Nü Wa (女媧) - A Criadora dos Seres Humanos

06/06/2018

A mais conhecida das antigas lendas chinesas é sobre Nü Wa criando os seres humanos. De acordo com o mito, o povo chinês descende dela.

Os Trabalhos de Nü Wa - de Criadora da Humanidade a Reparadora do Firmamento

Com uma face humana e um corpo de serpente a deusa Nü Wa (女媧 ; 女娲) que tem, também, a particularidade de poder alterar a sua aparência setenta vezes por dia, desempenhou um papel muito importante na visão chinesa da criação do mundo. O mito conta que um dia andando ela a passear pelo deserto mundo primitivo ao olhar em seu redor se sentiu só. Perante esta realidade a deusa conclui haver necessidade de criar mais vida naquele ermo. Mas como, e o quê? Cansada do seu longo passeio sentou-se à beira de um lago onde se refletia o seu rosto e todo o seu corpo, e todos os seus movimentos e expressões demonstrando alegria ou tristeza surgiam em imagens idênticas como uma cópia perfeita no espelho daquelas águas límpidas. Perante isto Nü Wa conclui que na verdade existiam diversas coisas que viviam no seu mundo, mas que nada igualava a sua própria forma de vida, interrogando-se se não seria bom ela própria fabricar seres à sua imagem e semelhança para povoarem a terra. Enquanto pensava pegou com as suas mãos um pouco de lama da beira do lago começando inconscientemente a amassá-la, surgindo-lhe o perfil, a forma de um ser, mas o mais importante aconteceu quando ao colocar aquela massa modelada sobre a terra repentinamente ela se tornou vida. Radiante com o que criara, baptizou logo ali aquele ser como "humano" continuando a produzir esses seres que a tiraram da solidão em que antes se encontrava, no mundo terrível do caos.

A deusa criadora da humanidade passou dias e dias a criar seres humanos contudo eram poucos para todo um mundo que se encontrava desabitado. Pensou Nü Wa ser necessário encontrar uma maneira de produzir em grande quantidade, e rapidamente, esses seres. A ideia luminosa surgiu então. Puxou uma comprida raiz de um penhasco que vinha enlameada mergulhou-a na lagoa e sacudiu-a no ar variadas vezes. Os pingos de lama iam caindo e ao embaterem na terra transformavam-se em milhares de pequenos seres. Com esta invenção Nü Wa conseguiu rapidamente espalhar humanos por todo o mundo.

As classes sociais e a divisão sexual

Ora tendo sido o homem criado pela deusa, primeiro de forma individual e moldado pelas suas mãos, e depois através de um método industrial, que como todos, para além das peças perfeitas, também produzem escória e malformações, surgiu uma estratificação catalogada conforme a qualidade e perfeição. Assim, as peças mais nobres, ou pelo menos mais cuidadas, ou se manufacturadas pela deusa, deram origem à rica aristocracia, as que resultaram da projeção da lama pelos ares, originaram os pobres e as classes mais baixas.

Wa perante a inevitabilidade da morte que a obrigava a estar constantemente, num trabalho ciclópico, a produzir humanos para substituir os que desapareciam, mais uma vez teve que resolver o problema recorrendo à sua mente criadora, até encontrar um caminho, que passou pela divisão da humanidade em dois tipos machos (homens) e fêmeas (mulheres) que, acasalando, podiam criar os seus próprios descendentes assegurando para sempre o povoamento da terra.

Nü Wa e seu irmão como pais da humanidade

Existe um outro mito sobre a criação dos humanos que volta a ter Nü Wa como personagem central, só que nesta versão não está sozinha na tarefa dividindo-a com o seu irmão. Conta lendário mito que no início da criação do universo não existiam seres humanos a não ser o par constituído por Nü Wa e seu irmão Fu Xi ( 伏羲) que viviam no Monte Kunlun (崑崙山,昆仑山) tido como o paraíso do taoismo.

Os irmãos pensaram que a fórmula para a criação da humanidade residia unicamente neles e que para tal deveriam tornar-se um casal. Não quiseram contudo assumir esse ato por si, e decidiram consultar o Céu. Um dia subiram ao monte sagrado onde cada um acendeu uma fogueira. Olhando o céu fizeram uma prece: se ele desejava que se tornassem marido e mulher que lhes enviasse um sinal, que consistia na união do fumo das duas fogueiras. Como tal aconteceu eles tornaram-se num casal, contudo Nü Wa, envergonhada, talvez, fez um leque de palha para cobrir a face antes de se juntar ao seu irmão. Tal ato criou o costume, que sobrevive até hoje, da noiva usar um leque no dia do casamento escondendo ligeiramente a sua face, e é interessante referir que também a eles se atribui a criação da instituição casamento.

Quando o Firmamento se quebrou

Houve um tempo, que se desconhece quando foi, em que uma enorme tragédia se abateu sobre o universo deixando em risco a humanidade. Tal aconteceu quando metade do céu caiu deixando enormes buracos no firmamento.

A tragédia alargou-se à terra, que rachou, na sequência do cataclismo telúrico, abrindo enormes abismos em todas as direções. As florestas, em chamas, ficavam destruídas e as águas brotavam da terra jorrando em ondas gigantes transformando o mundo num vastíssimo oceano. Os animais selvagens saíram das florestas aterrorizando a humanidade desprovida de meios de resistência e de sobrevivência.

Nü Wa vendo a destruição que pairava sobre as suas criaturas tomou então a decisão de salvar o mundo pelo que precisava de reparar aqueles buracos no céu. Deitou então mãos à obra começando por escolher multicoloridas pedras do rio que juntamente com uma espécie de cola líquida derreteu sobre uma fogueira criando a argamassa reparadora que usou para recuperar o firmamento. Contudo, teve receio que a tragédia pudesse repetir-se colocando mais uma vez em risco a vida humana, pelo que pensou que seria melhor arranjar qualquer coisa para sustentar o céu evitando que ele caísse sobre a terra. Começou a deusa por abater uma tartaruga gigante, cortou-lhe as pernas e colocou-as como pilares para escorar os quatro cantos do céu. Por isso, ele continua até hoje a estar lá no alto, firme e seguro.

Nü Wa protege a humanidade indefesa

Reparado o céu para segurança e sossego da humanidade, novo perigo pairava sobre ela chamando Nü Wa a mais um trabalho em sua defesa. Tratava-se de um feroz Dragão Negro que agitava enormes ondas causando inundações catastróficas para a sobrevivência da humanidade. Nü Wa construiu então uma enorme barreira de canas queimadas junto ao rio de modo a suster as águas e afastar o perigoso animal que dizimava o seu povo. A humanidade voltou assim a viver em paz retornando à sua ordem natural, com as estações do ano a sucederem-se na sequência certa. As feras voltaram para o seu meio, longe das gentes, e os que ficaram transformaram-se em animais domésticos. Os alimentos cresciam nos campos e a humanidade ficou feliz.

Concluídos os seus trabalhos de mãe da humanidade, dando aos humanos segurança, subsistência e paz, Nü Wa pode então descansar eternamente. O seu corpo tal como acontecera com o do criador Pan Ku transformou-se em muitas e diversas coisas necessárias ao crescimento do Universo.

Falamos aqui de três personagens mitológicas de relevo para a cosmogonia chinesa: Pan Ku, Nü Wa e Fu Xi. Contudo são inúmeras as divindades que participaram nesse movimento criador que alastrou, dando origem desde as coisas mais importantes da vida, até às mais insignificantes, mas também necessárias. Não existe pois, como anteriormente referimos, uma mitologia chinesa da criação, mas sim essa multiplicidade de seres criadores, que podem ter dado à humanidade, por exemplo, a agricultura, o fogo, a sericultura, um só Sol, a medicina, ou até mesmo, o chapéu-de-chuva.


Fontes : Revistamacau, Mythology & Culture , Mitografias, Arcanoteca