Lancelot - O lendário cavaleiro

28/07/2018

Lancelote do Lago é o mais conhecido dentre os cavaleiros da Távola Redonda, principal servidor do rei Artur e seu amigo devotado - e ao mesmo tempo rival, pelo amor da rainha.

Quanto a Artur, apesar de vários estudiosos defenderem com entusiasmo teses sobre um "Arthur" ou "Artorius" histórico, talvez não um rei mas pelo menos chefe militar ("dux bellorum", senhor da guerra), o fato é que nenhum deles logrou reunir provas realmente convincentes. Artur teria liderado os bretões, povo de origem celta, em suas últimas tentativas bem-sucedidas de evitar que a Grã-Bretanha fosse invadida pelos saxões e outros bárbaros germânicos, como afinal aconteceu. A História dos Bretões, pseudo-crônica bretã do século IX, atribuída a um certo Nemius, a que se costuma anexar os Anais de Câmbria (nome antigo de Gales), credita a Artur doze batalhas vitoriosas, entre as quais a de Badon, no ano 516 e.c., e assinala sua morte na batalha de Camlann, em 537. Mas nem mesmo dessas batalhas há registro histórico reconhecido. Lord Raglan mostrou, inclusive, que a pretensa biografia de Artur se encaixa bem em seu padrão de heróis lendários:

Sua mãe, Igraine, é de sangue nobre, e seu pai - se ele fosse filho legítimo - seria o duque da Cornualha. Entretanto, ele é dito ser filho do rei Uther Pedragon, que visita Igraine sob a aparência do duque. Ao nascer, embora aparentemente não corra perigo, é retirado do convívio dos pais e [225] educado por sir Ector em local distante. Não ouvimos nada sobre sua infância, mas, ao atingir a idade adulta, viaja para a capital do reino, obtém uma vitória mágica ao retirar uma espada da pedra em que estava cravada, e em virtude disso é proclamado rei. Depois de outras vitórias, casa-se com Guenever, e, como dote, recebe do pai dela a Távola Redonda. Depois disso, reina com tranqüilidade e prescreve as mais reputadas leis da cavalaria, porém mais tarde ocorre uma conspiração contra ele, enquanto está ausente, combatendo contra o Império Romano. Há um mistério sobre sua morte, de vez que, tendo sido ferido mortalmente, é transportado para Avalon, terra das fadas. Aquele que o sucede no trono não é seu filho. Seu corpo não teria sido sepultado, conforme a crença de que um dia ele voltaria a reinar, mas ainda assim lhe atribuíam um sepulcro em solo consagrado em Glastonbury.

Lancelote, por sua vez, é sem dúvida personagem de ficção. Foi criado pelo escritor francês Chrétien de Troyes. Em seu romance de cavalaria, em versos, intitulado O Cavaleiro da Carreta (1177), Chrétien nos conta como Lancelote libertou sua idolatrada rainha Guenièvre (em inglês, Guenever) do seqüestrador Méliagant e a devolveu a Artur. A estrutura da narrativa lembra a do clássico sânscrito Ramayana, em que também é descrita, com várias semelhanças, a expedição de um herói, o príncipe Rama, para resgatar a mulher amada em terra estranha.

Para Chrétien, Lancelote não era o principal entre os cavaleiros do rei Artur. Gawain, sobrinho do rei, e Érec viriam antes dele. Lancelote ganharia o primeiro lugar nos romances em prosa que vieram depois, em particular na chamada Vulgata Arturiana. Nessa obra, jádo século XIII, apenas no curso da busca do Graal Lancelote seria superado - pelo filho, Galaad. O caso com Guenever o teria tornado indigno de empreender tão elevada missão espiritual.

Lemos na Vulgata Arturiana sobre os primeiros anos do herói. O pai de Lancelote, o rei Ban de Benoic (ou Benwick), fora morto durante o período conturbado entre a morte de Uther e a coroação de Artur. O menino teria também sucumbido ao massacre se não fosse arrebatado por Niniane, a Dama do Lago, que o criou em seus domínios, ocultos por encantamento no fundo de [226] um lago - tudo isso servindo para explicar por que o chamavam Lancelote do Lago. Atingindo a idade adulta, é armado cavaleiro na corte de Artur em Camelot e recebe a espada das mãos de Guenever; daí em diante, será sempre o cavaleiro da rainha. Por amizade a Lancelote, o rei Galehaut, inimigo de Artur, faz as pazes com ele. Galehaut revela depois a Guenever que Lancelote a ama sem ousar confessar seus sentimentos. Lancelote e Guenever trocam o primeiro beijo. Tornam-se amantes, conseguindo no início manter em segredo seus encontros.

Os anos finais seriam tristes. Guenever é condenada à morte por Artur, diante da denúncia de sua ligação com Lancelote. Este a salva da fogueira e exila-se com ela em seu castelo, sofrendo então o assédio militar de Artur. Foi necessária a intervenção do papa, que fez cessar as hostilidades, determinando ao rei aceitar Guenever de volta como rainha. Mais adiante, quando o traidor Mordred tenta seduzi-la, ela escapa, refugiando-se em uma torre. De lá sai para ingressar em um convento, já durante a luta final entre Artur e Mordred, no curso da qual a não participação do invencível Lancelote é grandemente sentida. Ele deveria sobreviver ao rei e à rainha, transcorrendo seus últimos dias em penitência e orações em um eremitério.

A Vulgata Arturiana foi provavelmente o texto que mais influenciou A Morte de Artur (1485), do inglês sir Thomas Malory, até hoje a mais importante referência sobre o lendário rei. No relato de Malory, do qual foi tirada a seqüência de aventuras narradas (...), lê-se que Lancelote "prevaleceu sobre os demais cavaleiros e em nenhuma ocasião foi vencido, salvo por traição ou encantamento". A frase dá a entender que o critério de Malory era bem simples: o melhor cavaleiro é aquele capaz de derrotar cada um dos outros em combate singular. Para estabelecer seu nome nessa hierarquia de quem vence quem, cada cavaleiro viveria procurando oportunidade de enfrentar os outros. Em um torneio em que cavaleiros do rei Artur defendessem um lado, nada impediria Lancelote de lutar pelo outro. Isso não é apontado como traição no texto, é apenas mais uma ocasião de "pôr-se à prova".

O rei Artur saía algumas vezes em guerra, como aquela empreendida contra o Império Romano. Nessas ocasiões, seus cavaleiros participavam lealmente das batalhas campais, certamente mais sérias do que os habituais combates [227] singulares, pois o objetivo passava a ser a defesa do reino. Mas tem-se a impressão de que eles não viam a hora de regressar. Lemos de fato em Malory como, terminada a guerra contra Roma, os cavaleiros da Távola Redonda estão de volta à Inglaterra, felizes de poderem dedicar-se de novo a justas e torneios, além de jogos e caçadas. Pouco tempo depois, o mais valoroso entre eles, sir Lancelote do Lago, sente que isso não lhe basta e decide sair à procura de aventuras...

Ao nos fazer acompanhar Lancelote, Malory nos dá a melhor ilustração possível da figura do cavaleiro andante, que sai cavalgando sem propósito definido, para o que der e vier, sempre disponível para atender aos apelos de quem cruza seu caminho, especialmente damas e donzelas indefesas. Nos romances de cavalaria, é esse exatamente o conceito de "aventura", incidente maravilhoso em que qualquer coisa pode acontecer. E o que acontece não são apenas os combates entre os cavaleiros. A todo momento o mundo real é invadido pelo mundo fantástico, com seus magos, gigantes, fadas, feiticeiras e encantamentos. [228]

Fontes: Furtado,A .(2006).Lancelot (Inglaterra).in:A .Furtado,(Ed.),Heróis do Ocidente e do Oriente:Mitos e Lendas.(pp.225-228).Rio de Janeiro/RJ:Nova Era, Templo de Apolo