Popol Vuh - A Criação Maia

07/08/2019

Esta é a história do tempo em que tudo estava em suspensão, calmo e silencioso; tudo estava imóvel e o céu estava vazio. Esta é a primeira palavra, a primeira narrativa; não havia homens, nem animais, pássaros, peixes, árvores, pedras, cavernas, barrancos, moitas ou florestas. Só havia o céu. Em lado algum se via terra; todo o mar se espelhava no céu; nenhum corpo existia; nada havia terminado no céu, nada se movia, era tudo absorção, era tudo imobilidade; quando o céu ficou terminado, nada emergiu. Só havia o mar imóvel e o céu que se estendia por cima.» Assim começa o Popol Vuh (Livro do Tempo, Livro dos Acontecimentos ou Livro do Conselho, em língua quiché), o documento mais importante de que hoje dispomos sobre os mitos maias, miraculosamente salvo da destruição sistemática dos manuscritos maias perpetrada pelos espanhóis.

A versão do Popol Vuh que conhecemos foi redigida 30 anos após a conquista espanhola. O seu autor foi provavelmente um religioso maia que desejava colocar por escrito uma narrativa oral e pictográfica muito antiga. Foi escrita em língua maia, mas em caracteres latinos. O manuscrito foi descoberto pelo padre Francisco Ximenez em inícios do século XVIII, que ele obteve das mãos dos índios Quiché da região de Chichicastenango. A história original pode remontar até 2000 anos a.e.c.

A primeira parte conta a gênese do mundo, que se assemelha à da Bíblia. Do nada das origens, os deuses decidiram fazer um mundo povoado de humanos que os adorem. Em primeiro lugar, criam a terra, as montanhas, a flora e a fauna. Tendo acabado de as formar, disseram: "Falem, gritem, chilreiem; que cada um faça ouvir a sua linguagem segundo a sua espécie e a sua variedade [...] Digam os vossos nomes, louvem-nos, a nós, ao vosso pai e à vossa mãe [...]". Em seguida, criaram os primeiros homens com argila. Mas estes homens moles e fracos eram incapazes de sobreviver e de se multiplicar. Como esta primeira tentativa se revelara infrutífera, os deuses fabricaram uma nova humanidade em madeira; mas estes homens de madeira depressa se mostraram vaidosos e preguiçosos e acabaram por secar. Os deuses enviaram então um dilúvio de resina, onde todos os homens se afogaram, e o mundo foi invadido por uma multidão de monstros.

A segunda parte do Popol Vuh é dedicada à luta dos gêmeos heroicos, lxbalanque e Hunahpu, contra os monstros do reino de Xibalba. Nascidos de uma virgem adolescente miraculosamente fecundada pela saliva de um cadáver, os gêmeos, depois de terem passado por numerosas provas, desafiam os deuses subterrâneos no jogo de futebol maia e, vitoriosos, deixam o reino das trevas, Xibalba, passando pelas moradas sucessivas do mundo subterrâneo: a morada das Lamas de obsidiana, a morada do Frio, a morada dos Jaguares e a morada do Fogo. Mas os demônios não pararam de persegui-los. Com isso, conseguiram que Hunahpu fosse decapitado pelo Deus Morcego Camazotz e desafiaram Ixbalanque para outro jogo de futebol, utilizando como bola a cabeça do seu irmão. Mas Hunahpu ressuscitou e os gêmeos obtiveram uma vitória decisiva sobre as forças das Trevas.

Apesar da vitória dos gêmeos, a criatura humana ainda não existia: Então, o Criador, voltou ao trabalho: Criemos aquele que nos sustentará, que nos alimentará! Tentemos agora criar seres obedientes, respeitosos, que nos sustentem e nos alimentem, disseram eles. Gucumatz (o Quetzalcoatl maia) associa-se ao Coração do Céu para empreender este trabalho. Coração do Céu é apresentado no Popol Vuh como uma espécie de trindade, que inclui Caculhá-Huracán (Raio que anuncia o furacão), Chipi-Caculhá (Clarão do raio) e Raxa-Caculhá (Raio que fere). Pedem a uma raposa, a um coiote, a um corvo e a um periquito que lhes levem espigas de milho. É com a farinha destas espigas que serão formados os quatro primeiros homens. Por fim, apareceu uma humanidade digna desse nome. Mas Gucumatz e Coração do Céu estão preocupados: esses homens tão inteligentes e clarividentes ameaçam tornar-se iguais aos deuses. Condenam-nos então a verem apenas o que está perto deles, a procriarem para se reproduzirem e a morrerem. Para isso, dão-lhes quatro mulheres, que lhes farão esquecer toda a sua ciência. Foi destes quatro primeiros casais que nasceu a raça dos Maias Quiché.

Fontes: Templo de Apolo, Popol Vuh, ROLO,Mark Anthony.Mitologia meso-americana.in:CHEERS, Gordon.(org.)Mitologia:Mitos e lendas de todo o mundo.Lisboa/PT:Caracter Editora,2011.Cap. 20.p.474.