Inanna - Deusa do amor, da guerra e da fertilidade

14/11/2018

Inanna era a mais importante deusa da Mesopotâmia, venerada em toda a área que constitui hoje o Oriente Médio. Seu templo principal diz-se, construído pelo predecessor do herói Gilgamesh se localizava na Suméria, mais tarde Babilônia, na cidade de Uruk (sudeste do Iraque).

Ishtar tinha muitos nomes na Mesopotâmia, incluindo Ashtart, Astarte, Astaroth, Inanna e Isis. Ela era adorada de Nínive a Tebas e da Babilônia ao Chipre. Ela não apenas era a cortesã dos deuses, mas seu culto envolvia prostituição sagrada - sua cidade Uruk era conhecida como a cidade das cortesãs sagradas. É altamente provável que o culto a Afrodite tenha se originado de Ishtar, pois Ishtar também era identificada com o planeta Vênus. Ela era deusa tanto da fertilidade como do sexo e era a própria Estrela Vespertina (como Vênus). Todas as noites, banhava-se em um lago sagrado para restaurar sua virgindade após acasalar-se com o máximo de deuses ou mortais, animais ou conceitos abstratos que conseguisse. Uma de suas estórias mais conhecidas é a de seu amor pelo mortal Tamuz/Dumuzi e como, quando ele morreu, ela desceu no Mundo Inferior para recuperá-lo. Ela também era uma deusa da guerra na Assíria, onde seu grito de guerra congelava o sangue do inimigo, e seus sacerdotes faziam oferendas a ela das mãos arrancadas de seus prisioneiros. Cruel, imprevisível e assustadora, mas ainda assim amável, possuía atributos similares não apenas aos de Afrodite, mas também aos da deusa hindu Kali.

Em sua descida para resgatar Tamuz/Dumuzi, ela gritou: "Arrebentarei os umbrais, forçarei as portas. Despertarei os mortos para comerem os vivos. E o número de mortos superará o de vivos".

Associada ao planeta Vênus, era especialmente cultuada em Ur, mas era alvo de culto em todas as cidades sumérias.

Surge em praticamente todos os mitos, sobretudo pelo seu carácter de deusa do amor (embora seja sempre referida como a virgem Inanna); por exemplo, como a deusa se tivesse apaixonado pelo jovem Dumuzi, tendo este morrido, a deusa desceu aos Infernos para o resgatar dos mortos, para que este pudesse dar vida à humanidade, agora transformado em deus da agricultura e da vegetação.

É cognata das deusas semitas da Mesopotâmia (Ishtar) e de Canaã (Asterote e Anat), tanto em termos de mitologia como de significado. O dia 2 de Janeiro é tradicionalmente consagrado a esta deusa.

«A Dançarina», deusa do Céu, do Amor, da Fertilidade e da Guerra, identificada depois à deusa fenícia Astarte e a Afrodite, Inanna inspira o terror tanto aos deuses como aos homens. A maioria dos mitos em que figura mostra-a como uma deusa cruel, um monstro capaz de matar os seus amigos e amantes. Desenfreada no campo de batalha, corta as cabeças e enumera, nos seus cantos de guerra, as armas afiadas com que massacrará o inimigo. Quando sobrevoa a terra, as montanhas prestam-lhe homenagem e inclinam-se diante do seu poder. Certo dia, em que o monte Ebih lhe recusou essa homenagem, declarou-lhe guerra e precipitou-se sobre ele, estrangulou-o, cerrou os dentes no seu ventre, secou a terra, arrancou as árvores e fez desaparecer o monte sob fumos densos.

Contudo, a narrativa mais famosa sobre Inanna é a história do seu casamento com o pastor Dumuzi, que se tornou deus da Vegetação. Vários relatos sumérios, autênticas odes ao amor físico que podem ter inspirado o Cântico dos Cânticos, narram essas bodas divinas. Era para celebrar esse acontecimento que, todos os anos, no ano novo, o soberano «desposava» uma das sacerdotisas de Inanna durante alegres festividades. A fertilidade das terras e a fecundidade das fêmeas animais ficava assim assegurada nesse ano. Existem numerosos textos cuneiformes (a escrita suméria, gravada em tabuinhas de argila) que descrevem como o pastor Dumuzi foi elevado ao estatuto de rei e de deus graças ao seu matrimônio com Inanna.

O ciclo de poemas dedicado à deusa do Amor mostra o carácter erótico e, ao mesmo tempo, sagrado dessa união. O próprio Enki evoca os poderes misteriosos do Amor: «A Inanna, minha filha, concedo o dom da verdade, da descida aos Infernos, do regresso dos Infernos, da arte de fazer amor, do amor com o falo.» A deusa, submersa pelo desejo, «entoa um hino de louvor à sua vulva», descrevendo-a como um «terreno em pousio, bem irrigado», e dirigindo-se a Dumuzi: «Por mim, abre-me a vulva, por mim! Por mim, a jovem, quem será o seu lavrador?» O sexo de Dumuzi torna-se o próprio símbolo da fertilização do terreno em pousio.

Mas o amor profundo que une Inanna e Dumuzi está condenado a ser anulado pelo outro aspecto da personalidade da deusa, o orgulho, a ambição e o desejo de vingança. Inanna vai aos Infernos visitar a irmã Ereshkigal, que ela pretende destronar. Em primeiro lugar, segundo o ritual da passagem para o Além, tem de transpor as sete portas do inferno, despojando-se, em cada porta, de uma peça de roupa ou de uma joia. Em cada porta, faz a mesma pergunta e recebe sempre a mesma resposta: «Guardião, por que me despojas desta roupa? - Entre, senhora, estas são as ordens da rainha do Inferno.» Nua e impotente, é finalmente levada diante de Ereshkigal, que a prende no seu palácio e lhe lança 60 doenças que rapidamente lhe provocam a morte. A rainha dos Infernos pendura então o cadáver da irmã em um gancho.

Os grandes deuses, alarmados por verem a terra a fenecer, reúnem-se em conselho e pedem a Ereshkigal que deixe Inanna regressar à terra. A deusa aceita, na condição de que a irmã arranje alguém que queira ocupar o seu lugar nos Infernos. Inanna volta então à terra e começa a procurar quem aceite tomar o seu lugar. Quando encontra o marido Dumuzi a festejar alegremente à sombra das árvores em vez de estar a chorar o seu desaparecimento, fica furiosa e decide escolhê-lo. Dumuzi recusa energicamente e tenta fugir do exército dos gallu, os soldados de Ishtar, que ela lançou em sua perseguição. Com o auxílio de Shamash, Dumuzi muda cem vezes de aspecto, mas os gallu acabam por encurralá-lo na tapada da sua irmã Geshtinanna. Capturam Dumuzi e levam-no para os Infernos.

Pouco tempo depois, todos os protagonistas da estória começam a lamentar o desaparecimento de Dumuzi: a sua mãe Ninsun, a irmã Geshtinanna, deusa do Vinho, e a própria Inanna! Os deuses tomam então uma decisão excepcional: durante seis meses, Dumuzi ficará nos Infernos e, durante os outros seis meses, a sua irmã Geshtinanna, que se ofereceu como voluntária, tomará o seu lugar. É por isso que, todos os anos, durante seis meses, a terra seca e nada cresce. Durante os seis meses em que Dumuzi volta à terra e em que Geshtinanna ocupa o seu lugar nos Infernos, a vegetação volta a crescer. Este ciclo de morte invernal e de ressurreição primaveril evoca claramente os mitos de Deméter e Perséfone nos Gregos e de ísis e Osíris nos Egípcios.


Fontes: Templo de Apolo, GARDIN, Nanon. Os deuses da suméria e de Acádia. in: __________, História das Mitologias do mundo Heróis, divindades, narrativas. Lisboa/PT: Texto & Grafia, 2011. Cap. I, p. 23-25