Rei Arthur - O Lendário lider britânico

07/08/2018

Quase todo mundo já ouviu falar pelo menos uma vez no rei Arthur, assistiu a um dos muitos filmes feitos sobre sua lenda ou leu histórias sobre alguns de seus cavaleiros em meio a aventuras e desventuras. No entanto, a imagem da qual sempre lembramos dele - e também a mais difundida - é a do cavaleiro barbudo protegido por uma armadura feita de um reluzente metal prateado, armado com uma longo lança e montado em um belo cavalo branco coberto por placas de proteção e telas.

Mais uma vez, isso é falso. Apesar de parecer provado que Arthur existiu, ele nunca foi um cavaleiro medieval. À primeira vista, seu aspecto e o dos cavaleiros nos recordaria mais um bando de mercenárias do império romano, vestidos com malhas extensas sobre túnicas, calças e sandálias, cobertos por peles de urso para enfrentar o frio e com armamentos e montarias no melhor estilo romano.

Merlin também não é um velhinho simpático de barba branca vestido com uma enorme túnica azul com estrelas e planetas bordados e com um chapéu com o mesmo desenho, mas vestia-se como um druida, um mago, de olhar aterrorizante e aspecto um tanto sinistra, apesar de vestir a túnica branca do sacerdócio.

Nenhum deles habitava grandes castelos com pendões brilhantes e damas elegantemente vestidas esperando nas sacadas, mas em fortalezas as quais os legionários deixaram pan trás de si em sua precipitada retirada ao começar a queda do Império Romano.

A imagem fantástica que temos de Arthur e de seus seguidores surgiu na Idade Media, não em sua época, apesar de o mito ter surgida devida ao impacto provocado pelos atos protagonizados por eles e que foram alimentados pela imaginação popular durante séculos.

Numa época na qual ler e escrever era um luxo para poucos, a tradição ali enriqueceu progressivamente o mito e este acabou por eclodir centenas de anos mais tarde como o modelo de cavaleiro cristão ideal. Os pintores medievais foram os primeiros a oferecer sua visão sobre como poderiam ser os integrantes da Távola Redonda. Os poetas contemporâneos encarregaram-se de adaptar a lenda escrita. Em ambos os casos, isso foi feito medievalizando suas roupas, suas armas e seu aspecto geral em vez de representá-las de acordo com a época real na qual viveram.

O objetivo era fazer com que o povo aceitasse e compreendesse melhor o chamado "ciclo Arthuriano".

Pensar em Arthur como um rei medieval no comando de cavaleiros medievais é a mesma coisa que imaginar Cristóvão Colombo vestido de Hippie e utilizando um notebook para levar o diário de bordo e definir o rumo de sua nau e suas duas caravelas à America...
A primeira menção escrita que conhecemos de seu mito pertence a Gododdin, apesar de se calcular que a tradição recolhida nesse texto poderia remontar por via oral pelo menos até o século VII. Ele também é mencionado em outros escritos antigos, apesar de ser necessário esperar até a chegada do clérigo Geoffrey de Monmouth, no século XII, para que fossem assentadas as bases da lenda medieval a partir de sua História dos Reis da bretanha. Monmouth escreveu animado para Eleanor de Aquitânia e Henrique II Plantageneta, que, fascinados por sua figura heróica, queriam ser herdeiros do grande rei.

Sobre a mesma época, o poeta Robert Wace animou o aspecto romântica da história descrevendo a Ordem da Távola Redonda. Mais tarde, o poeta Chrétien de Troyes acrescentou novos relatos e, por fim no final da século XV, sir Thomas Mallory traduziu boa parte dos textos para o inglês. Arthur havia sido transformada por obra e graça de uma porção de obras bem-intencionadas. Deixava assim para trás seu passado de caudilho pagão no comando de um bando de homens duros para assumir o papel de cavaleiro ideal.

A verdade é que Arthur e companhia vivem em um momenta critico para a Inglaterra. Até o ano de 500 d.e.c., quando a glória de Roma se desfaz coma uma colossal estátua de madeira roída desde o interior pelos cupins. Os césares conquistadores não passam de uma boa recordação para os latinos, agonizados pelas sucessivas invasões de povos bárbaros que se movem mais pela necessidade de terras para colonizar do que pelo sadismo destruidor.

Os cada vez mais corruptos inquilinos do palácio na metrópole desejam ter suas legiões - mas a maioria delas já é integrada em grande parte por mercenários não italianos - bem perto deles, em vez de enviá-los aos confins do império.

Os nobres bretões acostumaram-se aos hábitos romanos e querem continuar vivenda como eles, algo muito difícil sem sua administração e seu exercito, principalmente num povo tão anárquico quanto o celta. Mas burocratas e soldados são chamados para o continente e os que ficam na ilha muitas vezes o fazem na qualidade de bandoleiros dispostos a se aproveitar das circunstâncias para rapidamente garantir seu futuro. A isso, soma-se a chegada dos primeiros grupas de germânicos, também pressionados por seu crescimento demográfico, em busca de algum lugar na qual passam se estabelecer.

A ordem romana vem abaixo e a insegurança toma conta dos bretões. Não há uma capital clara, nem sequer um centro mínimo de poder reconhecido em torno do qual gravitar. Sendo assim, os escassos grupos organizados de homens armados dedicam-se a pilhagem ou se colocam a serviço de quem pagar mais: nobres com vaidade suficiente para quererem ser chamados de reis, apesar de serem incapazes de conquistar um poder suficiente que justifique um titulo semelhante.

Em meia ao caos, aparece Arthur, apelido que significa "com aspecto de urso". Entre os gauleses romanos, Artio era a deusa Urso e Artaios era um das sobrenomes conferidos pelos romanos ao deus Lugh. A palavra art significa exatamente "urso". Tudo isso sugere a aparência física que ele devia ter: nada educado no aspecto de um monarca elegante com o cabelo bem cortado, a cara barbeada e as roupas limpas, mas provavelmente um guerreiro imponente, feio, fisicamente avantajado e com grande capacidade de liderança.

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Arthur da Lenda


Antes de Arthur, em meia a crescente anarquia, encontramos a "rei" Vortigem - de vor, prefixo aumentativo, e tigernos, chefe de clã; ao seja, a Grande Líder. Apesar de seu sobrenome, é uma pessoa difícil de se confiar, um traidor que com a ajuda de seus aliados saxões "depõe" o "rei" Constantino e obriga seus filhos Emrys Wledic e Uther Penndragon a se exilar em Armórica. Ambos retornarão com guerreiros suficientes para derrotar Vortigem e queimá-lo, junto com seu castelo às margens da rio Wye.

Na época de Vortigem já aparece um tipo muita esquisito do qual se diz que sua mãe foi uma monja e seu pai foi o diabo em pessoa. Por esse motivo, estava versado, apesar de sua juventude, nos mistérios da natureza e era capaz de realizar todo o tipo de façanha. Ele era Myrddin Emrys, ao coma nós o conhecemos, Merlin, o Mago. Todos o temiam e o respeitavam e muitos seguiam seus conselhos.

O fato e que, após a breve reinada de Emrys Wledic, que sucedeu Vartigem com a nome de Ambrosia, diversos nobres disputaram a carpa, entre eles, seu irmão Uther "Cabeça de Dragão" - símbolo de gales. São tempos realmente obscuros, nas quais a vida não valia nada além da força com a qual alguém conseguia empunhar uma espada ou da astúcia de quem conseguia se esconder nos bosques.

Após alguns duros combates, Uther de Gales consolida-se como principal aspirante ao trona e a duque Garlais da Cornualia era seu principal rival. Pata piorar, o primeiro apaixona-se pela linda mulher do segundo, Igraine, e decide que não o vencerá em batalha, mas o matará. o quanto antes para ficar com ela.

Cansado da interminável guerra, Merlin decide intervir apoiando o nobre com mais chances a fim de unificar o reino e conseguir a paz para que seja possível prosperar. Ele fica a favor da linhagem de Uther. O druida o disfarça com a aparência física do duque e o introduz com seus truques em Tintagel, para que ele passa possuir carnalmente lgraine, enquanto no exterior o verdadeiro Garlais da Cornualia morre em combate.

Derrotadas as tropas inimigas, Uther amplia seu prestigio e sua influência e durante o período de calma que vem em seguida, Merlin cobrará seu preço, que não seria outro além do filho que foi fruto daquela noite de violenta paixão: Arthur. Nove meses depois, ele aparece em seu castelo e leva o bebê, para o desespero da mãe e a impotência do pai. Merlin entrega a criança a um cavaleira amigo seu, sir Hector, que promete cuidar dele como se fosse seu filho sem saber na realidade de quem se trata. Uther morre, não sem antes ter nomeado Arthur como seu herdeiro, de quem todos desconheciam seu paradeiro, com a exceção de Merlin.

Um novo e grave período de guerra civil recai sabre a Inglaterra até que Merlin convença todos os nobres para que assistam a um grande torneio de Natal em Londres, onde, dizia ele, um milagre revelaria o novo rei. É interessante ressaltar que o solstício de Natal é por tradição a data de nascimento dos deuses e dos heróis.

Aqui se desenvolve o episódio da espada presa na pedra, na qual os cavaleiros descobrem uma bigorna montada sobre uma pedra de mármore branca, levando dentro de si uma magnífica espada enfiada até a empunhadura com uma lenda impressa em uma falha que promete o trono da Inglaterra àquele que for capaz de tirar a espada da pedra. Todos tentam extraí-la, sem êxito. Na final, o modesto e jovem escudeiro de sir Kay, filho de sir Hector, consegue a façanha de forma não premeditada. Esse escudeiro não poderia ser outra pessoa senão Arthur.

Merlin revela então sa origem, mas os orgulhosos guerreiros não estão dispostos a se deixar governar por um jovem desconhecido e repetem a provo várias vezes até aceitá-lo em definitivo. Inclusive, depois disso, Arthur terá de lutar e derrotar diversos deles antes de se apossar da coroa.

Na realidade, o episodio é simbólico. A espada é a vontade do homem superior que é capaz de arrancá-la de si mesma, de sua natureza pétrea e vulgar, para utilizá-la em favor do bem e da justiça.

A famosa Excalibur é uma arma diferente - é entregue mais tarde à Dama do Lago -, mas expressa o mesmo conceito, se bem que em um nível superior: já não se trata da exclusiva vontade do ser humana, mas de uma bênção da natureza. Certamente, Excalibur é o nome afrancesado dessa arma, que se chama originalmente Kaledfwlch - parecido com Calad Bolg, espada mítica dos Tuatha. Além disso, há outras armas como o escudo Prytwen, a adaga Karnwenhan e a lança Rongomyant.

Com essa bagagem, Arthur irá conquistando para sua causa todos os grandes nobres, apesar de que eles ficarão definitivamente ligados a ele devido à sua capacidade de liderança e à sua coragem na batalha de Monte Badon, na qual os bretões derrotam os germânicos e os expulsam da ilha durante muito tempo. Para comemorar esse verdadeiro acontecimento e reforçar a unidade entre todas, nasce a Ordem da Távola Redonda. Todas os seus membros sentam-se periodicamente em torno do móvel de madeira. Diz-se que ele era tão grande que em torno dele poderiam sentar confortavelmente 150 cavaleiros. Seu formato é premeditado, para sublinhar a caráter de irmandade, de pares ou iguais entre todos os seus membros. Ninguém podia reivindicar um assento preferencial. No mito, trata-se de um presente de casamento de Leodegrance, pai de Guinevere, quando ela se casa com Arthur.

Em Winchester, conserva-se uma mesa que, segunda a lenda local, pertencia a Arthur e seus cavaleiros. Mas comprovou-se cientificamente que ela foi construída apenas durante a Idade Media.

Após a expulsão dos saxões, Arthur dedica-se de corpo e alma à construção de um reino forte e protegido por seus cavaleiros, que atuam em seu nome e por isso devem ser ao mais audazes, valorosos, inteligentes e educados. Os mais famosos são sir Lancelot do Lago - único deles de origem bretã continental, defensor da rainha e melhor de todos os cavaleiros até cometer o adultério com a rainha Guinevere, por quem se apaixona desde o primeiro momento; sir Gawain, o alegre e habilidoso sobrinho do rei e principal rival de Lancelot; por curiosidade, sabemos que no século XII viveu um bardo chamado Gwalchmai, a forma gaulesa de Gawain; sir Tristão, o romântica sabrinho de Mark da Cornualia que se apaixona por Isolda, a mulher destinada inicialmente a seu tio, e marre por isso; sir Bedivere, o mais fiel a Arthur e o único dos grandes que sobreviverá à última grande batalha de seu rei e se encarregará de devolver Excalibur à Dama do Lago, jogando-a na água a pedido de seu senhor; sir Kay, o filho de sir Hector e irmão de Arthur e seu senescal em Camelot; sir Perceval, o menos educado e nobre entre todas eles, pois provem da plebe, mas sua coragem e sua entrega o tomam merecedor da vaga no mais seleto grupo de campeões; e sir Galahad, o última a chegar, mas o de coração mais pura, mais até que o de seu rei; ele ocupa o chamado assenta perigosa, único lugar da mesa que continuava vago desde o inicio por ardem expressa de Merlin, já que ali só poderia se sentar um cavaleira cuja vida seria tão breve quanto brilhante, pois seria o primeiro a encontrar o Santo Graal.

As aventuras de todos eles e de muitas outros transcorrem num mundo no qual aparecem uma ou outra vez todas os arquétipos dos heróis e deuses celtas disfarçados de cavaleiros, gigantes, ogros, monstros e bruxas. E impossível dizer aqui e agora uma mínima parte do que acontece a eles em um mundo fascinante e fabuloso no qual para ser cavaleiro não basta ser um bom guerreiro. É necessário ser também honesta, galante, alegre e quase tão belo de corpo quanta de alma: um homem inteiro.

A Idade Media introduziu um elemento cristianizável, convertendo Arthur em um defensor da fé romana perante o antigo culto representado por sua irmã de criação Morgana, descrita como uma feiticeira malvada e impiedosa quando o mais provável é que ela era algum tipo de sacerdotisa das velhas divindades, talvez até mesmo a deusa Ursa. Na mesma época, Merlin foi condenado porque dominava a magia e outras artes estranhas e não podia negar sua origem "diabólica". Mas ele não poderia ser assassinado. Afinal, aonde chegaria Arthur sem sua ajuda?

Assim, a clássica donzela se encarregou de cegar-lhe pela luxúria e depois o trancou em um palácio de cristal ou em uma cova mágica. Originalmente, talvez tenha sido uma enviada do Outro Mundo, do mesmo Avalon - o País das Maçãs - onde acabaria Arthur, que aparece para guiá-lo ao descanso da imortalidade. De qualquer forma, o pecado da luxúria de Merlin é comparável ao de Guinevere e Lancelot e tudo isso conduz a uma divisão na ordem de cavaleiros e a doença de Arthur, que se transforma no Rei Pescador. Apesar disso, no fim de tudo, é provável que ele não seja totalmente inocente, pois alguns relatos atribuem a ele três amantes: Indec, Garwen (Perna Branca) e Gwyl.

Na falta de um Merlin para cuidar dele, lança mão do velho caldeirão mágico de Dagda para curar o monarca. Mas ninguém sabe onde ele está e ele precisa viajar até o fim do mundo para encontrá-lo. O cristianismo transformará essa nova expedição sagrada na busca do Santo Graal...

Quando Arthur consegue se recuperar, parte na direção do continente, até o castelo do Guarda Alegre, onde Lancelot está refugiado com a rainha adúltera. O cavaleiro não enfrenta seu antigo rei e Arthur recupera sua mulher, que acabará seus dias em um monastério.

O mito culmina na batalha de Camlann. Enquanto se encontra em terras bretãs, recebe a notícia de que seu sobrinho, ou talvez seu filho bastardo, Mordred assumiu a coroa na Inglaterra. Ele retorna depressa para enfrentá-lo, apesar de já estar velho e cansado e sentir que não vale a pena continuar lutando. Mas o fará como nos velhos tempos. Excalibur é usada nesse último combate, no qual Arthur e Mordred encontram-se frente a frente e morrem um na mão do outro...

Na verdade, o rei não chega a morrer. Agonizante, obriga sir Bedivere a devolver a espada sobrenatural a sua legitima dona. Quando está prestes a partir, chegam três donzelas de Avalon - em algumas versões, uma delas é a própria Morgana - e o carregam amorosamente. Elas o levam consigo a bordo de uma pequena embarcação o Outro Mundo, onde viverá para sempre e do qual voltará um dia se for necessário para salvar os seus. Por esse motivo, ele também é chamado de o Rei que Virá.

Durante a Idade Media, tentaram descobrir a tumba de Guinevere em Glastonbury, mas este local de sepultamento parece ser mais falso que a Távola Redonda de Winchester. Todos sabemos que Arthur chegou a Avalon e ali ainda permanece, aos cuidados das três donzelas.

Fontes: Templo de Apolo, Lendas Medievais Online, só história