Ragnarök - O fim dos tempos na mitologia nórdica

30/07/2018

Vários mitos nórdicos são permeados pela profunda compreensão e a resignada aceitação dos desígnios do destino, da transitoriedade da vida e da inexorabilidade da morte, as cujas leis eram submetidos todos os seres vivos e os próprios deuses. Por terem sido criados pela união de elementos opostos, gelo e fogo, gigantes e deuses, as divindades nórdicas não eram perfeitas nem eternas, tendo em si a semente da morte, assim como os seres humanos. A cosmogênese tem um perfil dramático, que segue em etapas até alcançar o clímax e depois se encerra de maneira trágica, mas entremeada pela justiça cósmica, com as inerentes punições e recompensas, como prenúncios de uma nova era. Os mais comoventes versos dos Eddas contidos no poema "Völuspa" são os que descrevem o dramático fim dos tempos, denominado Ragnarök ou Götterdämmerung em alemão (O Crepúsculo dos Deuses), título de uma ópera famosa do compositor Wagner. 


O Crepúsculo dos Deuses

Um longo inverno, escuro e tenebroso, que se prolongou durante três anos - chamado Fimbulvetr - ocorreu após a trágica morte do deus Baldur, acompanhado por manifestações de ódio, violência, crimes, incestos, estupros, destruição da terra e guerras entre os homens. As leis e regras humanas foram infringidas e a ordem estabelecida pelos deuses no início do mundo foi distorcida e deturpada. Os desequilíbrios humanos provocaram e aceleraram cataclismos naturais, como secas ou inundações, terremotos, erupções vulcânicas e tempestades violentas.

A neve caía sem parar, camadas de gelo cobriram a terra, os ventos sopravam de todas as direções, o sol e a lua foram alcançados e devorados pelos ferozes lobos que os perseguiam. A terra estremeceu, as estrelas se desprenderam da abóbada celeste e todos os mundos de Yggdrasil mergulharam na escuridão e no caos.

Acordada pelo tumulto geral, a Serpente do Mundo - Jóimungand -saiu do seu esconderijo marinho e começou a se contorcer, levantando ondas imensas que causaram maremotos e dilúvios. Essa turbulência colocou em movimento o navio Nagilfar (construído com as unhas de todos os mortos), trazendo os gigantes liderados pelo vingativo Loki. Os galos de Midgard e o pássaro vermelho da deusa Hel alertaram com seus cantos o deus Heimdall, que soou sua corneta para dar o temido alerta: "Ragnarök está começando", enquanto o galo vermelho Fialai, de Asgard, dava um grito agonizante. Imediatamente, todos os deuses e os guerreiros de elite de Odin (Einherjai) sacaram suas armas, montaram seus cavalos e atravessaram a galope a ponte do Arco-Íris, seguindo na direção da planície de Vigrid, palco da batalha final. Do norte, em meio a uma imensa neblina, chegava outro navio conduzido por Hrym, trazendo os gigantes de gelo. Niddhog começou a sacudir suas asas, criando pânico geral, enquanto os monstros Fenrir e Garm se libertaram dos seus cativeiros e saíram sedentos de vingança e ódio. Surt conduzia os gigantes de fogo e, brandindo sua espada flamejante, foi atear fogo nos palácios dos deuses de Asgard, despedaçando na sua passagem a ponte do Arco-íris. Antes do combate, Odin tinha ido à fonte de Urdh para obter uma orientação ou presságio das Nornes, mas elas permaneceram em silêncio e com os rostos velados. No campo de batalha os combatentes se alinharam: de um lado os deuses e os Einherjar, do outro os gigantes de fogo e de gelo, Loki e suas crias monstruosas (Hel, Garm, Fenrir, Jörmungand).

O embate final foi catastrófico; os deuses estavam em desvantagem apesar de lutarem com todas as suas forças e coragem. Odin tinha apenas um olho e, apesar dos seus atributos divinos, não sobreviveu ao ataque do mal personificado pelo lobo Fenrir, que assumiu proporções gigantescas e, com suas mandíbulas, abarcou o espaço entre o céu e a terra. Os outros deuses não puderam socorrer Odin, pois todos estavam em situação crítica e o Pai Supremo foi engolido pelo monstro. Embora tivesse apenas um braço, Tyr conseguiu dominar o cão infernal Garm, mas não resistiu aos ferimentos. Thor venceu finalmente sua inimiga, a terrível Serpente do Mundo, mas sucumbiu ao seu veneno. Frey não estava mais de posse de sua espada (que ele tinha oferecido para conquistar a deusa Gerd) e, lutando apenas com os chifres de alce, logo foi vencido pelo gigante Surt. Loki e Heimdall - velhos rivais e inimigos - cruzaram armas em um prolongado duelo, mas ambos caíram mortos. Nenhum dos outros deuses ou dos guerreiros Einherjar sobreviveu ao massacre; somente os filhos de Odin - Vali e Vidar - e de Thor -Magri e Modhi - escaparam, após terem vingado a morte dos seus pais, matando o lobo Fenrir e o cão Garm. Vidar tinha escancarado a boca do lobo Fenrir, colocando nela seu pé com um calçado mágico especial e assim conseguiu rasga-la. O dragão Niddhog, que roía as raízes de Yggdrasil, a árvore cósmica, desde o início dos tempos, renovou seus esforços, cortando de vez as raízes da árvore, que começou a trepidar e finalmente caiu. Os Nove Mundos se despedaçaram e pereceram nas chamas dos incêndios provocados por Surt e a sua horda de gigantes. A morada da humanidade - Midgard - foi totalmente queimada pelo calor das fogueiras e tudo o que nela existia e vivia foi reduzido a cinzas e, devagar, submergiu nas ondas revoltas do mar. A tragédia cósmica tinha chegado a seu fim e o Ragnarõk levou o mundo de volta ao caos primordial.

No entanto, como os antigos povos nórdicos acreditavam na eterna alternância dos ciclos naturais de vida, morte e regeneração, eles refletiram essa crença na continuação do mito, seguindo a universal "lei do retorno", conceito existente também em outras religiões e culturas. Assim sendo, após uma demorada purificação pelo fogo e pela imersão na água do mar, a terra emergiu lentamente das ondas e, aos poucos, a sua superfície foi se cobrindo com o manto verde da vegetação. Como a deusa Sunna tinha dado à luz a uma filha um pouco antes de o lobo Skoll tê-la devorado, a nova deusa solar apareceu conduzindo o sol, menos cáustico do que o anterior, em uma nova carruagem dourada. De um esconderijo - talvez uma gruta ou o oco de um rebento de Yggdrasil -apareceu um jovem casal, Lif e Lifthrasir, que tinha sobrevivido à catástrofe, mergulhado em um sono letárgico e nutrido apenas pelo orvalho. Com o passar do tempo, seus descendentes povoaram novamente a terra e retomaram os antigos cultos e oferendas aos deuses.

Os filhos sobreviventes dos deuses Odin e Thor: Vali e Vidar, Mani e Modi - que haviam resgatado o martelo mágico do pai - se juntaram a Baldur, que surgiu brilhante junto ao irmão Hodur, vindos do reino dos mortos. Eles tinham se reconciliado após a trágica participação de Hodur na morte de Baldur [88] e nenhuma mágoa ou amargura do passado permaneceu entre eles. Juntos com a jovem Sunna voltaram para as ruínas daquilo que tinha sido o seu reino divino - Asgard - e descobriram que Gimli, o palácio mais alto, tinha permanecido milagrosamente intacto no meio dos escombros, na planície de Idavoll. Lá eles se refugiaram e retomaram suas atribuições, continuando as tarefas dos seus pais; assim reconstruíram as moradas celestes e restabelecerem a ordem cósmica. Eles designaram novas habitações para os anões e gigantes, por não terem sido eles os responsáveis diretos por um fim de ciclo programado pelas Senhoras do Destino, desde o começo dos tempos. Os anões foram morar nas montanhas e colinas e os gigantes em uma região com temperaturas mais amenas, pois o poder destrutivo do gelo tinha sido anulado.

Análise do mito 

Como todos os mitos, Ragnarök pode ser analisado sob vários ângulos e compreendido em níveis diferentes. O enfoque principal, porém, será sempre o processo cíclico de destruição e reconstrução, de morte e renascimento, assim como também é a jornada da alma, que passa por etapas de finalização e recomposição, para assim alcançar novos patamares de evolução.

Alguns escritores fazem um paralelo entre o Ragnarök e o Apocalipse bíblico, sincretizando Baldur com Cristo, Loki com o Diabo e a corneta do deus Heimdall com a trombeta do anjo. Mesmo que tenha recebido adaptações e retoques cristãos - na transcrição ou tradução (pelos monges) do texto original -, não se pode afirmar que o Ragnarök seja um plágio cristão, pois as influências cristãs e as descrições apocalípticas (dos livros e as proferidas nos sermões após a conversão), não possuíam a base mítica e mágica das crenças ancestrais nórdicas, que as precederam por séculos.

Além da existência de conceitos semelhantes sobre o fim do mundo em outras culturas e tradições - como a iraniana ou a celta -, o desenlace do Ragnarök representa o fim inevitável de um universo múltiplo, criado pela união de forças opostas e antagônicas: fogo/gelo, gigantes/deuses. Tanto nos poemas e sagas islandesas, quanto nos Eddas, no folclore dinamarquês e sueco, encontram-se crenças populares sobre o fim do mundo, como o navio feito das unhas dos mortos, os monstros que devoram o sol e a lua, a queda das estrelas, a destruição do mundo por um gigante que se libertou do cativeiro, a terra submersa no mar, entre outras semelhanças como as descritas no poema "Völuspa".

Outros povos antigos também temiam o fim do mundo e o melhor vaticínio é encontrado em um ensinamento dos druidas que diz: "A alma e o mundo são indestrutíveis, porém virá um dia em que o fogo e a água irão prevalecer". 

A destruição pelo frio ou o calor intenso e a submersão da terra por inundações eram temas corriqueiros na vida da população da Islândia, onde geleiras, gêiseres, lagos de água quente e erupções vulcânicas faziam parte do cenário natural. A presença quase permanente do frio intenso, das chamas e das nuvens de fumaça, além das ondas gigantes invadindo as praias, eram lembranças reais das catástrofes naturais e habituais na Islândia. As imagens reais foram acrescentadas, com o passar do tempo, a mitos e histórias, enriquecendo a compreensão e aceitação da verdade histórica e do substrato mitológico. Os mesmos elementos míticos que tinham criado o mundo - fogo e gelo - podiam se tornar agentes da sua destruição, que seria seguida de uma reconstrução. A descrição poética da emergência de um novo mundo, purificado de todos os males e regenerado para começar um novo ciclo, pode ser vista como uma mensagem de esperança e sabedoria, que expressava crenças ancestrais pré-cristãs e revelava o desejo universal de renascimento da alma após a morte física.

Além das inscrições rúnicas pré-viking sobre pedras memoriais, encontradas em Skarpaler, na Suécia - citando a inevitável destruição do mundo -, existem pedras gravadas com cenas que evocam as descrições do Ragnarõk, como as encontradas no norte da Inglaterra, em Gosforth, originárias do século X. Nas cenas gravadas, são vistos monstros amarrados, um guerreiro abrindo a boca de um monstro com a mão e o pé (assim como Vidar fez para estraçalhar o lobo Fenrir, que tinha matado Odin, seu pai), um homem tocando uma corneta, outro lutando com serpentes, dois grupos de guerreiros se enfrentando, entre outras semelhanças com as descritas no poema "Võluspa".

Acredita-se que, no século X, existisse um amplo acervo de lendas, informações míticas e folclóricas sobre o fim do mundo e o extermínio de deuses e seres humanos, que serviu como fonte de informação popular, ancestral e pré-cristã para o "Võluspa".

Na Islândia algumas cavernas vulcânicas se chamam Surtshelli e havia várias estórias sobre Surt, um gigante dos vulcões que provocava sua erupção, jogando chamas e fumaça para o céu. A erupção do vulcão Skaptar Yõkul, em 1783, lembra a sequência de eventos descritos em "Võluspa": tremores de terra, a desaparição do sol debaixo de nuvens de fumaça e cinzas, as chamas derretendo as geleiras, que inundavam os campos, e as ondas do mar, subindo e cobrindo a terra. Essa catástrofe real era idêntica à descrição do poema, por isso é fácil compreender por que a elaboração do mito surgiu na Islândia, onde a interação de calor e frio, vida e morte era um elemento da realidade cotidiana. Mesmo que a destruição pelo fogo e pela água fizesse parte dos temores atávicos de vários povos, ela era mais presente nas regiões distantes do norte europeu, onde havia longos e gélidos invernos, mares tempestuosos, erupções vulcânicas ocasionais, e persistiram durante séculos as antigas lendas sobre o fim do mundo e o seu renascimento do mar.

Embora seja fácil observar e compreender a semelhança entre os fatores ambientais, as circunstâncias naturais e sua assimilação e adaptação no poema "Võluspa", permanecem alguns enigmas e fatos inexplicáveis na narração dos episódios relacionados à participação das divindades. São mencionados os atos heróicos e a morte dos principais deuses e a sobrevivência de alguns dos seus filhos. No entanto, apenas uma deusa -Sunna - é citada, a sua mãe tendo sido morta pelo lobo que a perseguia e a filha com o mesmo nome assumindo a missão materna no Novo Mundo. Nenhuma outra deusa, nem mesmo as Valquírias, são mencionadas na batalha final, nem nos eventos subsequentes a ela. Essa omissão é estranha e surpreendente, dando margem a diversas suposições e questionamentos sobre a ausência das grandes deusas como Frigga e Freyja, as regentes da terra - Erda ou Nerthus - e principalmente, as Senhoras do Destino, as Nornas, que tudo sabiam e teciam fatos e tempos na sua intrincada teia cósmica e telúrica. Essa lacuna torna-se inexplicável dada a riqueza de detalhes dos outros eventos narrados pela vidente.

Existe uma menção, no mito Vafthrudhnismal sobre a sobrevivência das divindades Vanir e a morte dos Aesir, que descreve a chegada de três grupos de mulheres sábias vindas do além-mar e tornando-se protetoras da terra. Talvez elas tenham sido as Nornas, as Disir e as Valquírias; no poema "Võluspa" menciona-se a chegada ao início do mundo de três mulheres gigantes, sábias e poderosas, cuja função era determinar o destino, englobando fatos positivos e destrutivos. Acredita-se que, além da possível omissão voluntária dos colecionadores e tradutores (monges cristãos) dos textos originais, estava implícita na visão da vidente a permanente existência das deusas, sendo elas expressões e manifestações do princípio divino feminino, responsável pela geração, nutrição e sustentação da vida.

A comprovação está na continuidade do planeta Terra, que, purificado pelo fogo, renasceu renovado do oceano, o ventre primordial gerador da vida. O casal que sobreviveu depois de se abrigar em uma gruta (útero da Mãe Terra) ou nos galhos de Yggdrasil (a Arvore do Mundo) se tornou responsável pela população da terra, sendo protegido e abençoado pelas forças celestes e telúricas em um novo ciclo. O fato mais importante e evidente é que nenhuma deusa provocou ou participou da guerra e da destruição do Ragnarók, pois se sabe que, desde sempre, as mulheres - por serem as que geram e protegem a vida dos filhos - relutavam em enviar seus filhos para serem mortos ou feridos nas guerras. Elas mesmas somente participavam das batalhas para defender a si próprias ou as suas famílias dos ataques, saques ou violências dos invasores. 

Fontes: Templo de Apolo, FAUR,Mirella.Cosmogonia.in:__________.Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.São Paulo/SP:Cultrix,2011.Cap. 2.p.86-91.  M .Faur,(Ed.),Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.(pp.86-91).São Paulo/SP:Cultrix.