Merlin - O Mago da Corte

04/08/2018

Merlin foi um mago, profeta e conselheiro do rei Artur nas lendas e histórias do Ciclo Arturiano. ... Merlim é o criador da Távola Redonda de Uter e é o responsável pela Espada na Pedra, que ao ser retirada por Artur lhe dá o direito de ser rei.


História

Era uma vez, na Bretanha, uma moça que deu à luz um bebê tão peludo como nunca se tinha visto igual. Ela pediu às pessoas que ajudaram seu parto que o levassem imediatamente à igreja para ser batizado. - Que nome quer lhe dar? - O nome de seu avô materno - respondeu a moça. O bebê então recebeu o nome de Merlin. Ora, o pai de Merlin era um diabo, mas isso a mãe não tinha coragem de contar para ninguém. Um dia, embalando o menino nos braços, ela o beijou, apesar de sua feiúra, e disse: - Já que não posso contar quem é seu pai, meu querido, vou dizer que você é uma criança sem pai. Conforme a lei, vou ser condenada à morte, mesmo sem merecer. - Certamente você não vai morrer por causa do meu nascimento. Merlin tinha então só nove meses. Sua mãe ficou tão assustada ao ouvi-lo falar que o deixou cair. O menino começou a chorar, chamando a atenção de todos os vizinhos, que quiseram saber a causa daquele barulhão. Por acaso a mãe de Merlin esta­va querendo matá-lo?

A quem lhe perguntava, a moça dizia:

- Imagine que Merlin fala como adulto!

Querendo ouvi-lo, algumas pessoas puseram-se a provocá-lo: - Ah, para sua mãe melhor seria que você nunca tivesse nascido.

- Calem-se - gritou o bebê de repente, vermelho de raiva.

- Deixem minha mãe em paz. Enquanto eu viver, ninguém ousa­rá fazer-lhe mal ou julgá-la, a não ser Deus.

Ao ouvi-lo, todos ficaram embasbacados, e não tardaram em sair pela aldeia espalhando a notícia, que logo chegou aos ouvi­dos do juiz.

Então o juiz pensou consigo mesmo: "Acho que preciso re­solver esse assunto, que eu já havia esquecido. Vou convocar essa mãe e condená-la a ser queimada viva."

Quanto ao resto, o juiz não acreditava em nada do que an­davam contando.

Às perguntas embaraçosas que o juiz lhe fazia, a moça res­pondia abaixando a cabeça. De repente, Merlin, que estava no colo dela, esbravejou:

- Não pense que vai conseguir condená-la, sr. Juiz...

- Ah! - exclamou o magistrado, sem acreditar no que ouvia. - E pode me dizer por quê?

- Com certeza - respondeu Merlin, imperturbável. - Se condenassem todas as pessoas que não podem dizer o nome do pai de seus filhos, haveria aqui muitas outras mulheres que seriam queima­das vivas. Se eu quisesse, poderia apontá-las. Conheço meu pai me­lhor do que o senhor conhece o seu, sr. juiz, sem querer ofendê-lo.

Diante dessas palavras, o juiz, corando de vergonha, pen­sou consigo mesmo: "Esse menino é extraordinário, Não, não posso matá-lo."

- Então me diga: quem é seu pai? -ele perguntou, com voz muito doce.

- Um desses diabos, chamados íncubos, que moram no ar.

Recebi dele o saber inato e o das coisas feitas, ditas e passadas. Sei também das coisas que ainda vão acontecer.

- As coisas feitas, ditas e passadas... - repetiu o juiz, trêmulo.

E, como ele não devia estar com a consciência muito tran­qüila, resolveu deixar a mãe de Merlin em liberdade. O menino viveu ao lado dela, feliz e bem cuidado, até a idade de sete anos.

ATORRE QUE DESMORONAVA

Havia na Bretanha um rei que se chamava Constâncio. Ele morreu cedo, deixando dois filhos de pouca idade: Moine e Uter Pendragon.

Ora, o senescal do reino, um certo Voltiger, homem feroz, ambicioso e que cobiçava o trono, deu ordem de matar as crianças. Uter Pendragon teve a sorte de escapar a essa ordem fugin­do clandestinamente, com amigos fiéis, para uma cidade estran­geira. Voltiger, certo de que estava livre para agir à vontade, não demorou em se fazer coroar rei da Bretanha.

Mas ele não era digno de uma função tão elevada. Só gos­tava das honrarias e não se importava com seus súditos. Seus súditos sabiam disso e odiavam seus olhos miúdos, de expressão maldosa, sua boca grande, de lábios finos, que só se abria para insultar e punir.

Apesar da sua impopularidade cada vez maior. Voltiger es­tava resolvido a continuar sendo rei, custasse o que custasse. Assim, para se proteger, mandou construir nas portas da cidade uma torre tão alta e tão forte que nunca pudesse ser tomada. Os pe­dreiros puseram mãos à obra. mas, assim que se ergueu a três ou quatro toesas do chão, a torre desmoronou, Voltiger convocou seus mestres-de-obras e, mal contendo sua fúria, ordenou-lhes que usas­sem a melhor cal e o melhor cimento que pudessem encontrar. E ai deles se o trabalho não desse certo! Eles obedeceram, é claro.

Mas que desgraça! Quando estava quase pronta, a torre desmoronou pela segunda vez. Depois pela terceira e pela quarta. Os pedreiros foram severamente castigados e a fúria do rei aumentou. Finalmente, temendo que sua torre nunca ficasse pronta, Voltiger achou melhor deixar os pedreiros de lado e recorrer aos magos e aos astrônomos. Depois de onze dias de sérias conversas, estes convenceram o rei de que a torre só poderia se susten­tar se fosse misturado à argamassa o sangue de um menino de sete anos, nascido sem pai.

- Quero que doze mensageiros saiam imediatamente per­correndo toda a Bretanha e me tragam uma criança que apresen­te essas condições - ordenou Voltiger.

Certa manhã, um dos mensageiros encontrou em seu cami­nho um grupo de meninos brincando. Entre esses meninos esta­va Merlin. E Merlin, que sabia de todas as coisas, adiantou-se e disse:

- Eu sou quem você procura, mensageiro, a criança sem pai cujo sangue deve ser levado ao rei.

- Quem foi que lhe disse isso? - perguntou o mensageiro, perplexo.

Aquele menino era diferente dos outros. Não tinha o olhar alegre e ingênuo das crianças.

- Se me garantir que não vai me fazer nenhum mal, irei com você e explicarei ao rei por que a torre não pára em pé - con­tinuou Merlin. - Mas, se quiser, antes poderei mostrar-lhe que sei muitas outras coisas.

- É mesmo? - disse o mensageiro. - Então vamos lá, fale! E o homem ficou olhando para Merlin, desconfiado.

- Pois bem, o rei Voltiger mandou construir essa torre, mas ela desmoronou várias vezes. Então ele reuniu magos...

O mensageiro interrompeu-o com um gesto e pensou: "Es­se menino é extraordinário. Não posso matá-lo."

- Venha comigo - ele disse, pegando Merlin pelo braço. - Não tenha medo.

Lendo seus pensamentos, o menino aceitou acompanhá-lo. Antes, foi beijar sua mãe, tranqüilizando-a.

Ao longo do caminho, o mensageiro foi se convencendo de que Merlin era o ser mais prodigioso que já aparecera em solo bretão e, por isso, era preciso mantê-lo vivo. No entanto, quan­do chegaram a alguns quilômetros do palácio, o homem começou a se perguntar como iria se entender com Voltiger. Merlin teria al­guma idéia?

- Diga a verdade ao rei - disse o menino. - Faça-o ter certe­za de que vou lhe explicar por que ele não consegue erguer a torre. Assim fez o mensageiro, e o rei, intrigado, interrogou o me­nino, que pronunciou estas palavras:

- Sob os alicerces da torre moram dois dragões. Um é ver­melho e o outro é branco. Quando o peso da torre se torna muito grande, eles sentem necessidade de se virar. Nesse momento as paredes desmoronam.

- Se é assim- disse o rei -, o único jeito é cavar o chão.

Imediatamente os trabalhadores começaram a cavar. Quan­do atingiram as bases dos alicerces, encontraram duas lajes enormes e as levantaram. Merlin tinha razão: surgiram dois dragões, que se lançaram furiosamente um contra o outro.

Estupefatos e intrigados, Voltiger, sua corte e todos os trabalhadores acompanharam a batalha, que durou dois dias. Primeiro o dragão vermelho se saiu melhor, mas o branco, mais jovem e mais ágil, acabou por matá-lo. No entanto, seu triunfo foi breve, pois em seguida ele caiu morto. Voltando-se para Voltiger, Merlin falou:

- Agora pode mandar construir a torre.

Voltiger meneou a cabeça. Depois de pensar um pouco, ele perguntou:

- Pode me dizer o que significa a batalha dos dois dragões? Merlin sorriu:

- Primeiro prometa não me maltratar por eu dizer a verdade. - Prometo.

- Então ouça: o dragão vermelho é você, Voltiger; o dragão branco é Uter Pendragon. Daqui a alguns dias os dois travarão uma luta, você para conservar seu poder, ele para reconquistar o reino que lhe foi usurpado. E o dragão branco irá vencer o dragão vermelho.

Diante dessas palavras, o rei empalideceu. Então ainda teria de enfrentar Uter Pendragon? Com o coração cheio de angústia, ele resolveu, por prudência, mandar um exército para Wenchester, mas nem imaginava o que iria acontecer. Uter Pendragon saíra da Pequena Bretanha para enfrentar o exército ameaçador de Voltiger. As bandeiras de seu barco brilhavam ao sol. Quando os homens de Voltiger as viram, imediatamente reconheceram Uter Pendra­gon como seu legítimo rei.

Abandonado por seus soldados e seus amigos, Voltiger mal teve tempo de se refugiar em um de seus castelos fortificados. Lá ficou por alguns dias, tomado pelo medo. Depois, tal como Merlin previra, ele morreu quando Uter Pendragon atacou a fortaleza.

Brincadeiras de Merlin

Uter Pendragon, que se tornara rei da Grã-Bretanha, ouviu falar de Merlin, o menino extraordinário que sabia de todas as coi­sas e tinha poderes singulares.

O rei então resolveu trazê-lo para viver em sua corte. Ficou sabendo que ele estava escondido nas florestas da Nortúmbria e enviou mensageiros à sua procura. Certo dia, um desses mensageiros percorria a floresta densa e invadida pelo murmúrio inces­sante das folhas quando um homem muito magro, vestido com uma túnica puída, cabelos hirsutos, barba comprida e levando nos ombros um machado de lenhador se aproximou.

- Bom homem - disse o desconhecido parece-me que não está cumprindo a missão de que seu patrão o encarregou.

Achando graça e ao mesmo tempo desconcertado com a observação, o mensageiro parou e, em tom de brincadeira, perguntou ao lenhador do que estava falando. Sem responder diretamen­te à pergunta, este afirmou:

- Se eu estivesse procurando Merlin, há muito tempo já o teria encontrado. Entretanto, ele mandou dizer que só irá ao palá­cio se o rei vier buscá-lo pessoalmente nesta floresta.

O mensageiro arregalou os olhos de espanto.

- Merlin? Então você o conhece?

O lenhador meneou a cabeça e, depois de uma pantomima1 complicada e incompreensível, desapareceu por trás de uma moita. Quando ficou sabendo do episódio, o rei Uter Pendragon não hesitou um segundo.

- Vou me encontrar com Merlin - ele declarou.

Assim, em uma bela manhã de outono, o rei e seus homens saíram cavalgando através das folhagens e arbustos cheirosos e amarelados. Chegando a uma clareira, viram um rebanho de carneiros e um jovem pastor que os vigiava. Eles o interrogaram:

- Por acaso você conhece Merlin?

- Claro - respondeu o pastor.

- É amigo dele?

- Estou à espera de um rei. Quando esse rei chegar, irei levá-lo até Merlin.

- Pois bem, leve-nos até ele...

O pastor coçou a cabeça, hesitante. Uter Penclragon se adiantou e se apresentou:

- Sou o rei em pessoa - ele disse,

- E eu sou Merlin - disse o pastor.

Os companheiros do rei soltaram gritos indignados. O quê?

Aquele pastor mal ajambrado querendo se passar por... Mas não tiveram tempo de terminar a frase: no lugar do pastor surgiu o meni­no que havia explicado a Voltiger, diante de todos os cortesãos, o que significava a batalha dos dois dragões. Muito impressionados, o rei e seus acompanhantes o cumprimentaram e o rodearam.

Foi assim que na Grã-Bretanha se teve notícia, pela primeira vez, de que Merlin tinha o poder de se transformar em qualquer outra pessoa, conforme sua vontade.

No entanto, por mais que Uter Pendragon lhe prometesse mundos e fundos, Merlin se recusou a viver na sua corte. Como era um sábio, limitou-se a agradecer a oferta do rei, garantindo-lhe que sempre o ajudaria. Preferia deixar as coisas como esta­vam e não provocar a inveja dos outros súditos, o que certamen­te acabaria acontecendo.

O rei cedeu, mas, sempre que tinha algum problema ou al­guma pergunta a fazer, chamava Merlin, que logo atendia. Foi assim que, graças a Merlin, Uter Pendragon venceu inimigos temíveis, os saines. Com seu poder de mago, Merlin deu aos soldados mor­tos, perto de Salisbury, um cemitério com pedras da Islândia, tão grandes e pesadas que ninguém seria capaz de erguê-las, nem mesmo com ajuda de guindastes.

E enquanto o mundo durar essas pedras estarão lá...

A DUQUESA DE TINTAGEL

Agora Uter Pendragon era forte e poderoso. No entanto, vi­vendo sempre no meio de seus soldados, às vezes ele se aborrecia muito. Sonhava então em ter uma rainha a seu lado, mas não conhecia nenhuma princesa que o atraísse por sua beleza e sua inteligência.

Assim, certo dia ele resolveu dar uma grande festa em seu castelo de Carduel, no País de Gales, para reunir os senhores, as senhoras e as donzelas das redondezas.

Compareceram muitos convidados, e entre eles Iguerne, esposa do duque Hoel de Tintagel. Assim que a viu. o rei se apai­xonou por ela. Mas no coração da bela Iguerne só havia lugar para seu marido, apesar de todas as amabilidades que o soberano lhe dispensou. Convencido de que jamais conseguiria conquistá-la, Uter Pendragon foi invadido por uma tristeza tão grande, que teria morrido, se Merlin...

Sim. ele teria morrido se Merlin não viesse em seu socorro. - O que fazer? O que fazer? - gemia o rei.

- Sire, promete me dar uma coisa, quando for hora?

- Não posso lhe recusar nada, Merlin.

Merlin sorriu. O rei imaginou que ele quisesse alguma re­compensa, mas para sua surpresa Merlin só pediu que mandasse preparar os cavalos.

- Vai viajar? - perguntou o rei.

- Vamos partir imediatamente para Tintagel - respondeu Merlin.

Pouco antes de chegar ao castelo. Merlin desceu de sua mon­taria e colheu um tufo de capim à beira do rio. Deu o capim ao rei, dizendo:

- Esfregue isto em seu rosto. Sire.

Espantado, sem saber o que iria acontecer, o rei fez o que o mago mandou. Imediatamente ele adquiriu a aparência do duque Hoel de Tintagel. Ao se olhar nas águas do rio, Uter Pendragon não quis acreditar no que via.

À porta do castelo, os guardas deixaram-no entrar, reconhe­cendo-o como seu patrão. Era tarde, e aquela noite não havia nem lua nem estrelas.

Houve alguém que também se deixou enganar pelas apa­rências e acolheu Uter Pendragon imaginando que fosse seu es­poso: Iguerne, é claro, para grande alegria do rei.

Que desgraça! A semana não havia terminado quando Iguer­ne soube que o marido morrera em um combate na própria noite em que acreditara que ele havia voltado. É de imaginar seu de­sespero! A pobre duquesa de Tintagel chorou todas as lágrimas que tinha em si!

Entretanto, Uter Pendragon continuava a amá-la, e cada vez mais. Apressou-se então em pedir sua mão em casamento. Desam­parada e livre, Iguerne aceitou.

Muito honesta, porém, fez questão de contar ao rei o que acontecera, em uma noite muito escura, quando ela acreditara ver o marido. Ao ouvi-la, o rei balançou a cabeça e sorriu misteriosamente.

- Mas não foi só isso - disse Iguerne.

- O que mais, bela amiga?

E Iguerne revelou que logo seria mãe. Então o rei suspirou e disse com doçura:

- Não diga isso a ninguém. Quando seu filho nascer, nós o entregaremos a alguém para cuidar dele.

Foi então que Merlin lembrou ao rei a promessa que fizera e pediu que lhe desse o recém-nascido.

- Está certo - disse Uter Pendragon -, o menino é seu. Merlin entregou o bebê a um dos cavaleiros mais honestos do reino, Antor, que o batizou com o nome de Artur e o educou em companhia de seu próprio filho, Kai.

Ninguém além de Merlin imaginava o destino fabuloso que aguardava Artur.

A PEDRA ENCANTADA

Dezesseis anos se passaram. Uter Pendragon morreu, dois anos depois de Iguerne. Como ele não tinha herdeiro direto, os barões do reino encontraram uma solução muito simples: pedir a Merlin que designasse um.

- Esperem o dia de Natal - respondeu Merlin.

Na véspera de Natal, os barões se reuniram em Londres. Entre eles encontrava-se Antor, com Kai e Artur, seus dois filhos, dos quais ele não sabia dizer qual era seu preferido.

Foram em procissão à missa da meia-noite e depois, con­forme o costume, à missa do dia. Ao saírem da igreja, ouviram gritos, um grande alarde, e perguntaram-se o que estaria aconte­cendo de extraordinário.

Mostraram-lhes uma grande pedra no meio da praça, surgi­da não se sabia de onde. Em cima da pedra havia uma bigorna de ferro com uma espada enfiada até a guarda. Foi um falatório. Todos buscavam uma explicação para aquele fenômeno.

- Veio do céu - diziam alguns.

- Do céu ou do inferno - replicavam os outros.

- Seja de onde for, precisamos benzer essa pedra - disse o bispo.

Preparando-se para cumprir seu propósito, o bispo se abai­xou e franziu a testa: o que acabava de descobrir deixou-o sem voz por alguns instantes. Depois leu em voz alta, de modo que todos ouvissem, as palavras que estavam inscritas na pedra, com letras douradas:

Aquele que conseguir tirar esta espada será o rei.

Foi uma verdadeira correria. Todos os barões, senhores dig­nos e poderosos, precipitaram-se para ver aquelas palavras com os próprios olhos, e alguns quiseram fazer um sorteio para decidir quem seriam os primeiros a experimentar. Seguiu-se uma briga e já se ouvia o retinir das armas, quando o bispo interveio, escolhendo ele próprio duzentos e cinqüenta cavaleiros para tentarem a aventura.

Ora, apesar de usarem de muita força, habilidade e boa von­tade, nenhum deles conseguiu tirar a espada do lugar.

Kai e Artur, os dois adolescentes de dezesseis anos, diver­tiam-se observando a cena. Julgando que também tinham o direi­to de participar daquela estranha competição, tomando-a por uma brincadeira, aproximaram-se da pedra fantástica. Artur disse:

- Vamos ver se sou capaz...

Antes de terminar a frase, puxou a espada pelo punho e a mostrou a Kai e a Antor, estupefatos,

- Meu enteado, será você...? - murmurou Antor.

Os barões já acorriam, protestos veementes já se levanta­vam. Como seria possível um homem de nascimento obscuro tor­nar-se rei da Bretanha?

Mais uma vez, foi preciso o bispo intervir para acalmar os ânimos:

- Ora, senhores, que tal esperarmos pela Candelária para repetir a experiência?

A proposta foi aceita, e todos esperaram com impaciência a chegada da Candelária. Quando voltaram a tentar a sorte, não houve um que se saísse bem. Só Artur conseguiu tirar a espada, tão facilmente como se ela estivesse enfiada em um monte de manteiga.

Não dava mais para duvidar de que fosse ele o escolhido por Deus. Artur foi então sagrado rei da Bretanha, e a pedra en­cantada desapareceu.

No entanto, naqueles tempos remotos, tal como hoje, não era fácil conseguir unanimidade. Muita gente contrariada contestava a legitimidade do rei Artur. Assim, onze barões dos mais pode­rosos se reuniram e resolveram declarar guerra contra ele. Deter­minados a matar ou morrer, cercaram o castelo de Kerleon, onde Artur se abrigara. Estavam prestes a lançar o último ataque con­tra a fortaleza, quando Merlin interferiu. Do alto de uma torre, ex­plicou-lhes que Artur não era filho de Antor nem irmão de Kai, mas que, por nascimento, era de condição muito mais elevada do que qualquer um deles. Para confirmar o que dizia, contou-lhes a história de Uter Pendragon e de Iguerne.

Mas os barões não se deixavam convencer! Teimavam em declarar que não queriam Artur como rei, pois ele era um bastardo. Vendo-os erguer as bandeiras para reiniciar o combate, Mer­lin fez um gesto e lançou um encantamento. Na mesma hora todas as tendas dos barões se incendiaram. As chamas crepitavam, en­quanto em meio a uma grande confusão os homens de Artur e os homens dos barões matavam uns aos outros. A lança de Artur se quebrou e, como último recurso, ele desembainhou a espada, aquela que havia tirado da pedra encantada. A espada tinha um nome, Escalibur, que em hebraico significa "corta ferro e aço", e lançava à sua volta tanta claridade quanto dois enormes círios acesos. Artur voltou ao combate e esfacelou o exército dos rebel­des, ajudado por Kai, que se tornara seu senescal, por Antor e muitos outros companheiros fiéis. Ao fim do dia, os barões tinham fugido, envergonhados, deixando para trás suas armas e suas bai­xelas de ouro e prata.

Partida para a Carmélida

Ao constatar os poderes de Merlin, o rei Artur imaginou que não poderia dispensar sua preciosa ajuda e convidou-o para vir morar na corte, então instalada em Londres.

Merlin aconselhou-o a doar roupas, dinheiro e cavalos em grande quantidade e a armar muitos novos cavaleiros. Artur seguiu seus conselhos e ganhou os corações de sua gente. Todos se convenceram então de que não poderiam viver em outro lugar.

Certo dia, Merlin, que conhecia o futuro, disse a Artur:

- Sire, coloque-se, como simples cavaleiro, a serviço do rei Leodagan da Carmélida.

O mago não disse mais nada. embora o rei protestasse aos gritos. Como? Deixar sua terra para prestar serviços a Leodagan, aquele velho que tinha contas a aceitar com vizinhos temíveis? Nem pensar! Mas Merlin insistiu:

-Vá, Sire, e veja o que acontecerá. Não se preocupe. Mas...

Ele se interrompeu, alisou a barba e, quando Artur lhe pe­diu que prosseguisse, falou:

- Mas leve junto o rei Ban de Benoic e o rei Bohor de Gannes, que aliás estão a caminho para vir lhe prestar homena­gem. Esses dois irmãos, reis da Pequena Bretanha, têm todas as qualidades de cavaleiros.

Artur ponderou e concluiu que era de seu interesse seguir os conselhos de Merlin. Assim, alegrou-se com a visita dos dois reis e anunciou que ordenaria imediatamente que se realizassem festas e torneios em honra deles.

Mesmo assim, Merlin suspirou.

- Pois então - disse Artur - não devo mandar estender se­das e tapeçarias e espalhar flores pelas ruas de Londres?

- Por certo - respondeu Merlin. - Deve recebê-los magni­ficamente. E tenho certeza de que a única coisa que faltará em sua recepção será uma rainha...

Artur não disse uma palavra, perguntando-se vagamente por que Merlin teria dito aquilo e se seria urgente, de fato, dar uma rainha ao reino da Bretanha.

Algumas semanas depois, quarenta valentes cavaleiros, entre os quais Artur, Ban e Benoic e Bohor de Crannes, chegavam a Caimélida e, de mãos dadas, apresentavam-se ao rei Leodagan, cum­primentando-o um após o outro.

O rei Ban, que era o mais eloqüente e falador de todos, disse a Leodagan que seus companheiros e ele ofereciam-lhe seus serviços, mas sob uma condição.

-E qual é essa condição? -perguntou Leodagan, intrigado.

Então Ban pediu-lhe que prometesse nunca tentar saber seus nomes verdadeiros. Como esse era um costume muito comum. Leodagan aceitou.

Logo os vigias deram o sinal, vislumbrando ao longe os pri­meiros batedores inimigos e a fumaça dos incêndios. Houve gran­des preparativos para o combate. Artur e seus companheiros reuniram-se sob a bandeira de Merlin, em que um pequeno dragão de cauda comprida e uma tartaruga pareciam lançar chamas.

A batalha foi violenta, os atacantes pareciam decididos a lan­çar mão de tudo para obter a vitória. As lanças se chocaram e as espadas atingiram elmos e escudos, provocando um tal barulhão que nem um trovão se faria ouvir.

No entanto, em um certo momento aconteceu que os homens de Leodagan ficaram em má posição, encurralados pelos homens do temível rei Cláudio do deserto. Leodagan foi até derrubado do cavalo e capturado pelos inimigos. Merlin ficou sabendo na mesma hora.

- Aqui. cavaleiros francos! - gritou ele, aparecendo no cam­po de batalha brandindo seu estandarte flamejante.

Artur e seus companheiros, que lutavam acirradamente, che­garam a galope.

- Vamos ver quem é valente de verdade! - Merlin gritou.

Então ele deu um assobio e um vento impetuoso se levan­tou, erguendo em torvelinho em uma nuvem de poeira. Atrás dela, nossos quarenta companheiros, soltando os freios e metendo as esporas nos flancos dos cavalos, avançaram sobre os inimigos ofuscados.

Fontes: Templo de Apolo, CAMIGLIARI, Laurence.Merlin.in:__________.As Mais Belas Lendas das Idade Média São Paulo/SP:Martins Fontes,2001.Cap. 1.p.13-44.