não foi convidado. No auge da festa, Daksha pediu a Sati para jogar a guirlanda e conhecer o marido escolhido dentre os deuses reunidos. Quando Sati lançou-a no ar, Shiva apareceu e a arrebatou. Assim,
para desgosto de
Daksha, os dois tiveram de casar, mas Shiva e ele continuaram as brigas.

Sati odiava a disputa entre Shiva e Daksha e sentia-se cada vez mais infeliz. E finalmente, como os dois continuavam a se insultar, ela se jogou no fogo sacrificial. Shiva culpou Daksha e o atacou furioso, cortando- lhe a cabeça. Depois, mandou os demônios procurarem o corpo de Sati no céu e, quando eles a trouxeram de volta, Shiva dançou o Tandav a dança da morte com o corpo dela. O objetivo dessa dança era trazer o fim do cosmos e Shiva, devido à intensa dor pela perda da esposa, a executava antes do tempo certo.

Os deuses ficaram muito preocupados, e Vishnu (o preservador), ao ver o que acontecia, interferiu. Fez a esposa de Shiva renascer como Parvati, uma deusa ainda mais bela que Sati e esposa perfeita.

Recuperada a esposa, Shiva decidiu reaver a vida de Daksha, mas descobriu que não poderia devolver ao sogro a sua cabeça, pois os demônios a tinham roubado. Então usou a cabeça de um bode, a criatura mais à mão. Isto tampouco ajudou a que Daksha passasse a apreciar Shiva, e eles permaneceram inimigos para sempre.


O que é o Deus Shiva?

Shiva é um ser primordial que destrói para que se possa reconstruir, permitindo a dinâmica cíclica da criação/renovação do universo.

Fontes: Templo de Apolo, BARTLETT, Sarah. Shiva. in: __________, A Bíblia da Mitologia Tudo o que você queria saber sobre mitologia. São Paulo: Pensamento, 2012. Cap. II, p. 55, hinduismo online, Mythology & Culture