Jing Wei - A Vingadora do Mar

23/07/2018

Nü Wa, a filha mais jovem de Yandi - deus do Sol - era uma menina ingênua, alegre e bonita. Todos os dias ela ia brincar na Praia porque o dourado da areia com suas conchas coloridas, e o azul do mar com as suas tumultuosas ondas a atraiam irresistivelmente. Um dia, quando se preparava Para sair, a mãe avisou-a que uma grande tempestade estava a desencadear e que seria melhor que ela ficasse em casa, mas a menina, que também era caprichosa, não querendo dar ouvidos aos conselhos da mãe decidiu ir à mesma. Depois de ter recolhido ao longo da Praia conchas de variadas cores empoleirou-se em um pináculo sobranceiro ao mar, contemplando a espuma branca das vagas que se quebravam contra as rochas e as gaivotas voando no azul do oceano. "Que lindo é o mar! O pai tem razão em vir aqui se banhar todos os dias", pensava consigo a menina imersa nos seus pensamentos e sem se dar conta que uma grande tempestade se aproximava.

Um vendaval quente e úmido começou por rodar a superfície das aguas para, em seguida, dar lugar a uma borrasca acompanhada por chuvas torrenciais que se abateram sobre toda a terra. A fúria redobrada do vento fustigou as ondas que se transformaram em vagalhões, despedaçando-se sobre as margens como montículos. Nü Wa, não conseguindo fugir a tempo, foi levada pelas ondas para os confins do mar.

A mãe de Nü Wa tinha, entretanto, corrido para a praia desafiando a chuva torrencial e o vendaval. O vento soprava com tanto ímpeto que lhe era quase impossível ter os pés assentos no chão e a chuva caia sobre o seu rosto com tanta densidade que lhe era quase impossível manter os olhos abertos. Apesar de tudo, ela gritou a todos os pulmões:

- Nü... Wa! Nü... Wa!...

Mas, para além das vozes do vento, da chuva e das ondas não obteve qualquer outra resposta.

Pouco depois, a tempestade passou e o mar quedou-se calmo e tranquilo, todavia, Nü Wa tinha desaparecido.

Sentada desconsolada na praia com profusas lágrimas escorrendo-lhe pelas suas pálidas faces, a mãe Olhava absorta para longe, com uma enorme magoa partindo-lhe o coração.

Coitada da menina Nü Wa, nunca imaginou que o mar de que gostava tanto se pudesse mostrar tão cruel a ponto de devorar a sua jovem vida.

Apos a sua morte, o seu espirito queixoso e ferido converteu-se em Jing Wei - uma ave com uma cabeça de plumas multicores, um bico branco e umas garras vermelhas, e que fez o seu ninho na montanha Fajiuá, a ocidente. A partir dessa altura, a ave sentiu um grande ódio contra aquele mar que lhe tinha arrebatado a sua breve existência de criança e jurou vingar-se decidindo acabar com ele.

Querendo tornar em realidade a sua decisão, a ave incessantemente voava para longe, de onde trazia no seu bico galhos secos e pedras que depois descarregava sobre o imenso mar azul. Assim se sucederam dias, meses e anos e o pássaro trabalhando ininterruptamente. Que impressionante e admirável era a sua grandiosa aspiração e magnifica sua força de vontade!

Diz a lenda que a ave Jing Wei e o pássaro Petrel acasalaram-se e procriaram descendentes. Os filhos herdaram o nome do pai - Petrel, enquanto as filhas continuaram com o nome da mãe - Jing Wei. Os filhos herdaram o caráter firme e indomável do pai, voando corajosos e livremente por entre as nuvens negras sobre o mar ondulante, sempre que uma tempestade se anuncia. Ainda hoje, os seus descendentes emitem gritos de combate e de vingança. As filhas continuaram o trabalho da mãe indo buscar pedras e galhos secos para tentar encher o mar; esta consistente labuta tem vindo a ser transmitida de geração em geração.

Os antigos chamaram a Jing Wei a Ave Inocente ou a Ave Perseverante, assim manifestando a sua simpatia e admiração pela sua tenacidade.

Fontes: ChinesaABNTABREU,Antônio Daniel.Jing Wei, a vingadora do mar.in:__________.Mitologia Chinesa - Mitologia Primitiva:Quatro mil anos de história através das lendas2ª Ed.São Paulo/SP:Landy Editora,2006.p.103-106.