Mimir - O sábio 

12/07/2018

Conta-se que os gigantes - do gelo, neve, frio, rochas e fogo - eram descendentes de Fornjotnar, equiparado com Ymir, que teve três filhos: Hier (o mar), Kari (o ar) e Loge (o fogo), formando a primeira e mais antiga tríade. Seus respectivos descendentes eram os gigantes: do oceano, Mimir, Gjmir, Grendel; das tempestades, Thiassi, Thrym, Beli; e os do fogo e da morte, como o lobo Fenrir e Hei, considerada uma deusa escura.

O escritor Sturluson descreve Mimir como o guardião da fonte localizada embaixo da Árvore do Mundo, no território dos gigantes do gelo. Considerado o mais sábio dos deuses Aesir, ele foi cedido aos Vanir como refém, junto com o silencioso Hoenir, como parte do armistício que pôs fim à guerra entre os dois grupos de divindades. Seu mito é bastante confuso, até mesmo incompreensível, sendo evidente a mescla de elementos das tradições mais antigas com acréscimos e distorções mais recentes.

Interpretando a guerra entre os Aesir e Vanir como a rivalidade existente entre um culto antigo e nativo (Vanir) e o culto trazido pelos conquistadores indo-europeus (Aesir) é fácil perceber que Mimir representava o antigo conhecimento e sabedoria que pertencia aos gigantes, seus ancestrais. Existe uma contradição no mito em que a cabeça de Mimir é considerada a fonte de inspiração, mas o elixir da inspiração teria sido criado do corpo de Kvasir, que às vezes é descrito como o mais sabio entre os Aesir, apesar da sua origem ser totalmente diferente. Em outros poemas é mencionada a presença de um gigante poderoso associado à Árvore do Mundo, possuidor de uma espada mágica chamada Miming, um dos tesouros famosos da tradição teutônica.

De qualquer maneira, na confusão acerca do verdadeiro detentor da sabedoria, Kvasir ou Mimir, os donos originais são eliminados e Odin adquire seus dons, pagando o inerente tributo para sua obtenção através do sacrifício. As diversas versões sobre a morte de Mimir concluem com o mesmo fato: o recebimento da inspiração por Odin, ao beber da fonte guardada por Mimir. No poema "Völuspa" é mencionado o recebimento desse privilégio apenas depois de Odin ter sacrificado um dos seus olhos, entregando-o a Mimir e colocando-o na fonte. Nos Eddas aparece a expressão "cabeça, ou fonte, de Mimir" aludindo ao final da sua estória.

Quando Mimir e Hoenir chegaram como reféns ao reino dos Vanir, esperava-se que eles fizessem jus aos seus renomes de sábios. Porém Hoenir se baseava totalmente nos conselhos de Mimir e na sua ausência dizia "deixe os outros decidirem". Sentindo-se enganados na troca de reféns (os Vanir tendo cedido Njord e seus filhos gêmeos, Frey e Frevja) eles decapitaram inexplicavelmente Mimir e enviaram sua cabeça para os Aesir. Odin usou encantamentos rúnicos e ervas mágicas e a embalsamou, colocando-a na fonte (que depois recebeu seu nome), onde a consultava quando precisava de conselhos ou orientações sábias, ouvindo a cabeça "falar".

Além da tradição celta onde é presente o tema da "cabeça falante" (após sua separação do corpo) existem registros dos povos germânicos, que acreditavam no poder profético dos enforcados e da importância da cabeça como sede da inteligência e troféu para a boa sorte, como confirmam as inúmeras cabeças representadas na arte escandinava e teutônica.

A locação de Mimisbrun (a fonte de Mimir) sob a raiz de Yggdrasil - que se estende até o reino dos gigantes de gelo - sugere a conexão primal entre Mimir e os gigantes, mesmo que posteriormente ele viesse a ser considerado um deus Aesir. Em outro poema há uma referência à árvore Mimameid (a árvore de Mimir) que possa ter sido Yggdrasil, confirmando a importância e antiguidade de Mimir.

Independentemente do seu gênero, a importância e o valor mítico de Mimir é representado pela sua qualidade de "guardião da fonte da inspiração e da sabedoria ancestral", a eterna Fonte Sagrada, onde pode-se encontrar o conhecimento oculto e preservado ao longo dos tempos, porém pagando-se o preço de um sacrifício exigido para sua obtenção e seu uso, assim como o próprio deus Odin teve que fazer, ofertando um olho para abrir a sua visão interior.

Fontes: Templo de Apolo, Norse Mythoogy,