Khnum - Deus Primordial e Regulador das Águas do Nilo

28/04/2019

Khnum era representado como um homem com cabeça de carneiro, por vezes tendo uma jarra ou coroa dupla sobre os cornos. O seu nome significa 'o modelador'. É um deus com origens antigas, que possivelmente remontam à época pré-dinástica. Do ponto de vista geográfico, encontrava-se ligado à zona sul do Egito e à Núbia. Este deus representava os aspectos criativos; acreditava-se que Khnum regulava as águas do Nilo, das quais os egípcios dependiam para a sua sobrevivência. A vida no Antigo Egito estava regulada pelas inundações anuais do Nilo que traziam uma argila que fertilizava os campos e assim permitia a prática agrícola. Estava também ligado à criação dos seres humanos. No seu torno formava não só a carne dos humanos, mas também o seu "ka" (alma). Por esta razão, era também representado no ato da criação dos novos seres. No seu torno também criou o ovo do qual saiu Rá, que por sua vez gerou os outros deuses. Em Elefantina Khnum formava uma tríade (agrupamento de três deuses) com as deusas Satis e Anuket. Na cidade de Esna formava uma tríade com Satis e Neit.

Uma tradição afirma que o faraó Djoser estava preocupado com uma fome de sete anos que se tinha abatido sobre o Egito. O rei compreende que esta situação esta associada ao fato de Khnum não permitir a circulação das águas do Nilo, que prende com as suas sandálias. O rei decide então realizar oferendas à divindade, que surge num sonho a pedir que continue a honrá-lo convenientemente. Esta história encontra-se gravada numa estela da época ptolomaica, conhecida como a "estela da fome" e é provável que tenha pouco valor histórico, dado longo período de tempo que decorre entre Djoser e a era ptolomaica.


Os sete anos de fome

Ano 18 do Hórus Netjerirkhet, o rei do Alto e do Baixo Egipto Netjerirkhet, o das Duas Senhoras Netjerirkhet, o Hórus de Ouro Djoser, sob o príncipe hereditário e governador dos domínios do Sul, chefe dos Núbios em Abu-Elefantina, Mesir. Foi levado até ele este decreto real. Para que saibas: Estou no mais profundo desespero no meu trono, os do palácio estão preocupados, o meu coração está em grande aflição, porque há sete anos não há cheia do Nilo. Quase não restam mais cereais, ninguém tem muito que comer e não entra nos cofres qualquer receita. As pessoas mal podem andar, as crianças choram e os velhos, desalentados, sentam-se no chão, com os joelhos para cima. Há privações até na corte e os templos foram fechados. Todos sofrem. Num esforço para descobrir o que eu podia fazer, interroguei o principal sacerdote leitor de Imhotep. Em que lugar é que o Nilo cresce? Que deus mora ali, para que eu possa pedir-lhe ajuda?

«Irei imediatamente até Hermópolis», disse o sacerdote leitor. «Farei uma breve pesquisa na biblioteca do templo local para descobrir que conselho pode ser selecionado dos escritos divinos.»

Quase imediatamente, o sacerdote leitor regressou com os resultados da sua pesquisa. Disse ele: - Há uma cidade no meio do Nilo chamada Elefantina. Está situada bem no começo das coisas. E o lugar de onde Rá envia vida para todos e é a fonte da vida, o lugar de onde o Nilo fertilizante em sua cheia salta em frente para impregnar a terra. O deus do lugar é Khnum. É ele quem distribui as terras do Egito a cada deus e controla os cereais, as aves, os peixes e tudo aquilo de que eles vivem. Há ali uma corda de agrimensor e uma paleta de escriba para fazer a avaliação das colheitas. No lado nascente da cidade há grandes montanhas que contêm todas as espécies de minerais preciosos e pedras duras. Há ali magníficas pedreiras de onde é retirado o excelente material usado em todos os templos do Alto e do Baixo Egito, nos estábulos sagrados, nos túmulos reais e em todas as estátuas erguidas nos templos e nos santuários. Os produtos das montanhas são levados a Khnum juntamente com todas as plantas e flores que crescem nos arredores. E no meio do rio há um lugar de descanso admirável que fica coberto por ocasião da cheia do Nilo. -

O sacerdote disse-me então o que podia ser encontrado nesse agradável lugar e em suas vizinhanças. Primeiro, relacionou por ordem de importância os deuses e deusas que eram venerados no grande templo de Khnum na ilha de Elefantina, tanto as divindades que moram ali por direito próprio como as que chegam em visita e são bem recebidas. Enumerou então pormenorizadamente todas as espécies de pedras que podem ser obtidas nas montanhas vizinhas, pedras para construção, pedras para estátuas e pedras preciosas usadas na arte dos joalheiros. Falou também dos metais raros que eram extraídos das mesmas montanhas.

Disse-me muitas outras coisas a respeito de Elefantina, até que eu tive uma ideia muito completa das suas riquezas. Quando ele acabou, fiquei cheio de alegria em saber que havia tal lugar no meu reino. Mandei que os livros sagrados fossem desenrolados, fiz purificações, organizei procissões e fiz ofertas completas de todas as espécies de comidas e bebidas aos deuses e deusas de Elefantina, cujos nomes foram mencionados.

Algum tempo depois, estava eu dormindo tranquilamente e sonhei que o grande deus Khnum estava diante de mim. Fiz imediatamente tudo o que me era possível para que ele me fosse propício, dando-lhe adoração e fazendo-lhe o meu pedido.

O deus dirigiu-se a mim de maneira muito amistosa: «Sou Khnum, que te criou; com meus braços eu te protejo e te ajudo. Ponho à tua disposição os intermináveis depósitos de minerais preciosos, como ninguém conheceu ainda. No entanto, não há obras em andamento. Deverás construir templos, restaurar as construções que estão em ruínas e recuperar as estátuas, pois eu sou o grande deus criador que tudo determina. Sou Nun, que existiu desde os tempos mais primitivos, e sou Hapi no período da cheia a correr livremente. Atuo sobre os homens e oriento-os nos momentos em que enfrentam o destino. Sou Tatenen, pai dos deuses, sou o grande Chu, grande no céu. O meu santuário tem dois portões, dos quais posso deixar escoar-se a água para a cheia. E a cheia que dá vida a tudo, e o que ela irriga continua a viver. Farei o rio subir de novo para ti e não haverá mais anos sem inundação. As flores desabrocharão e todas as plantas irão crescer um milhão de vezes mais sob os auspícios de Renenutet. As privações cessarão e todos os celeiros se encherão. O povo do Egito será mais feliz do que nunca.»

Quando despertei do sono, o sonho enchia-me o espírito. Todos os seus pormenores estavam fixados nitidamente na minha consciência. Com alegria no coração e conhecimento seguro de que o resultado seria bom para a minha infeliz terra, chamei o meu principal escriba e ditei um decreto em honra de meu pai, Khnum, e líder da Núbia. Continha todos os dispositivos que ele especificara no meu sonho. Dizia o seguinte:

Em primeiro lugar, em troca de tudo o que o deus tinha feito por mim, oferecia-lhe uma grande extensão de terras dos dois lados do rio, estendendo-se para o Sul de Elefantina até Takompso.

Todos os que cultivam campos nesse território, tanto nas margens do rio como nas áreas recentemente recuperadas, deverão entregar as colheitas nos celeiros de Khnum. Além disso, todos os homens que vivem de apanhar peixes, caçar animais grandes e pequenos, apanhar aves em armadilhas e caçar leões terão de pagar um décimo de tudo o que conseguirem com os seus esforços, cabendo a renda a Khnum. Todos os filhotes de animais domesticados no território especificado deverão também ser entregues.

Além disso, todos os animais marcados para o sacrifício e todas as oferendas devem ser dadas a Khnum, inclusive todos os produtos que chegarem da fronteira da Núbia - ouro, marfim, ébano, todas as espécies de plantas, minerais e madeiras - e o que puder ser cobrado aos Núbios em matéria de impostos atrasados. Não deve haver da parte dos funcionários qualquer interferência que possa desviar o que deve ir de direito para o templo de Khnum.

Por fim, todo esse território, inclusive as partes rochosas e a boa terra arável, deve pertencer a Khnum. Devem ser designados funcionários para morar ali e fiscalizar o trabalho de todos os que lidarem com metais preciosos ou não e de todos os artesãos; providenciarão para que o dízimo de tudo o que se faça seja remetido para o templo de Khnum. O mesmo dízimo será imposto sobre o rendimento do comércio e das pedreiras.

Os trabalhadores que laboram nas oficinas anexas ao templo de Khnum não terão falta de metais preciosos e de outros materiais necessários para fazer novas estátuas e vasos rituais e para reparar o que estiver danificado. E tudo deverá ficar como anteriormente estava.

Foram esses os termos do meu decreto e eu ordenei que o mesmo fosse gravado numa pedra em lugar sagrado e escrito numa placa depositada no santuário do deus. Na verdade, tudo aconteceu como eu sonhei. Ordenei também que os sacerdotes e outros funcionários fizessem o meu nome viver eternamente no templo de Khnum, senhor de Elefantina.

Fontes: Templo de Apolo, Mythology & culture, ARAÚJO,Luís Manuel de.Os sete anos de fome.in:__________.Mitos e Lendas:Antigo Egipto.Lisboa/PT:Livros e Livros,2005.p.283-288.