Orfeu - O poeta que desceu ao inferno

01/12/2018

Era filho de Calíope, a mais importante das nove Musas e do rei Eagro. Este, por motivos político-religiosos é frequentemente substituído por Apolo. De qualquer forma, Orfeu sempre esteve vinculado ao mundo da música e da poesia: poeta, músico e cantor célebre, foi o verdadeiro criador da "teologia" ancestral. Tangia a lira e a citara, sendo que passava por ser o inventor desta última ou, ao menos, quem lhe aumentou o número de cordas, de sete para nove, em ma homenagem às Nove Musas. Sua maestria na citara e a suavidade de sua voz eram tais, que os animais selvagens o seguiam, as árvores inclinavam suas copadas para ouvi-lo e os homens mais coléricos sentiam-se penetrados de ternura e de bondade.

O que importa é que Orfeu é um herói muito antigo, pois já o encontramos na expedição dos Argonautas. Sua existência era tão -141- real para o povo, que, em Anfissa, na Lócrida, se lhe venerava a cabeça como verdadeira relíquia. Educador da humanidade, conduziu os trácios da selvageria para a civilização. Iniciado nos "mistérios", completou sua formação religiosa e filosófica viajando pelo mundo. De retorno do Egito, divulgou na Hélade a idéia da expiação das faltas e dos crimes, bem como os cultos de Dioniso e os mistérios órficos, prometendo, desde logo, a imortalidade a quem neles se iniciasse.

Ao regressar da expedição dos Argonautas, casou-se com a ninfa Eurídice, a quem amava profundamente, considerando-a como dimidium animae eius, como se ela fora a metade de sua alma. Acontece que um dia (o poeta latino do século I a.e.c., Públio Vergílio Marão nos dá, no canto IV, 453-527, de seu maravilhoso poema As Geórgicas, a versão mais rica e mais bela do mitologema: o apicultor Aristeu tentou violar a esposa do cantor da Trácia. Eurídice, ao fugir de seu perseguidor, pisou em uma serpente, que a picou, causando -lhe a morte. Inconformado com a perda da esposa, o grande vate resolveu descer às trevas do Hades, para trazê-la de volta.

Orfeu, com sua citara e sua voz divina, encantou de tal forma o mundo ctônio, que até mesmo a roda de Exíon parou de girar, o rochedo de Sísifo deixou de oscilar, Tântalo esqueceu a fome e a sede e as Danaides descansaram de sua faina eterna de encher tonéis sem fundo. Comovidos com tamanha prova de amor, Hades e Perséfone concordaram em devolver-lhe a esposa. Impuseram-lhe, todavia, uma condição extremamente difícil: ele seguiria à frente e ela lhe acompanharia os passos, mas, enquanto caminhassem pelas trevas infernais, ouvisse o que ouvisse, pensasse o que pensasse, Orfeu não poderia olhar para trás, enquanto o casal não transpusesse os limites do império das sombras. O poeta aceitou a imposição e estava quase alcançando a luz, quando uma terrível dúvida lhe assaltou o espírito: e se não estivesse atrás dele a sua amada? E se os deuses do Hades o tivessem enganado? Mordido pela impaciência, pela incerteza, pela saudade, pela "carência" e por invencível póthos, pelo desejo grande da presença de uma ausência, o cantor olhou para trás, transgredindo a ordem dos soberanos das trevas. Ao voltar-se, viu Eurídice, que se esvaiu para sempre em uma sombra, "morrendo pela segunda vez..." Ainda tentou regressar, mas o barqueiro Caronte não mais o permitiu.

Inconsolável e sem poder esquecer a esposa, fiel a seu amor, Orfeu passou a repelir todas as mulheres da Trácia. As Mênades, -142- ultrajadas por sua fidelidade à memória da esposa, fizeram-no em pedaços. Há muitas variantes acerca da morte violenta do filho de Eagro. Vamos destacar duas delas. Conta-se que Orfeu, ao retornar do Hades, instituiu mistérios inteiramente vedados às mulheres. Os homens se reuniam com ele em uma casa fechada, deixando suas armas à porta. Uma noite, elas, enfurecidas, apoderaram-se dessas armas e mataram Orfeu e seus seguidores. Outra variante nos informa que, tendo servido de árbitro na querela entre Afrodite e Perséfone na disputa por Adônis, Calíope teria decidido que o lindíssimo filho de Mirra permaneceria uma parte do ano com uma e uma parte com outra. Magoada e irritada com a decisão, Afrodite, não podendo vingar-se de Calíope, vingou-se no filho. Inspirou às mulheres trácias uma paixão tão violenta e incontrolável, que cada uma queria o inexcedível cantor só para si, o que as levou a esquartejá-lo e lançar-lhe os restos e a cabeça no rio Hebro. Ao rolar da cabeça pelo rio abaixo, seus lábios chamavam por Eurídice e o nome da amada era repetido pelo eco nas duas margens do rio.

Punindo esse crime abominável das mulheres trácias, os deuses devastaram- lhe o país com uma grande peste. Consultado o oráculo sobre como acalmar a ira divina, foi dito que o flagelo só se extinguida quando se encontrasse a cabeça do vate e lhe fossem prestadas as devidas honras fúnebres. Após longas buscas, um pescador finalmente a encontrou na embocadura do rio Meles, na Jônia, em perfeito estado de conservação e ali mesmo foi erguido um templo em honra de Orfeu, cuja entrada era proibida às mulheres. A cabeça sagrada do cantor passou a servir de oráculo. Se a lira do poeta, a qual após longos incidentes, foi parar na ilha de Lesbos, berço principal da poesia lírica da Hélade, a psiqué do cantor foi elevada aos Campos Elísios, aqui no caso sinônimo de Ilha dos Bem-Aventurados ou do próprio Olimpo, onde, revestido de longas vestes brancas, Orfeu canta para os imortais.

Exposto resumidamente o mitologema, pois as variantes são inúmeras, vamos tentar fazer-lhe alguns comentários, abordando os aspectos que nos parecem mais importantes.

Orfeu desceu à mansão do Hades e poderia ter trazido a esposa de volta, se não tivesse olhado para trás. A catábase de Orfeu é a -143- do tipo tradicional, xamânico: o iniciado morre aparentemente e na contemplação do além, "encontrando-se", torna-se detentor do saber e dos mistérios, nos quais procurará orientar seus seguidores, para que, preparando-se adequadamente nesta vida, "se encontrem" na outra.[1]

Na realidade, o grande desencontro de Orfeu no Hades foi o de ter olhado para trás, de ter voltado ao passado, de ter-se apegado à matéria, simbolizada por Eurídice. Um órfico autêntico jamais "retorna". Desapega-se, por completo, do viscoso do concreto e parte para não mais regressar. Certamente o citaredo da Trácia ainda não estava preparado para a junção harmônica e definitiva com sua anima[2] Eurídice. Seu despedaçamento pelas Mênades, supremo rito iniciático, o comprova. Como Héracles, que, apesar de tantos ritos iniciáticos e até mesmo uma catábase ao mundo das sombras, somente escalou o luminoso Olimpo após uma morte violenta em uma fogueira no monte Eta. Orfeu olhou para trás, transgredindo o tabu das direções. Estas, bem como os lados e os pontos cardeais, possuíam, nas culturas antigas, um simbolismo muito rico.

O matriarcado sempre deu nítida preferência à esquerda: esta pertence à feminilidade passiva; a direita, à atividade masculina, já que a força está normalmente na mão direita e foi, através da força, da opressão, que a direita, o homem, execrou a esquerda, a mulher. O tabu dos canhotos sempre foi um fato consumado. Diga-se, aliás, de passagem, que um dos muitos epítetos do Diabo é Canhoto. A superioridade da esquerda estava, por isso mesmo, ligada ao matriarcado, entre outros motivos porque é a noite (oeste) que dá nascimento ao dia, lançando o sol de seu bojo, parindo-o diariamente. Daí, a cronologia entre os primitivos ser regulada pela noite, pela Lua; daí também o hábito, desde tempos imemoriais, da escolha da noite para travar batalha, para fazer reuniões, para proceder a julgamentos, para realizar determinados cultos, como os Mistérios de Elêusis e o solene autojulgamento dos reis da Atlântida.

Observe-se que entre Grécia e Roma a designação de esquerda diverge profundamente. Em latim, direita é dextera ou dextra, que talvez, ao menos do ponto de vista da etimologia popular, pode se -144- aproximar de decet, "o que é conveniente" e esquerda é sinistra, de mau presságio, funesto, "sinistro"; em grego, direita é (deksiá) que, como se observa, tem a mesma raiz que o latim dextra e significa "de bom augúrio, favorável" e esquerda é (aristerá), etimologicamente a "excelente, a ótima", uma vez que aristerá se prende ao superlativo (áristos), "o melhor, o mais nobre, o ótimo". Trata-se evidentemente de um eufemismo que a inteligência grega engendrou para amortecer o impacto da esquerda, da sinistra. Os pontos cardeais atestam igualmente não apenas a dicotomia matriarcado-patriarcado, mas também o azar e a sorte, o perigo e a segurança. Talvez, partindo-se do inglês, as coisas fiquem mais claras: West, "oeste", cf. Wespero, é a tarde, a boca da noite, como em grego (hespéra), "tarde", em latim uespera, "tarde" e em português véspera, vespertino. Oeste é onde "morre" o sol e começa a noite, de onde em latim occidens, o que morre, "ocidente": é o lado nobre do matriarcado e nefasto para o patriarcado, porque é a esquerda. North, "norte", cf. ner, "debaixo", isto é, à esquerda do nascimento do sol. É também um dos lados propícios ao matriarcado. Daí Ner-eu, Ner-eidas, divindades da água, vinculadas ao feminino. East, "leste", cf. awes, ideia de "brilhar", em grego (eós), "aurora"; em latim existe o adjetivo, já da época da decadência, ostrus, - a, - um, "vermelho", que está ligado a oriens, "o que nasce", o sol nascente. Aliás, púrpura em latim se diz ostrum. Leste, a direita, é o lado nobre do patriarcado. South, "sul", cf. sawel, swen, "à direita do nascimento do sol", é igualmente um dos lados do masculino.

É assim que olhar para a frente é desvendar o futuro e possibilitar a revelação; para a direita é descobrir o bem, o progresso; para a esquerda é o encontro do mal, do caos, das trevas; para trás é o regresso ao passado, às hamartíai, às faltas, aos erros, é a renúncia ao espírito e à verdade.

Em Gênesis 19,17.26, uma das recomendações que os dois anjos de Javé, enviados para destruir Sodoma e Gomorra, fizeram a Lot foi que, abandonando Sodoma com a família, não olhasse para trás: salua animam tuam, noli respicere post tergum - "salva tua vida, não olhes para trás", mas a mulher do patriarca olhou para trás e foi transformada numa coluna de sal. Acerca desse episódio do Antigo Testamento há uma excelente interpretação estruturalista do Dr. D. Alan Aycok[3], que, lato sensu, chega à mesma conclusão que -145- aventamos para a desobediência de Orfeu. A mulher de Lot foi transformada em estátua de sal (símbolo, entre outros, de purificação, esterilidade e contrato social, e os três significados poderiam ser aplicados a Lot e sua família), por seu apego a uma cidade condenada à ruína, por causa de seus pecados; quer dizer, a esposa de Lot, olhando para trás, "voltou ao passado" e sofreu, com isso, as conseqüências de sua desobediência a Javé. -146-

Na magia imitativa por contágio são inúmeros os métodos empregados para a transferência de males e doenças. Essa permuta, nas culturas primitivas (e até hoje), pode ser feita através de pedras, troncos de árvores, frutos, ramos, flocos de algodão, peças do vestuário. Basta friccionar a parte de que se sofre em um desses objetos e levá-lo inteiro ou fragmentado, em "determinadas horas" do dia ou da noite (meio-dia, crepúsculo, meia-noite) para junto de uma árvore, reentrância de pedra, encruzilhada, e aí abandoná-lo: a transferência está feita, desde que, em se retirando, não se olhe para trás.

A Orfeu, buscando Eurídice, à mulher de Lot, fugindo da cidade maldita, ou a nossos feiticeiros, fazendo seus despachos, a recomendação é sempre a mesma: não olhar para trás. A exigência feita a Orfeu pelo soberano dos mortos é parte integrante de outros interditos que, nas culturas primitivas, pesavam sobre vários tipos de atividade. O trabalhador, ao traçar o primeiro sulco na terra, para depositar a semente, deveria permanecer em absoluto silêncio, como as mulheres que dispunham o fio da teia para fazer o tecido, como os encarregados de abrir uma sepultura e como aqueles que acompanhavam um cortejo fúnebre. Iniciado o trabalho, não se podia interrompê-lo e tampouco olhar para trás. Forças invisíveis estavam presentes e podiam agastar-se com uma palavra dita irrefletidamente ou mesmo irritar-se perigosamente por terem sido vistas às escondidas.

Orfeu foi o homem que violou o interdito e ousou olhar o invisível. Olhando para trás e, por causa disso, perdendo Eurídice, o citaredo, ao regressar, não mais pôde tanger sua lira e sua voz divina não mais se ouviu. Perdendo Eurídice, o poeta da Trácia perdeu-se também, como indivíduo, como músico e como cantor. É que a harmonia se partiu. Atente-se para a etimologia deste vocábulo: em grego (harmonia) significa precisamente "junção das partes". Orfeu descompletou-se, des-individuou-se. A segunda parte do sýmbolon se fora. O encaixe, a harmonia agora somente será possível, se houver um "retorno perfeito". -147- Ao regressar do Hades, Orfeu foi despedaçado pelas Mênades e sua cabeça lançada no rio Hebro, tendo sido, mais tarde, encontrada por um pescador.

A cerimônia do despedaçamento simbólico do neófito ou mesmo iniciado, sempre relembrado no diasparagmós grego, quando se fazia em pedaços um animal, para recordar o "renascimento" de Dioniso, é um rito bem atestado em muitas culturas e sua finalidade última é fazer o neófito ou o iniciado renascer em uma forma superior de existência. Assim o foi, entre outros, com Osíris, Dioniso e Orfeu.

Quanto à cabeça ou crânio, é bom deixar bem claro que essa parte nobre do corpo possuía em quase todas as culturas uma importância extraordinária. A cabeça de um inimigo morto, mormente se fosse um rei, um chefe, um general ou mesmo um simples combatente que se tivesse destacado pela coragem, era oferecida como presa de honra ao chefe tribal, ao rei ou ao guerreiro que houvesse praticado a façanha de eliminar o inimigo.

Sede do pensamento e, por conseguinte, do comando supremo, o crânio é o mais importante dos quatro centros (os outros três estão situados na base do esterno, no umbigo e no sexo) em que, consoante Chevalier e Gheerbrant[4], os Bambara sintetizam sua representação macrocósmica do homem. Homólogo, em muitas culturas, da abóbada celeste, o Rig-Veda considera esta última como formada pelo crânio do ser primordial. O culto do crânio, no entanto, acrescentam os supracitados autores, não se restringe a cabeças humanas. Entre os grandes caçadores de épocas primitivas, troféus animais desempenhavam um papel ritual relevante, porque estavam relacionados simultaneamente com a afirmação da superioridade humana, atestada em suas aldeias pela presença do crânio de um grande javali, e com a preocupação pela conservação da vida, uma vez que, como vértice do esqueleto, o crânio se constitui no que há de imperecível no corpo humano, isto é, a alma. Quem se apropria de um crânio, apodera-se igualmente de sua energia vital, de seu mana.

O historiador latino Tito Lívio (59 a.e.c. - 17 e.c..), em sua História Romana, 23, 24, conta que, em 216 a.e.c, tendo os gauleses cisalpinos destruído o exército do cônsul romano Postúmio -148- levaram em triunfo os despojos e a cabeça do magistrado: Seu crânio, diz o historiador, ornamentado com um círculo de ouro, servia-lhes de vaso sagrado na oferenda de libações, por ocasião das festas. Os pontífices e os sacerdotes do templo usavam-no como taça e, aos olhos dos gauleses, a presa foi tão importante quanto a vitória.

Ponto culminante do esqueleto, com sua forma de cúpula e sua função de centro espiritual, o crânio é muitas vezes denominado o céu do corpo humano. Considerado como sede da força vital, do mana do corpo e do espírito, quanto maior o número de crânios reunidos, maior a energia que dos mesmos se desprende, o que explica os montes de crânios encontrados nas escavações.

Símbolo da morte física, o crânio é análogo à putrefação alquímica, como o túmulo o é do atanor: o homem novo sai do crisol, onde o homem velho se destrói, para transformar-se.

Jung nos dá uma síntese admirável da eficácia da cabeça: "O culto do crânio é um procedimento espalhado por toda parte. Na Melanésia e na Polinésia são principalmente os crânios dos ancestrais que estabelecem a relação com os espíritos ou servem de paládios, como acontece, por exemplo, com a cabeça de Osíris, no Egito. O crânio desempenha também papel considerável entre as relíquias dos santos. (...) A cabeça, e partes dela (como o cérebro), são usadas como alimento de eficácia mágica ou como meio de aumentar a fertilidade dos campos.

É de particular importância para a tradição alquímica o fato de que na Grécia também se conhecia a cabeça oracular. Eliano[5], por exemplo, nos relata que Cleômenes de Esparta guardava a cabeça de seu amigo Arcônidas numa panela contendo mel e a consultava como oráculo. O mesmo se dizia da cabeça de Orfeu. Onians nos lembra muito acertadamente que a (psykhé), cuja sede era a cabeça, corresponde ao "inconsciente" moderno. Por isso é que a expressão de Píndaro, designando a alma como (imagem do éon), é sumamente significativa, pois o inconsciente não produz apenas oráculos, como também sempre representa o microcosmo".

Eis aí por que os deuses somente suspenderam o terrível flagelo que devastava a Trácia, depois que foi encontrada a cabeça de Orfeu e se lhe prestaram as devidas honras fúnebres. Dotada de mana inesgotável, o crânio do vate e cantor tornou-se paládio poderoso e oráculo indiscutível.

Fontes: Templo de Apolo, Mitologia Grega Br