Lucifer - A Estrela da Manhã

09/03/2019

Primeiramente, Lucifer nada mais é do que inspirado em um Deus grego, Héspero que junto ao seu irmão Eósforos eram a personificação da Estrela D'alva (O planeta Vênus), sendo respectivamente um do entardecer e outro do amanhecer. Héspero, que mostra Vênus ao entardecer, no crepúsculo, em grego "Septuaginta" e "Lucifer" em Latim da Vulgata (Latim da bíblia) "Heilel" ( Significa Vênus, ou O Brilhante, ou Estrela da Manhã). O mito bíblico, conta que era o anjo preferido, porém queria assumir o trono de Deus e corrompeu 1/3 dos demais anjos, de onde vem o termo Diabo (Divisor, aquele que divide) e foi jogado (Caiu o entardecer) no Inferno pelo Altíssimo. Posteriormente ele assumiu a forma meio bode, que é a mesma do Deus Pã, senhor da natureza, vales e bosques, o tridente de Poseidon, deus do mar, passou a governar uma especie de "Submundo", receber almas e torturas os "pecadores" assim como Hades.


Lucifer, Samael e Satanás, a mesma entidade?

Samael é um dos personagens centrais do livro "Dama-da-Noite", mas a sua origem difere de acordo com cada tradição. Primeiramente, vejamos o significado do nome. Samael significa "veneno (sam) de Deus (El)". Analisemos sucintamente algumas tradições.

Segundo a Cabala e tradições judaicas, Samael é o Anjo da Morte, é descrito como "a ira de Deus", governa o quinto céu e é servido por milhões de outros seres celestiais. Segundo esta versão, Samael acolheu Lilith após ela abandonar Adão, casando-se com ela. Foi também ele, sob a forma de serpente, que seduziu Eva e gerou Caim. Foi ele quem lutou contra Jacó e impediu Abraão de sacrificar o seu filho Isaque. Nesta visão da entidade Samael, ele é aquele que faz uso do seu natural dom da palavra, agindo sempre com inteligência e racionalidade para negar a existência de Deus.

Nas tradições cristãs gnósticas, Samael é um dos nomes atribuídos ao demônio Demiurgo (referindo-se ao maligno deus criador do mundo material) e é descrito como uma serpente com rosto de leão. É filho de Eon Sophia contra quem se revolta.

Por último, segundo as tradições cristãs canônicas, Samael era um arcanjo, por sinal o mais próximo de Deus, tendo-lhe, portanto, sido atribuído o nome de Lúcifer que significa "anjo de luz". Segundo esta versão, Samael quis roubar o trono de Deus para se equiparar a ele. Reuniu um terço dos seus companheiros celestiais e então deu-se uma batalha que culminou na expulsão de Lúcifer e seus aliados do Céu.

Analisadas as três versões, optou-se por criar uma nova origem para Samael em "Dama-da-noite". Foram utilizados pedacinhos de cada versão, nascendo a seguinte: Sophia, um Oráculo exilado da sua terra por ter ousado desafiar as leis da natureza gerando descendência através do uso da magia, deu à luz gémeos a quem chamou Samael e Mefistófeles. Deus reconheceu em Samael a sua imensa luz, convidando-o para, quando chegasse a altura certa, se juntar ao seu reino, transformando-se consequentemente num arcanjo, num dos mais próximos de si. Enquanto Samael vivia com a sua mãe e o seu irmão, Deus presenteou-o com alguns dons, como a imunidade a venenos. Chegada a altura, Samael foi acolhido por Deus e todos os anjos no Céu, ganhando o novo nome Lúcifer. Era o arcanjo mais respeitado e venerado, muito querido por Deus, um ser magnífico e brilhante. Possuidor de uma curiosidade e irreverência acima das dos demais anjos, Lúcifer acabou por ter conhecimento de muito com que não concordava e se recusava a servir. 

Mais tarde, confronta Deus, pois não compreende e não concorda com a sua maneira pouco justa de lidar com as suas criações e com a própria humanidade. Na ânsia de elegerem um Deus merecedor do trono, Lúcifer e seus aliados travam uma batalha que os arrasta para longe do Céu; os anjos de Deus lançam os seus antigos irmãos para o Inferno, um mundo envolto em caos e sem qualquer ordem. Recuperando o seu nome original, Samael decide estabelecer ordem no Inferno com a ajuda dos anjos que caíram consigo, convertendo inclusive o seu irmão Mefistófeles em demônio. Apesar de ter sido condenado a nunca mais pisar solo do Reino Celestial, Samael, devido à sua origem peculiar e ao facto de ter sido outrora arcanjo, continuou a ser capaz de fazer esporádicas visitas ao Jardim do Éden e ao palácio, visitas que eram, para ele, provocações e não fruto de saudade. Contrariamente às tradições judaicas, Samael não se uniu a Eva para gerar Caim. Em "Dama-da-Noite", Caim é o primogênito de Adão e Eva, como relatado na Bíblia.


Satã, Lúcifer e Baphomet não são o mesmo.


Livros sobre demônios existem basicamente desde sempre, e muito da nossa fé (desde suas versões mais primordiais, inclusive) se baseia no embate entre o Bem e o Mal, seja numa luta cósmica infinita, seja dentro de cada fiel, seja da forma que for. Mas é só olhar: quando se fala de Deus, invariavelmente vem alguém do próprio Satanás. Porém, é claro, popularidade não indica conhecimento. Até hoje não é raro encontrar gente que coloca nas costas do diabo a culpa por todo e qualquer mal que aconteça, desde problemas de saúde, amorosos, financeiros e afins até problemas de ordem mundial e política. Até porque, quem nunca esbarrou com teorias da conspiração acerca da família real britânica e seu suposto envolvimento com o demônio? Ou a Nasa? Ou o presidente Trump?  Mas para começar a falar sobre o assunto de forma séria e sem se basear em mitos e boatos, é preciso começar definindo bem as coisas e separando uma da outra. Afinal de contas:


Do que estamos falando quando falamos de Satã, Lúcifer e do Diabo?

Satã, Satanás, Shaitan, Iblis...

1 Então foi conduzido Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.
2 E, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome;
3 E, chegando-se a ele o tentador, disse: Se tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem em pães.
Mateus 4: 1-3

Comecemos do início: ele, um dos poucos citado nominalmente no livro sagrado de mais de 80% dos brasileiros e uma das figuras mais universais entre as religiões monoteístas: Satanás.

Não, Satanás não é invenção cristã. Na verdade, Satanás parece ser mais universal até mesmo que Jesus Cristo, até por ser um título e não uma entidade. No livro sagrado para os muçulmanos, o Corão, o termo "al-Shaitaan" é citado 87 vezes, enquanto Iblis é citado 11 vezes. Nesse contexto, o termo al-Shaitaan pode ser traduzido como "o opositor", enquanto Iblis é dado como uma espécie de líder dentre os espíritos malignos.

Porém, como todos sabem, tanto o islamismo quanto o cristianismo tem uma raiz mais antiga no judaísmo. Para essa religião, a palavra revelada se dá no Torá, e é de lá que vem as primeiras aparições dessa figura tão relevante. Nos livros de Jó, Zacarias e nos Salmos, ele é citado em um total de 23 vezes, sendo por vezes tomado como um título dado aqueles que se opõem a obra de Deus e de seus anjos. Em hebraico, Satanás é chamado Satan, ou Shaitan, ou numa versão mais antiga, ShTN. Assim mesmo, sem vogais.

Em resumo, numa visão mais cristã da palavra/ideia, Satã, ou Satanás, é portanto o adversário de Deus. De acordo com a Bíblia, é a serpente que entrou no Eden e convenceu Adão e Eva de comer do fruto proibido. É a entidade que tenta Jó a desistir de sua fé em Deus. É aquele que aparece para Jesus no deserto tentando convence-lo a largar a senda divina e sua missão na terra em troca de poderes, reinos e tudo mais. Esse é Satã: ardiloso, mentiroso, opositor, enganador, traíra, a pedra no sapato de Deus. Basicamente aquele que trouxe o pecado ao mundo com o intuito de desviar a obra máxima de Deus de seu propósito.

Ao tomarmos a origem da palavra, vemos que Satã é muito mais um título relegado aos inimigos, opositores e traidores do que propriamente uma entidade. "Aquele que se opõe" é uma tradução mais adequada ao termo, o que faz com que toda oposição a algo possa ser tido como "satânico". Dessa forma, líderes e pregadores protestantes são o Satã da igreja católica, tal como padres, bispos e o papa são o Satã dos protestantes (e os ateus, como sempre, o Satã de todo mundo).


Demônio: de espírito natural à encarnação do mal

Como tudo no estudo de religião, mitologia e afins, o termo e o conceito do Demônio não é algo recente. Nem único. Falar de uma origem para tal ideia é bem complicado, mas podemos voltar para a Grécia Antiga e de lá traçar alguma origem.

A palavra Demônio é uma corruptela, uma adaptação de Daemon ou Daímôn, que pode ser traduzido do grego clássico como "divindade, espírito". O conceito grego dos Daemons é próximo ao conceito árabe dos gênios: espíritos da natureza, amorais, podendo ser bons ou ruins dependendo das circunstâncias. Interessante notar que, para os antigos, a noção de bem e mal era muito diferente da nossa, o que pode levar a interpretações bem erradas da nossa parte. Um grande exemplo de tal fenômeno é o deus grego Hades, chamado Plutão pelos romanos: um deus dos mortos, senhor do submundo e comandante das legiões "infernais" (inclusive, o próprio nome Hades é usado para descrever o inferno para algumas tradições cristãs). Porém, apesar do que possa parecer, não havia uma conotação ruim ou negativa para o senhor dos mortos. Para nós, membros de uma sociedade profundamente cristã, é muito difícil pensar em tal conceito, mas tal distanciarmos nosso pensamento é vital para entendermos culturas mais antigas.

De toda forma, os Daemons não eram ruins. Ao menos não de todo. A entidade chamada Adefagia, por exemplo, era a patrona das cozinhas e cozinheiros, mas também era a entidade por trás da gula. Bia, chamada Vis pelos latinos, é a personificação da força bruta e a violência humana, seja ela de qual natureza for.

E nesse ponto entra o cristianismo, fazendo aquilo que todos os outros povos praticamente fizeram ao longo da história: transformar as entidades cultuadas pelos gregos e romanos em entidades malignas. Esse ponto de inflexão foi posterior ao reinado de Constantino, o imperador romano que passou o culto cristão de proibido para aceitável dentro dos limites do império, o que permitiu que as seitas monoteístas que vinham florescendo no império tomassem cada vez mais forma e acabassem por se tornar o cristianismo, séculos depois. Com isso não só os Daemons como também os deuses, heróis, semi-deuses e outras figuras míticas passaram ao papel de entidades malignas, criaturas infernais que servem ao já citado Satanás em sua missão de corromper a humanidade.


Lúcifer: o arquétipo universal personificado na forma do anjo caído

E chegamos aqui na estrela da festa, quase literalmente: Lúcifer, a figura cercada de mitos e interpretações, figurinha carimbada e anjo mais famoso do panteão cristão. Para se ter uma ideia, ao buscar por "Lúcifer" no Google temos 57.900.000 resultados. Ao buscar por "Arcanjo", temos 10.800.000. Quando o termo é "Anjo", retornam 57.700.000 resultados. 200.000 a menos que Lúcifer. Dentre todas as figuras, imagens e mitos religiosos modernos, temos ai com certeza uma das figuras mais atrativas, instigantes, comentadas e lembradas pelo grande público. Mas, afinal de contas: quem é Lúcifer?

Como nos casos acima, comecemos falando sobre a palavra Lúcifer: o termo surgiu primeiro, em um contexto cristão, na tradução conhecida como Vulgata, a tradução da bíblia para o latim feita por São Jerônimo. Nessa versão, o nome de Lúcifer é citado somente 6 vezes. Interessante notar que o termo, que pode ser traduzido como "Aquele que traz a luz" se refere a mais de um conceito distinto. Um dos usos e assimilações mais usados é "Estrela D'Alva", ou "Estrela da Manhã", em uma analogia astronômica direta. Estrela D'Alva, ou Estrela da Manhã é o nome dado ao planeta Vênus, por ser o primeiro corpo celeste a aparecer a noite e o último a sumir de manhã. Esse planeta foi então, erroneamente, chamado de estrela da manhã, quando se referia ao mesmo na sua aparição matutina, ou estrela d'alva, quando se referia ao mesmo na sua aparição noturna, como primeira "estrela" da noite. Então a associação direta entre Lúcifer e uma estrela é bem clara, mas qual o motivo de ligar uma figura dessas com um astro?

Pra responder essa pergunta precisamos entender um ponto de extrema importância: Lúcifer não é só somente um anjo (ou demônio, como preferir). Lúcifer é um arquétipo, um mito. E como todo arquétipo, ele é bem universal. Segundo Jung, psicanalista discípulo de Freud, arquétipo é:

Portanto, Lúcifer é universal, não limitado a uma fé ou credo específico. Esse arquétipo, ou mito, diz respeito a uma entidade divina ou semi-divina que, por ação própria e deliberada se rebela contra a autoridade divina máxima em favor da humanidade e, com isso, acaba banido ou perde sua condição divina. Um dos melhores exemplos dessa história, fora a bíblia, é o mito grego do titã Prometeu:

[um] conjuntos de 'imagens primordiais' originadas de uma repetição progressiva de uma mesma experiência durante muitas gerações, armazenadas no inconsciente coletivo.

Em resumo, Prometeu era um Titã que, segundo algumas tradições, foi o criador da humanidade a partir do mando de Zeus. A esse Titã foi dada a ordem de não interferir na humanidade, deixando a mesma em sua condição animalesca, pois esse era o desígnio de Zeus. Porém Prometeu optou por não cumprir tal ordem, e roubou da forja do deus Hefésto/Hefaisto a chama sagrada e a trouxe para a humanidade, ensinando o ser humano a controlar o fogo, elemento vital para o seu desenvolvimento. Por essa insolência, Zeus acorrentou Prometeu a uma rocha, na qual ele foi condenado a ser bicado por um pássaro e ter seu fígado comido eternamente por sua insolência.

Essa história também não é exclusiva dos gregos. Entre os egípcios, o deus Set (mais tarde chamado Sífon), apresenta uma história similar. Entre os hindus temos Sukra, chefe dos Daityas, deuses rebeldes que lutaram contra a ordem celestial. Além disso, os hindus podem identificar Lúcifer entre os Devas e Asuras, segundo seus mitos próprios. Até mesmo os maias e astecas possuem Lúcifer entre seu panteão, que atende pelos nomes de Kukulkan ou Quetzalcoatl, a Serpente Emplumada (sobre como que a serpente encaixa no restante da história eu falo depois).

Então é fácil ver que Lúcifer ta mais pra uma versão hebraica/cristã de uma história muito mais antiga do que pra um conceito único e exclusivo. Mas o que é essa história e sobre o que ela fala?

Lúcifer, Prometeu, Set e tantos outros são mitos. E os mitos tem por função, entre outras coisas, falar sobre o ser humano. Histórias como a de Hércules/Héracles, a morte e ressurreição de Osíris, o caldeirão mágico de Ceridwen, a barganha de Odin em troca do conhecimento dentre outras milhares falam sobre o Homem, a jornada do Herói e possuem significados bem maiores e mais profundos do que parecem a primeira vista. Veja: Lúcifer, por orgulho e vaidade, se virou contra Deus e seus anjos em um combate que já estava perdido antes mesmo de começar. Esse combate, como esperado, terminou com a expulsão do anjo dos céus e o lançou as chamas do Inferno, onde ele sofrerá pela eternidade, longe de Deus e da humanidade. Porém, mesmo ardendo no Abismo, o orgulho de Lúcifer não cessa e sua cabeça se mantém erguida. Como bem resumiu o poeta inglês John Milton:

É melhor reinar no inferno do que servir no céu
John Milton - Paraíso Perdido

Porém, antes da queda, segundo o mito cristão, Lúcifer se fez serpente e levou a humanidade a pecar, comendo do fruto da árvore do conhecimento, o que trouxe o pecado para o mundo. Assim, Adão e Eva, influenciados pelo anjo caído, obtiveram o conhecimento sobre sua condição e foram expulsos do edílico Éden. Não muito distante da história de Prometeu que, ao dar a humanidade a chama sagrada, foi condenado ao tormento eterno e marcou o fim da era de ouro da humanidade.

Então fica fácil ver sobre o que tudo isso se trata: o conhecimento leva a queda e a separação do divino. Mas também o conhecimento liberta e permite ver além do que olhos cegos pela ignorância podem ver. Adão e Eva estiveram pelados e entregues ao acaso o tempo todo, mas não possuíam conhecimento de tal. Ao comerem do fruto e se libertarem, puderam construir pra si todo o necessário para a própria proteção e a fundarem sua própria família, dando continuidade ao legado humano. Deixaram para trás sua condição animal e se tornaram humanos, semelhantes ao criador.

"Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, sabendo o bem e o mal"
Gênesis 3:22

Porém Lúcifer não é identificado somente como o anjo caído, ou ao arquétipo da queda humana. Na mesma bíblia temos dica de uma relação um pouco (muito) mais "polêmica". Como eu disse ali em cima, Lúcifer é identificado como "Aquele que traz a luz", ou como a estrela matutina, a estrela que anuncia a chegada do dia e da luz do sol. E na própria bíblia vemos um outro personagem se identificando como o portador da luz: Jesus de Nazaré, o Cristo, como podemos ver nos versículos abaixo:

"Eu, Jesus, enviei o meu anjo para dar a vocês este testemunho concernente às igrejas. Eu sou a Raiz e o Descendente de Davi, e a resplandecente Estrela da Manhã"
Apocalipse 22:16
"E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia esclareça, e a estrela da alva apareça em vossos corações."
2 Pedro 1:19

Em latim fica ainda mais bonita e direto:

"et habemus firmiorem propheticum sermonem cui bene facitis adtendentes quasi lucernæ lucenti in caliginoso loco donec dies inlucescat et lucifer oriatur in cordibus vestris"
Epistula II Petri 1:19

Ou seja: o próprio Jesus era identificado como sendo o portador da luz, a estrela da manhã e a estrela d'alva. Jesus era, em um sentido mais literal, Lúcifer, aquele que traz a Luz ao coração dos homens e veio tirar a humanidade não das trevas da ignorância, mas sim das trevas do pecado e da vida desregrada.

Pois é.

Em resumo, Lúcifer é aquele que traz a luz pra livrar os homens da ignorância. Em um primeiro momento ele foi identificado como aquele que libertou o Homem da ignorância através do fruto do conhecimento. Em um segundo momento, aquele que liberta o Homem do pecado através do Messias, que vem refazer a aliança de Deus com a humanidade. Por isso Lúcifer é mais identificado como um arquétipo do que como um ser individualizado.


Baphomet: a queda dos templários e o ocultismo moderno

E pra fechar esse compêndio de entidades, criaturas e mitos ligados ao bode preto não podia faltar ele: o próprio Bode Preto: Baphomet, ou a suposta representação gráfica do demônio/diabo/satanás/lúcifer em pessoa (ou quase).

Antes de mais nada, importante frisar que Baphomet é uma grande colcha de retalhos simbólicos, filosóficos, históricos e religiosos. Uma representação gráfica elaborada pelo ocultista moderno Éliphas Levi (como dá pra ver abaixo das patas de bode o próprio nome do autor), um mago, escritor, pensador e filósofo do século XIX. Éliphas Levi é, na verdade, o codinome que Alphonse Louis Constant passou a usar para escrever sobre temas pouco ortodoxos. Mas afinal, o que significa seu desenho? Como de costume, um pouco de história antes:

O nome Baphomet teve sua primeira aparição em uma carta escrita pelo cruzado Anselmo de Ribemont para o Arcebispo de Rheims. Em uma tradução livre, a carta diz algo como:

"Enquanto o novo dia nascia, eles chamaram por Baphometh, e nós rezamos em nossos corações por Deus, e então atacamos e forçamos todos eles para fora da cidade"
Anselmo de Ribemont - Julho de 1098

Mas quem são "eles"? Anselmo foi um soldado na primeira cruzada que lutou para libertar Jerusalém do domínio dos muçulmanos. Portanto é razoável supormos que "eles" eram os inimigos muçulmanos ou algum povo pagão que vivia na região. O que indica que possivelmente havia, entre aquele povo, o culto a alguma figura associada com essa entidade.

Porém foi só em 1307, na França, que o nome Baphomet e todo mito que o cerca veio a toa. Na noite de 13 de Outubro daquele ano, uma sexta-feira, o rei Philip IV da França começou a caça aos templários, acusados de vários crimes, dentre eles os de heresia, conspiração contra o papa, posse de bens (lembrando que os templários eram soldados que faziam votos de castidade e de pobreza, o que os proibia de possuir qualquer riqueza), homossexualidade, pratica de feitiçaria e satanismo. Uma lista de crimes bem pouco esperada de uma ordem católica que tinha por propósito defender a cristandade no oriente.

(Reparou no dia em que tudo isso começou? Sexta-feira, dia 13/10/1307. Foi daí que nasceu toda a mística por trás das sextas feiras 13, inclusive.)

A questão é que, ao torturar os membros da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a igreja esperava extrair deles confissões. E os cavaleiros acabaram confessando boa parte de seus crimes (se eles de fato cometeram ou se confessaram uma mentira no intuito de escapar da tortura, é algo que nunca saberemos), inclusive de cultuar um demônio de aparência bestial chamado Baphomet. Essa acusação seria, por si só, suficiente para acabar com a ordem e enviar ao menos seus líderes para a fogueira, mas a igreja extraiu muito mais.

Porém o tempo passou, e Baphomet ganhou outra roupagem. Se antes ele era uma figura semi-mítica, um nome a se temer e um motivo para se torturar e executar desafetos, nas mãos de Éliphas Levi ele se tornou um símbolo de grande poder e muitos significados.

Como é "costume" dentre do ocultismo (e muitos podem até defender que o próprio termo ocultismo vem dai), Baphomet é a compilação e o resumo de uma série de ensinamentos místicos e filosóficos. Em si residem conceitos, crenças, práticas e segredos passados de geração em geração entre iniciados e estudiosos até os tempos modernos. Então vamos a dissecação:

Talvez o elemento que mais chama a atenção nessa figura seja sua mescla entre ser humano e bode. Como todos os elementos aqui listados, esse possui mais de um significado, mas pode ser visto como a união entre o homem e a besta. Segundo essa visão, todo homem tem em si o potencial divino (Homem) alocado em um corpo animalesco (Bode). Equilibrar tais pólos é um dos segredos da iluminação.

As mãos que apontam para cima e para baixo, na direção do sol e da lua, são uma figura já clássica que indica que "Assim em cima como em baixo", o famoso axioma de Hermes Trismegisto. Tal indicação mostra que o plano superior é como (não igual, mas equivalente) ao plano material, e que esse é como os planos inferiores. Além disso, o sol e a lua mostram que é necessário a união desses dois aspectos para que ocorra a iniciação.

Falando em pólos, vemos também que essa figura apresenta seios e uma figura representativa do pênis. Tal como visto acima, temos aqui um arcano sobre a união dos dois pólos: masculino e feminino, ativo e passivo, a energia solar e fálica e a energia lunar e ventral. O símbolo fálico é o caduceu, antigo símbolo de sabedoria e poder, sendo tido como a ferramenta de Hermes, o deus grego dos mensageiros e da magia.

As asas são o primeiro indício de outra união e equilíbrio entre extremos: se olharmos bem, vemos escamas na região da barriga, asas, um trono quadrado e uma chama sobre sua cabeça. As asas são uma clara alusão ao ar; as escamas apontam para a água; a chama sobre a cabeça é claramente o fogo; e o trono quadrado remete a terra. Como? Basta lembrar dos sólidos pitagóricos: segundo a escola de Pitágoras, cada sólido regular está associado a um elemento. Adivinha qual é a representação da terra? Sim, um cubo. Assim, Baphomet é aquele que reuni em si e domina os quatro elementos, ou os quatro aspectos do ser humano: corpo (terra), razão (ar), emoção (água) e espírito (fogo).

Por fim, mas não menos importante, seus braços trazem as inscrições "Solve" e "Coagula". Essas palavras vem do latim e significam "destruir, desfazer, desconstruir" e "unir, juntar, refazer" respectivamente. Assim, Baphomet indica que o caminho para a iluminação passa primeiro pela destruição de quem se é seguido pela união a partir dos outros conceitos citados. Só assim, matando nossas fraquezas e desejos e nos reconstruindo a partir do conhecimento e da iluminação que nos tornaremos verdadeiramente completos e sábios.

Obviamente essa é uma explicação bem rasteira e básica sobre essa figura, mas já dá pra ter uma ideia de que não, Baphomet não é um desenho do demônio, nem uma entidade maligna que leva crianças pro inferno e se alimenta da alma delas. Baphomet é sobre o homem em comunhão consigo mesmo, é sobre superarmos nossos defeitos e nossas fraquezas e encontrarmos o divino que habita em todos nós.


Últimas palavras

Pelos últimos 2000 anos o monoteísmo vem dominando o mundo. E como tal, a moralidade monoteísta é a moralidade vigente. Como todo herói precisa de um grande vilão para existir, as forças do deus monoteísta precisam de uma contraparte para existir. Toda religião, em suma, possui essa polaridade. Mas nas religiões monoteístas isso se torna ainda mais evidente, seja através de embates diretos entre as forças do bem e do mal (como Jesus exorcizando os demônios, sendo tentado pelo diabo dentre outros), seja de forma indireta, tomando uma entidade como bode expiatório para perpetrar o eterno embate de forma mais velada e metafísica. Assim, os shaitans de cada religião são tão importantes quanto seus deuses, pois tratam também de nossa própria natureza humana: em busca da perfeição e da união com o divino, mas ainda falhos, pecadores e moralmente condenáveis.

E não há problema algum em assumirmos que somos falhos. Na verdade, o começo da sabedoria está aí. Se não buscarmos conhecer nossos defeitos de perto e não enfrentarmos eles de peito estufado, não poderemos jamais crescer enquanto indivíduos. E isso passa necessariamente por conhecer nossos demônios particulares um por um e lutar contra eles. E por demônios, eu me refiro não a pequenos seres vermelhos com tridentes que sussurram coisas erradas em nossos ouvidos. Buscar a elevação espiritual e humana é algo que vai além das religiões, visões políticas, crenças pessoais ou o que for. Aquele que não busca crescer enquanto pessoa está fadado a ser um prisioneiro de seus próprios erros e invariavelmente cometerá eles novamente.

Conhecimento liberta. Tal como Prometeu, somos condenados a sofrer sempre que buscamos mais e mais informação. Mas esse é o preço da sabedoria: ser um rebelde, um outsider, um combatente de velhos dogmas vazios e de líderes que só buscam os próprios interesses. Conhecer é se libertar, ainda que essa liberdade seja usada para lutar contra tudo que há de errado no mundo.


Resumo do livro O Paraíso Perdido nessa postagem



Fontes: vaiican.var, a revolução luciferiana, dogma e ritual da alta magia, allaboutgod, superabril, planocritico, mythology&culture