Héracles / Hércules

05/08/2018

O mais popular de todos os heróis gregos, como atestam a constância e a freqüência de seus aparecimentos na tragédia e particularmente na comédia, foi o único celebrado por todos os Helenos. Seu culto abrangeu uma universalidade tal, que até mesmo uma cidade como Atenas, tão cônscia de suas peculiaridades, não só se vangloriava de haver precedido a todo o mundo grego em prestar honras divinas ao herói, mas também de lhe haver consagrado mais santuários do que ao herói ateniense Teseu.

Cabe, por conseguinte, a indagação: será Héracles um herói ou um deus? Desde que Sófocles o disse "o mais destemido dos homens" (áristos andrôn), ou como o apontaram, com ligeiras alterações sinonímicas, Eurípedes, Aristófanes, a qualidade de herói atribuída a Héracles não sofreu qualquer solução de continuidade. Afinal, não era o herói definido pelos gregos como um ser à parte, ferido de hýbris, excepcional, sobre-humano, consagrado pela morte?

Mas, se entre o homem, o ánthropos, e o herói, o anér, a diferença se mede pela timé e a areté, entre o herói e o deus existe aquele abismo insondável, lembrando por Apolo ao fogoso Diomedes na Ilíada, V 441-442: haverá sempre duas raças distintas, a dos deuses imortais e a dos homens mortais que marcham sobre a terra. Eis aí, portanto, o grande paradoxo de Héracles: enquanto filho de Zeus e Alcmena, apesar de tantas gestas gloriosas, teve que escalar o monte Eta para purgar tantos descomedimentos, inerentes "à sua condição de herói" e desvincular-se, nas chamas, do invólucro carnal; enquanto "iniciado", escala apoteoticamente o monte Olimpo e como renascido de Zeus e Hera, tornar-se imortal entre os Imortais, no júbilo dos festins.

(Héros theós), herói-deus, como diz Píndaro, Neméias, 3,22 Héracles se eternizou nos braços de Hebe, a Juventude eterna. 


Nascimento e vida de Hércules

Anfitrião, filho de Alceu, casara-se com sua prima Alcmena, filha de Eléctrion, rei de Micenas, mas tendo involuntariamente causado a morte de seu sogro e tio, foi banido por seu tio Estênelo, rei suserano de Argos, e de quem dependia o reino de Micenas. Expulso, pois, de Micenas, Anfitrião, em companhia da esposa, refugiou-se em Tebas, onde foi purificado pelo rei Creonte. Como Alcmena se recusasse a consumar o matrimônio, enquanto o marido não lhe vingasse os irmãos, mortos pelos filhos de Ptérela, Anfitrião, obtida a aliança dos tebanos e com contingentes provindos de várias regiões da Grécia, invadiu a ilha de Tafos, onde reinava Ptérela. Com a traição de Cometo, a vitória de Anfitrião foi esmagadora. Carregado de despojos, o filho de Alceu se aprestou para regressar a Tebas, com o objetivo de fazer Alcmena sua mulher.

Pois bem, foi durante a ausência de Anfitrião que Zeus, desejando dar ao mundo um herói como jamais houvera outro e que libertasse os homens de tantos monstros, escolheu a mais bela das habitantes de Tebas para ser mãe de criatura tão privilegiada. Sabedor, porém, da fidelidade absoluta da princesa micênica, travestiu-se de Anfitrião, trazendo-lhe inclusive de presente a taça de ouro por onde bebia o rei Ptérela e, para que nenhuma desconfiança pudesse ainda, porventura, existir no espírito da "esposa", narrou-lhe longamente os incidentes da campanha. Foram três noites de um amor ardente, porque, durante três dias, Apolo, por ordem do pai dos deuses e dos homens, deixou de percorrer o céu com seu carro de chamas.

Ao regressar, logo após a partida de Zeus, Anfitrião ficou muito surpreso com a acolhida tranqüila e serena da esposa e ela também muito se admirou de que o marido houvesse esquecido tão depressa a grande batalha de amor travada até a noite anterior em Tebas. Um duelo que fora mais longo que a batalha da ilha de Tafos! Mais espantado e, dessa feita, confuso e nervoso ficou o general tebano, quando, ao narrar-lhe os episódios da luta contra Ptérela, verificou que a esposa os conhecia tão bem ou melhor que ele. Consultado, o adivinho Tirésias revelou a ambos o glorioso adultério físico de Alcmena e o astucioso estratagema de Zeus. Afinal, a primeira noite de núpcias compete ao deus e é, por isso, que o primogênito nunca pertence aos pais, mas a seu Godfather. Mas Anfitrião, que esperara tanto tempo por sua lua de mel, se esquecera de tudo isto e, louco de raiva e de ciúmes, resolveu castigar Alcmena, queimando-a viva numa pira. Zeus, todavia, não o permitiu e fez descer do céu uma chuva repentina e abundante, que, de imediato, extinguiu as chamas da fogueira de Anfitrião. Diante de tão grande prodígio, o general desistiu de seu intento e acendeu outra fogueira, mas de amor, numa longa noite de ternura com a esposa.

Com tantas noites de amor, Alcmena concebeu dois filhos: um de Zeus, Héracles; outro de Anfitrião, Íficles. Acontece que Zeus, imprudentemente, deixara escapar que seu filho nascituro da linhagem dos persidas reinaria em Argos. De imediato, a ira e o ciúme de Hera, que jamais deixou em paz as amantes e os filhos adulterinos de seu esposo Zeus, começaram a manifestar-se. Ordenou a Ilítia, deusa dos partos, que retardasse o mais possível o nascimento de Héracles e apressasse o de Euristeu, primo de Alcides, porquanto era filho de Estênelo. Nascendo primeiro, o primo do filho de Alcmena seria automaticamente o herdeiro de Micenas. Foi assim que Euristeu veio ao mundo com sete meses e Héracles com dez! Este acontecimento é narrado minuciosamente na Ilíada, XIX, 97-134.

Fazia-se necessário, iniciar urgentemente a imortalidade do herói. Zeus arquitetou um estratagema, cuja execução, como sempre, ficou aos cuidados de Hermes: era preciso fazer o herói sugar, mesmo que fosse por instantes, o seio divino de Hera. O famoso Trimegisto conseguiu mais uma vez realizar uma façanha impossível: quando a deusa adormeceu, Hermes colocou o menino sobre os seios divinos da imortal esposa de Zeus. Hera despertou sobressaltada e repeliu Héracles com gesto tão brusco, que o leite divino espirrou no céu e formou a Via Láctea! Existe uma variante que narra o episódio de maneira diversa. Temerosa da "ira sempre lembrada da cruel Juno", como diria muito mais tarde Vergílio, Eneida, 1,4 com respeito ao ressentimento da deusa contra Enéias, Alcmena mandou expor o menino nos arredores de Argos, num local que, depois, se chamou "Planície de Héracles". Por ali passavam Hera e Atena e a deusa da inteligência, vendo o exposto, admirou-lhe a beleza e o vigor. Pegou a criança e entregou-a a Hera, solicitando-lhe desse o seio ao faminto. Héracles sugou o leite divino com tanta força, que feriu a deusa. Esta o lançou com violência para longe de si. Atena o recolheu e levou de volta a Alcmena, garantido-lhe que podia criar o filho sem temor algum. De qualquer forma, o vírus da imortalidade se inoculara no filho de Zeus e Alcmena. Mas o ódio de Hera sempre teve pernas compridas. Quando o herói contava apenas oito meses, a deusa enviou contra ele duas gigantescas serpentes. Íficles, apavorado, começou a gritar, mas Héracles, tranquilamente, se levantou do berço em que dormia, agarrou as duas víboras, uma em cada mão, e as matou por estrangulamento. Píndaro, nas Neméias, 1,33-63, disserta poética e longamente sobre a primeira grande gesta de Héracles. Anfitrião, que acorrera de espada em punho, ao ver o prodígio, acreditou, finalmente, na origem divina do "filho". E o velho Tirésias, mais uma vez explicou o destino, que aguardava o herói.

A educação de Héracles, projeção da que recebiam jovens gregos da época clássica, começou em casa. Seu primeiro grande mestre foi o general Anfitrião, que o adestrou na difícil arte de conduzir bigas. Lino foi seu primeiro professor de música e de letras, mas enquanto seu irmão e condiscípulo Íficles se comportava com atenção e docilidade, o herói já desde muito cedo dava mostra de sua indisciplina e descontrole. Num dia, chamado à atenção pelo grande músico, Héracles, num assomo de raiva, pegou um tamborete, outros dizem que uma lira, e deu-lhe uma pancada tão violenta, que o mestre foi acordar no Hades. Acusado de homicídio, o jovem defendeu-se, citando um conceito implacável juiz dos mortos, Radamanto, segundo o qual tinha-se o direito de matar o adversário, em caso de legítima defesa. Apesar da quando muito legítima defesa cerebrinamente putativa, Héracles foi absolvido. Em seguida, vieram outros preceptores: Eumolpo prosseguiu com o ensino da música; Êurito, rei de Ecália, que bem mais tarde terá um problema muito sério com o herói, ensinou-lhe o manejo do arco, arte em que teve igualmente por instrutor ao cita Têntaro e, por fim, Castor o exercitou no uso das demais armas. Héracles, porém, sempre se portou como um indisciplinado e temperamental incorrigível, a ponto de, temendo pela vida dos mestres, Anfitrião o mandou para o campo, com a missão de cuidar do rebanho.

Enquanto isso, o herói crescia desproporcionalmente. Aos dezoito anos, sua altura chegava a três metros! E foi exatamente aos dezoito anos que Héracles realizou sua primeira grande façanha, a caça e a morte do leão do monte Citerão. Este Animal, de porte fora do comum e de tanta ferocidade, estava causando grandes estragos nos rebanhos de Anfitrião e do rei Téspio, cujas terras eram vizinhas das de Tebas. Como nenhum caçador se atrevesse a enfrentar o monstro, Héracles se dispôs a fazê-lo, transferindo-se, temporariamente, para o reino de Téspio. A caçada ao leão durou cinquenta dias, porque, quando o sol se punha, o caçador retornava para dormir no palácio. Exatamente no Qüinquagésimo dia, o herói conseguiu sua primeira grande vitória. Acontece, porém que Téspio pai de cinquenta filhas, e desejando que cada uma tivesse um filho de Héracles, entregava-lhe uma por noite e foi assim que, durante cinquenta dias, o herói fecundou as cinquenta jovens, de que nasceram as tespíades.

Ao retornar do reino de Téspio, Héracles encontrou nas vizinhanças de Tebas os delegados do rei de Orcômeno, Ergino, que vinham cobrar o tributo anual de cem bois, que Tebas pagava a Orcômeno, como indenização de Guerra. Após ultrajá-los, o herói cortou-lhes as orelhas e o nariz e, pendurando-os ao pescoço de cada um, os enviou de volta, dizendo-lhes ser este o pagamento do tributo.

Indignado, Ergino, com um grande exército, marchou contra Tebas. Héracles desviou o curso de um rio e afogou na planície a cavalaria inimiga. Perseguiu, em seguida, a Ergino e o matou a flechadas. Antes de retirar-se com os soldados tebanos, impôs aos mínios de Orcômeno o dobro do tributo que lhes era pago por Tebas. Foi nesta guerra que morreu Anfitrião, lutando bravamente ao lado do filho.

O rei Creonte, grato por tudo quanto o filho de Alcmena fizera por Tebas, deu-lhe em casamento sua filha primogênita Mégara, enquanto a caçula se casava com Íficles, tendo este, para tanto, repudiado sua primeira esposa Automedusa, que lhe dera um filho, Iolau. De Héracles e Mégara nasceram oito filhos, segundo Píndaro; três, conforme Apolodoro; sete ou cinco, consoante outras versões. Não importa o número. Talvez o que faça pensar é a reflexão de Apolodoro de que Héracles somente foi pai de homens, como se de um macho quiçá só pudessem nascer machos.

Hera, porém, preparou tranquilamente a grande vingança. Como protetora dos amantes legítimos, não poderia perdoar ao marido seu derradeiro adultério, ao menos no mito, sobretudo quando Zeus tentou dar a essa união ilegítima com Alcmena o signo da legitimidade, fazendo o menino sugar o leite imortal da esposa.

Foi assim que, a deusa lançou contra Héracles a terrível (Lýssa), a raiva, o furor, que de mãos dadas com (ánoia), a demência, enlouqueceu por completo o herói. Num acesso de insânia, ei-lo matado a flechadas ou lançando ao fogo os próprios filhos. Terminado o morticínio dos seus, investiu contra os de Íficles, massacrando a dois. Sobraram dessa loucura penas Mégara e Iolau, salvos pela ação rápida de Íficles.

Recuperada a razão, o herói, após repudiar Mégara e entregá-la a seu sobrinho Iolau, dirigiu-se ao Oráculo de Delfos e pediu a Apolo que lhe indicasse os meios de purificar-se desse (akúsios phónos), desse "morticínio involuntário", mas mesmo assim considerado "crime hediondo" na mentalidade grega. A Pítia ordenou-lhe colocar-se ao serviço de seu primo Euristeu durante doze anos, ao que Apolo e Atena teriam acrescentado que, como prêmio de tamanha punição, o herói obteria a imortalidade.

Existem variantes acerca da submissão de Héracles a Euristeu, que, aliás, no mito é universalmente tido e havido como um poltrão, um covarde, um deformado física e moralmente. Incapaz, até mesmo, de encarar o herói frente a frente, mandava-lhe ordens através do arauto Copreu, filho de Pélops, refugiado em Micenas. Proibiu, por medo, que Héracles penetrasse no recinto da cidade e, por precaução, mandou fabricar um enorme jarro de bronze como supremo refúgio. E não foi preciso que o herói o atacasse, para que Euristeu "usasse o vaso". Mais de uma vez, o rei de Micenas se serviu do esconderijo, só à vista das presas e monstros que lhe eram trazidos pelo filho de Alcmena. Numa palavra: Euristeu, incapaz de realizar mesmo o possível, impôs ao herói o impossível, vale dizer, a execução dos célebres Doze Trabalhos.

Dizíamos, porém, que existem variantes, que explicam de outra maneira a submissão de Héracles ao rei de Micenas. Uma delas relata que Héracles, desejando retornar a Argos, dirigiu-se ao primo e este concordou, mas desde que aquele libertasse primeiro o Peloponeso e o mundo de determinados monstros. Uma outra, retomada pelo poeta da época alexandrina, Diotimo, apresenta Héracles como amante de Euristeu. Teria sido por mera complacência amorosa que o herói se submetera aos caprichos do amado, o que parece, aliás, uma ressonância tardia do discurso de Fedro no Banquete de Platão, 179.

As variantes apontadas e outras de que não vale a pena falar, bem como a "condição de imortalidade", sugerida ou imposta por Apolo e Atena, provêm simplesmente da reflexão do pensamento grego sobre o mito: a necessidade de justificar tantas provações por parte de um herói idealizado como o justo por excelência. Para as religiões de mistérios, na Hélade, os sofrimentos de Héracles configuram as provas por que tem que passar a pisqué, que se libera paulatina, mas progressivamente dos liames do cárcere do corpo.

Os Doze Trabalhos são pois, as provas a que o rei de Micenas, o covarde Euristeu, submeteu seu primo Héracles. Num plano simbólico, as doze provas configuram um vasto labirinto, cujos meandros, mergulhados nas trevas, o herói terá que percorrer até chegar à luz, onde, despindo a mortalidade, se revestirá do homem novo, recoberto com a indumentária da imortalidade.

Quanto ao número DOZE, trata-se de algo muito significativo. Para Jean Chevalier e Alain Gheergrant "é o número das divisões espaço-temporais, o produto dos quatro pontos cardeais pelos três níveis cósmicos. Divide o céu, visualizado como uma cúpula, em doze setores, os doze signos do zodíaco, mencionados desde a mais alta antiguidade. A combinação de dois números 12x5 origina os ciclos de 60 anos, quando se culminam os ciclos solar e lunar. Doze simboliza, pois, o universo em seu desenvolvimento cíclico espaço-temporal. Configura igualmente o universo em sua complexidade interna. O duodenário, que caracteriza o ano e o zodíaco, representa a multiplicação dos quatro elementos, água, ar, terra e fogo, pelos três princípios alguímicos, enxofre, sal e mercúrio, ou ainda os três estados de cada elemento em suas fases sucessivas: evolução, culminação e involução".

Os mitógrafos da época helenística montaram um catálogo dos Doze Trabalhos em duas séries de seis. Os seis primeiros tiveram por palco o Peloponeso e os seis outros se realizaram em partes diversas do mundo então conhecido, de Creta ao Hades. Advirta-se, porém, que á muitas variantes, não apenas em relação à ordem dos trabalhos, mas igualmente no que tange ao número dos mesmos. Apolodoro, por exemplo, só admitia dez.

Exceto a clava, que o próprio herói cortou e preparou de um tronco de oliveira selvagem, todas as suas demais armas foram presentes divinos: Hermes lhe deu a espada; Apolo, o arco e as flechas; Hefesto, uma couraça de bronze; Atena um périplo e Posídon ofereceu-lhe cavalos.


Os 12 trabalhos de Héracles / Hércules


O Leão de Nemeia - Neméia, nome de uma cidade e de um bosque na Argólida, foi o cenário do primeiro trabalho do herói. O leão de Neméia era um monstro de pele invulnerável, filho de Ortro, e este, filho de Tifão e Équidna, um outro monstro, sob forma de mulher-serpente. Esse Leão possuía uns irmãos célebres e terríveis: Cérbero, Hidra de Lerna, Quimera, Esfinge de Tebas... Criado pela deusa Hera ou à mesma emprestado pela deusa-lua "Selene", para provar Héracles, o monstro passava parte do dia escondido num bosque, perto de Neméia. Quando deixava o esconderijo, o fazia para devastar toda a região, devorando-lhe os habitantes e os rebanhos. Entocado numa caverna, com duas saídas, era quase impossível aproximar-se dele. O herói atacou-o a flechadas, mas em vão, pois o couro do leão era invulnerável. Astutamente, fechando uma das saídas, o filho de Zeus o tontetou a golpes de clava e agarrando-o com seus braços possantes, o sufocou. Com o couro do monstro o herói cobriu os próprios ombros e da cabeça do mesmo fez um capacete.

Quanto à pele, com que o herói cobriu os ombros, além da invulnerabilidade, possuía como toda pele de determinados animais um mana, uma enérgeia muito forte, simbolizando, desse modo, a "insígnia da combatividade vitoriosa" do filho de Alcmena.

O primeiro trabalho imposto a Héracles por Euristeu foi ir matar o leão de Neméia que infestava as cercanias da cidade. Tinha o animal monstruoso tamanho, e, sendo invulnerável, mister se fazia empregar a força dos braços para o domar. O herói, a princípio, esgotou a aljava, mas a pele do leão era impenetrável às setas. Héracles, em seguida, pretende pegar a maça, mas ela se despedaça contra os ossos do monstro. O leão, entretanto, foge para o seu antro. O herói segue-o: após tapar-lhe a entrada. Combate a fera corpo-a-corpo, e, apertando-lhe o pescoço com ambas as mãos, o estrangula. Envolve-se na pele que era imensa, e dela se serve, posteriormente, como de arma defensiva. O combate figura assaz freqüentemente nos vasos gregos de antigo estilo, e notadamente no Louvre, onde vemos Héracles realizar o feito na presença de Íolas e Atena. A mesma cena figura também em moedas e pedras gravadas.

O leão de Neméia era filho de Tifão e de Equidna. Após a morte, foi colocado entre as constelações.

Um quadro de Rubens, no museu de Berlim, representa Héracles estrangulando o leão de Neméia.


A Hidra de Lerna - A Hidra de Lerna é um monstro horripilante, gerado pela deusa Hera, para "provar" o grande Héracles. Criada sobre um plátano, junto da fonte Amimone, perto do Pântano de Lerna, na Argólida, a Hidra é figurada como uma serpente descomunal, de muitas cabeças, variando estas, segundo os autores, de cinco ou seis, até cem, e cujo hálito pestilento a tudo destruía: homens, colheitas e rebanhos. Para conseguir exterminar mais esse monstro, o herói contou com a ajuda preciosa de seu sobrinho Iolau, porque, à medida em que Héracles ia cortando as cabeças da Hidra, onde houvera uma, renasciam duas, Iolau pôs fogo a uma floresta vizinha, e com grandes tições ia cauterizando as feridas, impedindo, assim, o renascimento das cabeças cortadas. A cabeça do meio era imortal, mas o filho de Alcmena a decepou assim mesmo: enterrou-a e colocou-lhe por cima de um enorme rochedo. Antes de partir, Héracles embebedou suas flechas no veneno ou, segundo outros, no sangue da Hidra, envenenando-as.

A interpretação evemerista do mito é de que se trata de um rito aquático. A hidra com as cabeças, que renasciam, seria, na realidade. O pântano de Lerna, drenado pelo herói. As cabeças seriam as nascentes, que, enquanto não fossem estancadas, tornariam inútil qualquer drenagem.

A venenosa serpente aquática, dotada de muitas cabeças, é freqüentemente comparada com os deltas dos rios, com seus inúmeros braços, cheias e baixas. Consoante Paul Diel, a Hidra simboliza os vícios múltiplos, "tanto sob forma de aspiração imaginativamente exaltada, como de ambição banalmente ativa. vivendo nos pântano, a Hidra é mais especificamente caracterizada como símbolo dos vícios banais. Enquanto o monstro vive, enquanto a vaidade não é dominada, as cabeças, configuração dos vícios, renascem, mesmo que, por uma vitória passageira, se consiga cortar uma ou outra".

O Sangue da Hidra é uma veneno e nele o herói mergulhou suas flechas. Quando a peçonha se mistura às águas dos rios, os peixes não podem ser consumidos, o que confirma a interpretação simbólica: tudo quanto tem contato com os vícios, ou deles procede, se corrompe e corrompe.

Para o autor de Le Symbolisme dans la Mythologie Grecque, p. 208, "as múltiplas cabeças do monstro de corpo de serpente configuram os vícios múltiplos, nos quais se prolonga o 'corpo' da perversão, a vaidade. Vivendo num pântano, a Hidra é particularmente caracterizada como símbolo dos vícios banais. Enquanto o monstro viver, enquanto a vaidade. Vivendo num pântano, a Hidra é particularmente caracterizada como símbolo dos vícios banais. Enquanto o monstro viver, enquanto a vaidade não for dominada, as cabeças, símbolo dos vícios, renascerão, mesmo que, por uma vitória passageira, se consiga cortar uma ou outra. Para vencer o monstro, Héracles usa a espada, arma de combate espiritual, conjugada ao archote, que cauteriza as feridas, a fim de que, uma vez cortadas, as cabeças não mais possam renascer. O archote simboliza a purificação sublime".


Javali de Erimanto - Erimanto é uma escura montanha da Arcádia, onde se escondia um monstruoso javali, que Héracles deveria trazer vivo ao rei de Argos. Com gritos poderosos, o herói fê-lo sair do covil e, atraindo a besta-fera para uma caverna coberta de neve, o fatigou até que lhe foi possível segurá-lo pelo 

dorso e conduzi-lo ao primo. Ao ver o monstro, Euristeu, apavorado, escondeu-se no jarro de bronze, de que se falou mais acima.

O simbolismo do javali está diretamente relacionado com a tradição hiperbórea, com aquele nostálgico paraíso perdido, onde se localizaria a Ilha dos Bem-Aventurados. Nesse enfoque, segundo comentam J. Chevalier e Alain Gheerbrant, o javali configuraria o poder espiritual, em contraposição ao urso, símbolo do poder temporal. Assim concebida, a simbólica do javali estaria relacionada com o retiro solitário do druida nas florestas: nutre-se da glande do carvalho, árvore sagrada, e a javalina com seus nove filhotes escava a terra em torno da macieira, a árvore da imortalidade.

Héracles, apoderando-se do símbolo do poder espiritual, escala mais um degrau no rito iniciático


Corça de Cerínia - Essa corça de Cerinia, segundo Calímaco, Hino a Ártemis, 98sqq., era uma das cinco que Ártemis encontrou no monte Liceu. Quatro a deusa as atrelou em seu carro e a quinta a poderosa Hera a conduziu para o monte Cerinia, com o fito de servir a seus intentes contra Héracles. Consagrada à irmã gêmea de Apolo, esse animal, cujos pés eram de bronze e os cornos de ouro, trazia a marca do sagrado e, portanto, não podia ser morta. Mais pesada que um touro, se bem que rapidíssima, o herói, que deveria trazê-la viva a Euristeu, perseguiu-a durante um ano. Já exausto, o animal buscou refúgio no monte Artemísion, mas, sem lhe dar tréguas, Héracles continuou na caçada e, quando a corça tentou atravessar o rio Ládon, na Arcádia, ferindo-a levemente, Alcides logrou apoderar-se dela. Quando já se dirigia a Micenas, encontrou-se com Apolo e Ártemis. Estes tentaram tirar-lhe o animal, mas afirmando cumprir ordens de Euristeu, o filho de Alcmena conseguiu, por fim, prosseguir seu caminho.

Píndaro apresenta uma versão acentuadamente mística dessa longa perseguição. Consoante o poeta tebano, Olímpicas, 3,29sqq., Héracles teria seguido a corça em direção ao norte, através da Ístria, chegando ao país dos Hiperbóreos, onde, na Ilha dos Bem-Aventurados, foi benevolamente acolhido por Ártemis.

A interpretação pindárica é como que uma antecipação da única tarefa realmente importante do herói, sua liberação interior. Sua estupenda vitória, após um ano de tenaz perseguição, apossando-se da corça de cornos de ouro e pés de bronze, tendo chegado ao norte e ao céu eternamente azul dos Hiperbóreos,
configura a busca da sabedoria, tão difícil de se conseguir. A simbólica dos pés de bronze há que ser interpretada a partir do próprio metal. Enquanto sagrado, o bronze isola o animal do mundo profano, mas, enquanto pesado, o escraviza à terra.

Têm-se aí os dois aspectos fundamentais da interpretação: o diurno e o noturno dessa corça. Seu lado puro e virginal é bem acentuado, mas o "peso do metal" poderá pervertê-la, fazendo-a apegar-se a desejos grosseiros, que lhe impedem qualquer vôo mais alto.

Paul Diel vai um pouco mais longe na hermenêutica da corça dos pés de bronze: "A corça, como o cordeiro, simboliza uma qualidade do espírito, que se contrapõe à agressividade dominadora. Os pés de bronze, quando aplicados à sublimidade, configuram a força da alma. A imagem traduz a paciência e o esforço na consecução da delicadeza e da sensibilidade sublime, especificando, igualmente, que essa mesma sensibilidade representada pela corça, embora se oponha à violência, possui um vigor capaz de preservá-la de toda e qualquer fraqueza espiritual" que está bem configurada nos pés de bronze.

De outro lado, embora consagrada a Ártemis, a corça, no mito grego, é propriedade de Hera, deusa protetora do amor legítimo e do himeneu. Símbolo essencialmente feminino, o brilho de seus olhos é, muitas vezes, cotejado com a limpidez do olhar de uma jovem. O Cântico dos Cânticos usa o nome da corça numa fórmula de esconjuro, para preservar a tranqüilidade do amor:

"Eu vos conjuro, filhas de Jerusalém, pelas gazelas e corças do campo, que não perturbeis nem acordeis a minha amada, até que ela queira (2,7) ".


Aves do Lado de Estifalo - Numa espessa e escura floresta, às margens do lago de Estinfalo, na Arcádia, viviam centenas de aves de porte gigantesco, que devoravam os frutos da terra, em toda aquela região. Segundo outras fontes, eram antropófagas e liquidavam os passantes com suas penas aceradas, de que se serviam como de dardos mortíferos. A dificuldade consistia em fazê-las sair de seus escuros abrigos na floresta. Hefesto, a pedido de Atena, fabricou para o herói umas castanholas de bronze. Com o barulho ensurdecedor desses instrumentos, as aves levantaram vôo e foram mortas com flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna.

Uma interpretação evemerista do mito faz dessas aves filhas de um certo herói Estinfalo. Héracles as matou, porque lhe negaram hospitalidade, concedendo-a, logo depois, a seus inimigos, os moliônides, isto é, Ctéato e Êurito.

Com suas flechas certeiras, símbolo da espiritualização, Héracles liquidou as Aves do Lago de Estinfalo, cujo vôo obscurecia o sol. Como o pântano, o lago reflete a estagnação. As aves que dele levantam vôo simbolizam o impulso de desejos múltiplos e perversos. Saídos do inconsciente, onde se haviam estagnado, põem-se a esvoaçar e sua afetividade perversa acaba por ofuscar o espírito.

A vitória do filho de Alcmena é mais um triunfo sobre as "trevas".


Estábulos de Áugias - Rei de Élis, no Peloponeso, Augias, filho de Hélio, era dono de um imenso rebanho. Mas, tendo deixado de limpar seus estábulos durante trinta anos, provocou a esterilidade nas terras da Élida, por falta de estrume. Para humilhar o primo, Euristeu lhe ordenou que fosse limpá-los.

O herói, antes de iniciar sua tarefa, pediu a Augias, como salário, um décimo do rebanho, comprometendo-se a remover a montanha de estrume em um só dia. Julgando impossível a empresa, o rei concordou com a exigência feita. Tendo desviado para dentro dos estábulos o curso de dois rios, Alfeu e Peneu, a tarefa foi executada com precisão e espantosa rapidez. Augias, no entanto, deixou de cumprir a promessa e como o herói tomara por testemunha o jovem Fileu, o rei expulsou de seu reino ao filho de Alcmena.

Para se vingar, o herói reuniu um exército de voluntários da Arcádia e marchou contra Élis. Augias, tendo colocado à frente das tropas seus dois sobrinhos, Ctéato e Êurito, os moliônides, conseguiu repelir o ataque de Héracles, que, além do mais, quase perdeu seu irmão Íficles, que foi gravemente ferido em combate. Mais tarde, todavia, quando da celebração dos terceiros Jogos Ístmicos, como os habitantes de Élis tivessem enviado os moliônides para representá-los nos Agônes, o herói, como se comentou os matou numa emboscada. Não satisfeito, organizou uma segunda expedição contra a Élida: tomou a cidade de Elis, matou Augias e entregou o trono a Fileu, que, anteriormente, testemunhara a seu favor. Foi após essa vitoriosa campanha contra Augias, que Héracles fundou os Jogos Olímpicos, como recorda Píndaro, Olímpicas, 10,25sq.

Segundo Diel, os estábulos do rei Augias "configuram o inconsciente. A estrumeira representa a deformação banal. O herói faz passar as águas do Alfeu e Peneu através dos estábulos imundos, o que simboliza a purificação. Sendo o rio a imagem da vida que se escoa, seus acidentes sinuosos refletem os acontecimentos da vida "corrente" (...). Irrigar o estábulo com as águas de um rio significa purificar a alma, o inconsciente da estagnação banal, graças a uma atividade vivificante e sensata".

Estes seis primeiros Trabalhos de Héracles têm por cenário, já se mostrou linhas acima, em 3, a própria Hélade; os seis últimos, mais difíceis e penosos - afinal a iniciação é um progresso na dor - levarão o filho de Alcmena para outras paragens. Trata-se, no fundo, de um caminhar em direção a Thánatos, conforme se há de mostrar. 


Touro de Creta - Minos, rei de Creta, prometera sacrificar a Posídon tudo quanto de especial saísse do mar. O deus fez surgir das espumas um touro maravilhoso. Encantado com a beleza do animal, o rei mandou levá-lo para junto de seu rebanho e sacrificou a Posídon um outro. Irritado, o deus enfureceu o touro, que saiu pela ilha, fazendo terríveis devastações. Foi este animal feroz, que lançava chamas pelas narinas, que Euristeu ordenou a Héracles de trazer vivo para Micenas. Não podendo contar com o auxílio de Minos, que se recusou a ajudá-lo, o herói, segurando o monstro pelos chifres, conseguiu dominá-lo e, sobre o dorso do mesmo, regressou à Hélade. Euristeu o ofertou à deusa Hera, mas esta, nada querendo que proviesse de Héracles, o soltou. O animal percorreu a Argólida, atravessou o Istmo de Corinto e ganhou a Ática, refugiando-se em Maratona, onde Teseu, mais tarde, o capturou e sacrificou a Apolo Delfínio.

A vitória de Héracles sobre o Touro feroz, que lançava chamas pelas narinas, é o triunfo sobre a força bruta da tendência dominadora.

A cada trabalho o grande herói vai se aperfeiçoando e se encontrando...


Éguas de Diomedes - Diomedes, filho de Ares e Pirene, o cruel rei da Trácia, possuía quatro éguas, Podargo, Lâmpon, Xanto e Dino, que eram alimentadas com as carnes dos estrangeiros que as tempestades lançavam às costas da Trácia. Euristeu ordenou a Héracles de pôr termo a essa prática selvagem e trazer as éguas para Argos. O herói foi obrigado a lutar com Diomedes, que, vencido, foi lançado às suas próprias bestas antropófagas. Após devorarem o rei, as éguas estranhamente se acalmaram e foram, sem dificuldade alguma, conduzidas a Micenas. Euristeu as deixou em liberdade e as mesmas acabaram sendo devoradas pelas feras do monte Olimpo.

Foi durante a caminhada do herói em direção à Trácia que se passou o episódio da ressurreição de Alceste, tema de que se aproveitou Eurípides em sua tragédia homônima, que traduzimos para Bruno Buccini Editor, Rio de Janeiro, 1968. Quando Héracles passou pela Tessália, mais precisamente por sua capital, Feres, o luto se apossara do palácio real. É que o rei, Admeto, tendo sido sorteado pelas Queres para baixar ao Hades, conseguira, por intervenção de Apolo, que as Moiras o poupassem, até novo sorteio, se alguém se oferecesse para morrer em seu lugar. Acontece que a empresa não era fácil e até mesmo os pais de Admeto, já idosos, recusaram-se a fazer tão grande sacrifício pelo filho. Somente Alceste, sua esposa, apesar de jovem e bela, num gesto heróico, espontaneamente se prontificou a dar a vida pelo marido. Quando Admeto se preparava para solenemente celebrar as exéquias da esposa, eis que surge Héracles, pedindo-lhe hospitalidade. Não obstante a tristeza e o luto que pesavam sobre o palácio real, o rei de Feres acolheu dignamente o filho de Alcmena. Ao ser informado, um pouco mais tarde, do que se passava, Héracles, apelando para seus braços possantes, dirigiu-se apressadamente para o túmulo da rainha. E foi em um combate gigantesco que o grande herói levou de vencida a Thánatos, a Morte, arrancando de suas garras a esposa de Admeto, Alceste, mais jovem e mais bela que nunca.

Para Paul Diel, do ponto de vista simbólico, sendo as éguas, no relato em pauta, "símbolo da perversidade, as éguas antropófagas de Diomedes configuram a perversidade que devora o homem: a banalização, causa da morte da alma".


Cinturão da rainha Hipólita - Foi a pedido de Admeta, filha de Euristeu e sacerdotisa de Hera argiva, que Héracles, acompanhado por alguns voluntários, inclusive Teseu, seguiu para o fabuloso país das Amazonas, a fim de trazer para Admeta o famoso Cinturão de Hipólita, rainha dessas guerreiras indomáveis. Tal Cinturão havia sido dado a Hipólita pelo deus Ares, como símbolo do poder temporal que a Amazona exercia sobre seu povo. A viagem do herói teve um incidente mais ou menos sério. Tendo feito escala na ilha de Paros, dois de seus companheiros foram assassinados pelos filhos de Minos. É que Nefálion, um dos filhos do rei cretense com a ninfa Pária, havia se estabelecido na ilha supracitada com seus irmãos Eurimedonte, Crises e
Filolau e com dois sobrinhos, Alceu e Estênelo. Pois bem, foram esses filhos de Minos que, com seu gesto impensado, provocaram a ira de Héracles, que, após matar os quatro irmãos, ameaçou exterminar com todos os habitantes de Paros. Estes mandaram-lhe uma embaixada, implorando-lhe que escolhesse dois cidadãos quaisquer da ilha em substituição aos dois companheiros mortos. O herói aceitou e, tendo tomado consigo Alceu e Estênelo, prosseguiu viagem, chegando ao porto de Temiscira, pátria das Amazonas. Hipólita concordou em entregar-lhe o Cinturão, mas Hera, disfarçada em uma Amazona, suscitou grave querela entre os companheiros do herói e as habitantes de Temiscira. Pensando ter sido traído pela rainha, Héracles a matou. Uma variante relata que as hostilidades se iniciaram, quando da chegada de Alcides. Tendo sido feita prisioneira uma das amigas ou irmã de Hipólita, Melanipe, a rainha das Amazonas concluiu tréguas com o filho de Alcmena e concordou em entregar-lhe o Cinturão em troca da liberdade de Melanipe.
Foi no decorrer dessa luta, relata uma variante, que Teseu, por seu valor e desempenho, recebeu de Héracles, como recompensa, a Amazona Antíope.

No retorno dessa longa expedição, o herói e seus companheiros passaram por Tróia, que, no momento, estava assolada por uma grande peste. O motivo do
flagelo foi a recusa do rei Laomedonte em pagar a Apolo e a Posídon os serviços prestados por ambos na construção das muralhas de Ílion. Enquanto Apolo lançara a peste contra Tróada, Posídon fizera surgir do mar um monstro que lhe dizimava a população. Consultado o oráculo, este revelou que a peste só teria fim se o rei expusesse sua filha Hesíona para ser devorada pelo monstro. A jovem, presa a um rochedo, estava prestes a ser estraçalhada pelo dragão, quando Héracles chegou. O herói prometeu a Laomedonte salvar-lhe a filha, se recebesse em troca as éguas que Zeus lhe ofertara por ocasião do rapto de Ganimedes. O rei aceitou, feliz, a proposta do herói e este, de fato, matou o monstro e salvou Hesíona. Ao reclamar, todavia, a recompensa prometida, Laomedonte se recusou a cumpri-la. Ao partir de Tróia, Héracles jurou que um dia voltaria e tomaria a cidade. E o cumpriu, segundo se verá.

Para Paul Diel a vitória de Héracles sobre as Amazonas é extremamente significativa, porquanto se trata de "um símbolo representativo de um dos dois aspectos da escolha nefasta que concerne necessariamente quer à mulher muito dominadora, quer à muito banal. Ora, as Amazonas são simbolicamente
caracterizadas como mulheres assassinas de homens: no fundo, desejam substituí-los, rivalizar com os mesmos, opondo-se a eles, combatendo-os, ao invés de completá-los. Já que todo simbolismo se reporta à vida da alma, a Amazona, assassina da alma, é, indubitavelmente, a mulher que se opõe, de maneira doentia, histérica, à qualidade essencial, a única que interessa ao mito: o impulso espiritual. Esse antagonismo embota a força essencial, própria da mulher, a qualidade de amante e de mãe, o calor da alma. Existem, claro está, mulheres, cuja força espiritual ultrapassa a da maioria dos homens. A exclusividade da escolha só tem importância para o homem e a mulher dotados de qualidades que ultrapassam a norma e que, para se desenvolver, exigem a complementação; e o que o mito estigmatiza através do símbolo "Amazona" (o que a mulher neurótica realiza) é a ausência da virtude especificamente feminina e a predominância de uma rivalidade exaltada, puramente imaginativa, com a virtude masculina. O símbolo "Héracles, vencedor da rainha das Amazonas", exclui da história do herói, atraído pela banalização, o atrativo contagiante de um tipo feminino, que, normalmente, é perigoso para os heróis sentimentais".

Os Trabalhos de Héracles, tomados em bloco, configurariam a luta contra a banalização.

Paul Diel preocupou-se, todavia, apenas com o lado "amazônico" da excursão vitoriosa do herói, mas deixou de lado o motivo principal da viagem, a busca do Cinturão de Hipólita. Na realidade, o Cinturão, conforme nos mostram Chevalier e Gheerbrant, possui um simbolismo muito rico. Vamos tentar sintetizá-lo.

O cinturão ou simplesmente o cinto, atado em torno dos rins, por ocasião do nascimento, religa o um ao todo, ao mesmo tempo que liga o indivíduo. Toda a ambivalência de sua simbólica está resumida nestes dois verbos, ligar e religar.

Religando, o cinto dá maior segurança e tranqüilidade, reanima, transmite força e poder; ligando, acarreta, ao revés, a submissão, a dependência e, por conseguinte, a restrição, escolhida ou imposta, da liberdade. Materialização de um engajamento, de um juramento, de um voto feito, o cinto assume um valor iniciático, sacralizante e, materialmente falando, torna-se uma insígnia visível, as mais das vezes honrosa, que traduz a força e o poder de que está investido seu portador. Para não multiplicar os exemplos, é bastante observar as "faixas" dos judocas, de cores variadas e significativas, os cinturões, em que se penduram as armas e os inumeráveis cintos votivos, iniciáticos e de aparato, mencionados pelas tradições e ritos de todas as culturas.
Na Bíblia, o cinto é símbolo de uma união estreita, de um vínculo permanente, no duplo sentido de união na bênção e de tenacidade na maldição (Sl 108,18-19):

Vestiu-se de maldição como de veste,
e ela penetrou como água nas suas entranhas,
e como azeite nos seus ossos.
Que ela seja para ele o vestido com que se cobre, e como o cinto com que se cinge.

Os Judeus celebravam a Páscoa, consoante a ordem de Javé, com um cinto em torno dos rins, pois que o cinto, como está em Jr 13,1-11, é um elo precioso que une Javé a seu povo.

A composição simbólica do cinturão espelha a vocação de seu portador, configura a humildade ou o poder, designando sempre uma escolha e um exercício concreto dessa escolha. Quando Cristo diz a Pedro que, jovem, ele se cingia, mas um tempo viria em que outro o haveria de cingir (Jo 21,18), isto significa também  que Pedro podia outrora escolher seu destino, mas que, depois, ele compreenderia o apelo da vocação:

Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e ias aonde desejavas; mas quando fores velho, estenderás as tuas mãos, outro te cingirá e te levará para onde tu não queres. O cinto é igualmente apotropaico: protege contra os maus espíritos, como os "cinturões" de proteção em torno das cidades as defendem dos inimigos. Para Auber, citado por Chevalier e Gheerbrant, "cingir os rins nas caminhadas ou em toda e qualquer ação viva e espontânea significava para os antigos uma prova de energia e, por conseguinte, de desprezo pela frouxidão e indolência; era ainda um sinal de continência nos hábitos e de pureza no coração (...).

Para S. Gregório, cingir os rins era um símbolo de castidade". É nesse sentido que, ligado à continência, pode-se interpretar o cinto de couro ou corda, usado em certas ordens e congregações religiosas. Mas o símbolo não pára por aí, pois que os rins, consoante a Bíblia, configuram também não só o poder e a força, mas igualmente a justiça, como diz Isaías 11,5:

A justiça será o cinto dos seus lombos e a fé o talabarte de seus rins.

Símbolo de ligar e religar, símbolo de humildade e submissão, símbolo do poder e da justiça, mas igualmente do "poder castrador", símbolo da continência, o Cinturão de Hipólita passou do "poder castrador", para o poder de continência: deixou de ser visado por uma Amazona, para guarnecer os rins de Admeta, sacerdotisa de Hera.


Bois de Gerião - Quinto Horácio Flaco, numa Ode, 2,14,7sq., deveras melancólica, nos fala do tríplice Gerião, retido para sempre na água sinistra, que será, um dia, transposta por todos nós... Gerião, filho de Crisaor e, portanto, neto de Medusa, era um gigante monstruoso de três cabeças, que se localizavam em um corpo tríplice, mas somente até os quadris. Habitava a ilha de Eritia, situada nas brumas do Ocidente, muito além do imenso Oceano, Seu imenso rebanho de bois vermelhos era guardado pelo pastor Eurítion e pelo monstruoso cão Ortro, filho de Tifão e Équidna, não muito longe do local onde também Menetes pastoreava o rebanho de Plutão, o deus dos mortos. Foi por ordem de Euristeu que Héracles deveria se apossar do rebanho do Gigante e trazê-lo até Micenas. A primeira dificuldade séria era atravessar o Oceano. Para isso tomou por empréstimo a Taça do Sol. Tratava-se, na realidade, de uma Taça gigantesca, em que Hélio, o Sol, todos os dias, à noitinha, após mergulhar nas entranhas catárticas do Oceano, regressava a seu
palácio, no Oriente. A cessão da Taça por parte de Hélio não foi, entretanto, espontânea. O herói já caminhava, havia longo tempo, pelo extenso deserto da Líbia, e os raios do Sol eram tão quentes e o calor tão violento, que Héracles ameaçou varar o astro com suas flechas. Hélio, aterrorizado, emprestou-lhe sua Taça. Chegando à ilha de Eritia, defrontou-se, de saída, com o cão Ortro, que foi morto a golpes de clava.

Em seguida, foi a vez do pastor Eurítion. Gerião, posto a par do acontecido pelo pastor Menetes, entrou em luta com o herói, às margens do rio Ântemo, mas foi liquidado a flechadas. Terminadas as justas, embarcou o rebanho na Taça do Sol e reiniciou a longa e penosa viagem de volta, chegando primeiramente a Tartesso, cidade da Hispânia Bética, localizada na foz do rio Bétis. Foi durante todo esse tumultuado retorno à Grécia, que se passou a maioria das gestas extraordinárias, que são atribuídas ao filho de Zeus no Mediterrâneo ocidental. Já em sua viagem de ida libertara a Líbia de um sem-número de monstros e, em seguida, para lembrar sua passagem por Tartesso, ergueu duas colunas, de uma e de outra parte, que separa a Líbia da Europa, as chamadas Colunas de Héracles, isto é, o Rochedo de Gibraltar e o de Ceuta.

Em seu caminho de volta, foi diversas vezes atacado por bandidos, que lhe cobiçavam o rebanho. Tendo partido pelo Sul e pelas costas da Líbia, Héracles regressou pelo Norte, seguindo as costas da Espanha, e depois as da Gália, passando pela Itália e a Sicília, antes de penetrar na Hélade. Todo esse complicado itinerário do herói estava, outrora, juncado de Santuários a ele consagrados. A todos estavam vinculadas lendas e mitos locais, que mantinham, de certa forma, alguma relação com o episódio do Rebanho de Gerião.

Na Ligúria, foi atacado por um bando de aborígenes belicosos. Após grande carnificina, o herói, percebendo que não havia mais flechas em sua aljava e, como estivesse em grande perigo, invocou a seu pai Zeus, que fez chover pedras do céu e com estas pôs em fuga os inimigos. Ainda na Ligúria, dois filhos de Posídon, Ialébion e Dercino, tentaram tomar-lhe os bois, mas foram mortos após cruenta disputa.

Continuando seu caminho através da Etrúria, atingiu o Lácio, em cuja travessia, exatamente no local onde se ergueria a futura Roma, foi obrigado a matar o monstruoso e hediondo Caco, cujo mito é relatado pormenorizadamente por Evandro a Enéias (Eneida, 8,193-267). Após ser hospedado pelo rei Evandro, o herói prosseguiu viagem, mas em Régio, na Calábria, fugiu-lhe um touro, que atravessou a nado o estreito que separa a Itália da Sicília e foi, desse modo, que miticamente a Itália recebeu seu nome, pois que, em latim, uitülus significa "vitelo, vitela, bezerro". Héracles foi ao encalço do animal e, para reavê-lo, teve
que lutar e matar o rei Érix, deixando-lhe o reino entregue aos nativos, mas profetizando que, um dia, um seu descendente se apoderaria do mesmo. Isto realmente aconteceu, na época histórica, quando um "descendente" de Héracles, o Lacedemônio Dorieu, fundou uma colônia, na Sicília, na região dos Élimos.

Finalmente, o herói, com todas as cabeças de gado, encaminhou-se para a Grécia; mas ao tocar a margem helênica do Mar Jônio, o rebanho inteiro foi atacado por moscardos, enviados por Hera. Enlouquecidos, os animais se dispersaram pelos contrafortes das montanhas da Trácia. O herói os perseguiu e cercou por todos os lados, mas só conseguiu reunir uma parte. O rio Estrímon, que, por todos os meios, procurara dificultar essa penosa caçada ao rebanho disperso, foi amaldiçoado e é por isso que seu leito está coberto de rochedos, tornando-o impraticável à navegação.

Ao termo dessa acidentada "peregrinação iniciática", o infatigável filho de Alcmena entregou ao rei de Micenas o que sobrara do rebanho, que foi sacrificado a Hera.

Angelo Brelich observa argutamente que o roubo do rebanho e a disputa pelo mesmo têm um sentido religioso e social no mito, grandemente significativo.

Tem razão o autor, ao afirmar que os heróis raramente se dedicam ao furto de tesouros, como Trofônio e os seus, mas sim ao de rebanhos, assunto muito freqüente na mitologia heróica. Pausânias, 4,6,3sqq., viu bem a origem social do problema, ponderando que a riqueza "naqueles tempos" consistia antes do mais na
posse de grandes armentos. Diga-se, aliás, de caminho, que em latim pecunia, "dinheiro, riqueza", provém de pecu, "rebanho", donde peculium, "pecúlio", pequena parte do rebanho doada ao escravo, que guardava o armento; depois, pecúlio tomou um sentido mais lato de propriedade particular; de pecu se derivou igualmente, em latim, peculatus, concussão, "peculato", que seria, fugindo "em parte" aos moldes jurídicos, uma como que rapinagem do suor do rebanho-povo... Acrescente-se logo que se o latim grex, gregis possui também o sentido de "rebanho, manada", egregius, "egrégio, importante", é a "grei", a ovelha ou o
carneiro de escol, tirado do (e) rebanho (grex, gregis), como diz o gramático Sextus Pompeius Festus, De Verborum Significatione, "Acerca do significado das palavras", 21,20: unde et egregius dictus e grege lectus, "donde também egrégio se diz do que foi escolhido do rebanho (e grege)".

Voltemos, porém, à pilhagem e à disputa do rebanho, a grande fonte de riquezas, illo tempore. Vimos como Héracles, após furtar os bois de Gerião, foi assediado em todo o percurso de seu retorno à Hélade por outras personagens míticas, que tentam arrebatar-lhe o rebanho, como Ialébion e Dercino (Apol. 2,109), o monstruoso Caco e Érix. Grandes acontecimentos míticos, acrescenta Brelich, se relacionam com o rebanho, pouco importa que seja com o furto, a defesa ou com a vingança pelo roubo do mesmo. Hesíodo, Trabalhos e Dias, 161-163, falando dos heróis criados por Zeus, acrescenta que, na Guerra Tebana, muitos deles "pereceram, lutando em defesa dos rebanhos de Édipo". O litígio entre Anfitrião e Ptérela, segundo se viu, teve por causa o roubo do rebanho de Eléctrion.

O furto de rebanhos, no entanto, se prende igualmente a um motivo de caráter religioso: o casamento. O cometimento central de Melampo em furtar os bois de Fílaco e do filho deste último, Íficlo, era possibilitar que seu próprio irmão Bias obtivesse a mão de Pero, filha de Neleu, em troca do rebanho furtado (Od.
XI, 281sqq.). A exigência de um rebanho como preço da mão de uma jovem aparece igualmente no mito de Ifídamas.

É preciso levar em conta, entretanto, que o rapto de mulheres e o furto de rebanhos, fatos em si mesmos reprováveis e reprovados pela sensibilidade moderna e certamente pelo classicismo grego, eram empreendimentos comuns e normais naquela época de formação dos mitos e espelhavam o hábito real de uma sociedade arcaica de guerreiros nômades. Desse modo, pode-se acreditar que esses roubos e raptos se constituíam, ao contrário, em gestas extraordinárias e dignas de um herói.

No que diz respeito ao simbolismo dessa exaustiva tarefa do herói, Paul Diel julga que a morte de Gerião, o gigante de três corpos, configura a vitória de Héracles sobre o índice de três formas de perversidade: a vaidade banal, a devassidão e a dominação despótica.


Busca do cão Cérbero - O décimo primeiro Trabalho imposto por Euristeu ao primo foi a (katábasis), a "catábase" ao mundo dos mortos, para de lá trazer Cérbero, cão de três cabeças, cauda de dragão, pescoço e dorso eriçados de serpentes, guardião inexorável do reino de Hades e Perséfone. Impedia que lá penetrassem os vivos e, quando isto acontecia, não lhes permitia a saída, a não ser com ordem expressa de Hades.

Jamais Héracles, como Psiqué, teria podido realizar semelhante proeza, se não tivesse contado, por ordem de Zeus, com o auxílio de Hermes e Atena, quer dizer, com o concurso do que não erra o caminho e da que ilumina as trevas. Pessoalmente, o herói se preparou, fazendo-se iniciar nos Mistérios de Elêusis, que, entre outras coisas, ensinavam como se chegar com segurança à outra vida. Segundo a tradição mais seguida, o herói desceu pelo cabo Tênaro, na Lacônia, uma das entradas clássicas que dava acesso direto ao mundo dos mortos.

Vendo-o chegar ao Hades, os mortos fugiram espavoridos, permanecendo onde estavam apenas Medusa e Meléagro. Contra a primeira o herói puxou a espada, mas Hermes o advertiu de que se tratava apenas de um eídolon, de uma sombra vã; contra o segundo, Héracles retesou seu arco, mas o desventurado Meléagro contou-lhe de maneira tão comovente seus derradeiros momentos na terra, que o filho de Alcmena se emocionou até as lágrimas: poupou-lhe o eídolon e ainda prometeu que, no retorno, lhe desposaria a irmã Dejanira.

Mais adiante, encontrou Pirítoo e Teseu, vivos, mas presos às cadeiras, em que se haviam sentado no banquete fatal. Um pouco mais à frente deparou com Ascáfalo e resolveu libertá-lo. Esse Ascáfalo, filho de uma ninfa do rio Estige e de Aqueronte, estava presente no jardim do Hades, quando Perséfone, coagida por Hades, comeu um grão de romã, o que lhe impedia a saída do mundo ctônio. Tendo-a denunciado, o filho de Aqueronte foi castigado por Deméter, que o transformou em coruja.

Existe, porém, uma variante: para castigar a indiscrição de Ascáfalo, a senhora de Elêusis colocara sobre ele um imenso rochedo. Foi dessa tormenta que o herói o libertou, embora a deusa tenha, em contrapartida, substituído um castigo por outro, transformando-o em coruja.

Héracles não foi só o maior dos heróis, mas igualmente o mais humano de todos eles. Mais uma vez o encontramos penalizado com a sorte alheia: vendo que no Hades os mortos eram apenas eídola, fantasmas abúlicos, resolveu "reanimá-los", mesmo que fosse por alguns instantes. Para tanto, tendo que fazer
libações sangrentas aos mortos, imaginou sacrificar algumas reses do rebanho de Hades. Como o pastor Menetes quisesse impedi-lo até mesmo de se aproximar dos animais, o herói o apertou em seus braços possantes, quebrando-lhe várias costelas. Não fora a pronta intervenção de Perséfone, Menetes iria aumentar, mais cedo, o número dos abúlicos do Hades.

Finalmente Héracles chegou diante de Hades e, sem mais, pediu-lhe para levar Cérbero para Micenas. Hades concordou, desde que o herói não usasse contra o monstro de suas armas convencionais, mas o capturasse sem feri-lo, revestido apenas de sua couraça e da pele do Leão de Neméia. Héracles agarrou-se com Cérbero e, quase sufocado, o guardião do reino dos mortos perdeu as forças e aquietou-se. Subindo com sua presa, passou por Trezena e dirigiu-se rapidamente para Micenas. Vendo Cérbero, Euristeu refugiou-se em sua indefectível talha de bronze. Não sabendo o que fazer com o monstro infernal, Héracles o levou de volta a Hades.

A respeito da (katábasis), da "descida" de Héracles ao Hades, sabe-se que esta configura o supremo rito iniciático: a catábase, a morte simbólica, é a condição indispensável para uma anábase, uma "subida", uma escalada definitiva na busca da (anagnórisis), do autoconhecimento, da transformação do que resta do homem velho no homem novo. A esse respeito escreveu acertadamente Luc Benoist: "A viagem subterrânea, durante a qual os encontros com os monstros míticos configuram as provações de um processo iniciático, era, na realidade, um reconhecimento de si mesmo, uma rejeição dos resíduos psíquicos inibidores, um 'despejamento dos metais', uma 'dissolução das cascas', consoante a inscrição gravada no pórtico do templo de Delfos: 'Conhece-te a ti mesmo'".


Pomos de ouro do Jardim das Espérides - Quando do hieròs gámos, do casamento sagrado de Zeus e Hera, esta recebeu de Géia, como presente de núpcias, algumas maçãs de ouro. A esposa de Zeus as achou tão belas, que as fez plantar em seu Jardim, no extremo Ocidente. E, como as filhas de Atlas, que ali perto sustentava em seus ombros a abóbada celeste, costumavam pilhar o Jardim, a deusa colocou os pomos e a árvore em que estavam engastados, sob severa vigilância. Um dragão imortal, de cem cabeças, filho de Tifão e Équidna, e as três ninfas do Poente, as Hespérides, Egle, Eritia e Hesperaretusa, isto é, a "brilhante, a vermelha e a Aretusa do poente", exatamente o que acontece com as três colorações do céu, quando o sol vai desaparecendo no ocidente, guardavam, dia e noite, a árvore e seus pomos de ouro. A derradeira tarefa do herói incansável consistia, exatamente, em trazê-los a Euristeu. O primeiro cuidado de Alcides foi pôr-se a par do caminho a seguir para chegar ao Jardim das Hespérides e, para tanto, tomou a direção do Norte.

Atravessando a Macedônia, foi desafiado por Cicno, filho de Ares e Pelopia, uma das filhas de Pélias. Violento e sanguinário, assaltava sobretudo os peregrinos, que se dirigiam ao Oráculo de Delfos. Após assassiná-los, oferecia-lhes os despojos a seu pai Ares. Em rápido combate o herói o matou, mas teve que defrontar-se com o próprio deus, que pretendia vingar o filho. Atená desviou-lhe o dardo mortal, e o herói,
então, o feriu na coxa, obrigando Ares a fugir para o Olimpo.

Depois, através da Ilíria, alcançou as margens do Erídano (rio Pó) e aí encontrou as ninfas do rio, filhas de Zeus e Têmis, as quais viviam numa gruta. Interrogadas por Héracles, elas lhe revelaram que somente Nereu era capaz de informar com precisão como chegar ao Jardim das Hespérides. Nereu, para não indicar o itinerário, transformou-se de todas as maneiras, mas o filho de Zeus o segurou com tanta força, que o deus das metamorfoses acabou por revelar a localização da Árvore das Maçãs de Ouro. Das ondas do mar, residência de Nereu, o herói chegou à Líbia, onde lutou com o gigante Anteu, filho de Posídon e de Géia. De uma força prodigiosa, obrigava a todos os que passavam pelo deserto líbico a lutarem com ele e invariavelmente os vencia e matava. Héracles, percebendo que seu competidor, quando estava prestes a ser vencido, apoiava firmemente os pés na Terra, sua mãe, e dela recebia energias redobradas, deteve-o no ar e o sufocou. Tomou por esposa, em seguida, a mulher da vítima, Ifínoe, e deu-lhe um filho, chamado Palêmon.
Para vingar seu amigo Anteu, os Pigmeus, que habitavam os confins da Líbia e não tinham mais que um palmo de altura, tentaram matar Héracles, enquanto este dormia. O herói, tendo acordado, pôs-se a rir. Pegou os "inimigos" com uma só das mãos e os levou para Euristeu.

Atravessando o Egito, Héracles quase foi sacrificado por Busíris, tido na mitologia grega como o rei do Egito, mas seu nome não aparece em nenhuma das dinastias faraônicas. Seria Busíris uma corruptela de Osíris?
Acontece que a fome ameaçava o Egito, pelas más colheitas consecutivas e um adivinho de Chipre, Frásio, aconselhou o rei a sacrificar anualmente um estrangeiro a Zeus, para apaziguar-lhe a cólera e fazer que retornasse a prosperidade ao país. A primeira vítima foi exatamente Frásio. Héracles, logo que lá chegou, o rei o prendeu, enfaixou-o, o coroou de flores (como se fazia com as vítimas) e o levou para o altar dos sacrifícios. O herói, todavia, desfez os laços, matou Busíris e a todos os seus assistentes e sacerdotes. Do Egito passou à Ásia e na travessia da Arábia viu-se forçado a lutar com Emátion, filho de Eos (Aurora) e de Titono e, portanto, um irmão de Mêmnon. Emátion quis barrar-lhe o caminho que levava ao Jardim das Hespérides, porque não desejava que Héracles colhesse os Pomos de Ouro. Após matá-lo, o herói entregou o reino a Mêmnon e atravessou, em seguida, a Líbia até o "Mar Exterior"; embarcou na Taça do Sol e chegou à margem oposta, junto ao Cáucaso. Escalando-o, libertou Prometeu. Como sinal de gratidão, o "deus filantropo" aconselhou-o a não colher ele próprio as Maçãs, mas que o fizesse por intermédio de Atlas.

Continuando o roteiro, Héracles chegou ao extremo ocidente e, de imediato, procurou Atlas, que segurava a abóbada celeste sobre os ombros. Héracles ofereceu-se para sustentar o Céu, enquanto aquele fosse buscar As Maçãs. O gigante concordou prazerosamente, mas, ao retornar, disse ao filho de Zeus que iria pessoalmente levar os frutos preciosos a Euristeu. Héracles fingiu concordar e pediu-lhe apenas que o substituísse por um momento, para que pudesse colocar uma almofada sobre os ombros. Atlas nem sequer desconfiou. O herói, então, tranqüilamente, pegou as Maçãs de Ouro e retornou a Micenas. De posse das Maçãs, Euristeu ficou sem saber o que fazer com elas e as devolveu a Héracles. Este as deu de presente a Atena, a deusa da Sabedoria. A deusa repôs as Maçãs de Ouro no Jardim das Hespérides, porque a lei divina proibia que esses frutos permanecessem em outro lugar, a não ser no Jardim dos Deuses.

Fechara-se o Ciclo. A gnôsis estava adquirida. E Héracles quase pronto para morrer. Agora sim, já podia chamar-se Héracles, isto é, em etimologia popular, Héra + Kléos, "a glória de Hera"...

Para Chevalier e Gheerbrant, a maçã é realmente apreciada sob vários enfoques diferentes, "mas todos eles acabam convergindo para um ponto comum, quer se trate do Pomo da Discórdia, outorgado a Afrodite por Páris; dos Pomos de Ouro do Jardim das Hespérides, frutos da imortalidade; quer do Pomo consumido por Adão e Eva ou do Pomo do Cântico dos Cânticos, que traduz, ensina Orígenes, a fecundidade do Verbo divino, seu sabor e seu odor. Trata-se, em quaisquer circunstâncias, da maçã como símbolo ou meio de conhecimento, mas que pode ser tanto o fruto da Árvore da Vida quanto o fruto da árvore da Ciência do bem e do mal: conhecimento unitivo, que confere a imortalidade, ou conhecimento distintivo, que provoca a queda".

E. Bertrand, citado pelos autores do Dictionnaire des Symboles, opina que "o simbolismo da maçã lhe advém do fato de a mesma conter em seu interior, formado por alvéolos, que envolvem as sementes, uma estrela de cinco pontas, um pentagrama, símbolo tradicional da sabedoria. Eis aí o motivo pelo qual os iniciados fizeram do pomo o fruto do conhecimento e da liberdade. E, portanto, comer a maçã significa para eles um abuso da inteligência para conhecer o mal, um insulto à sensibilidade por desejá-lo e à liberdade, por fazê-lo.

O encasulamento do pentagrama, símbolo do homem-espírito, no interior das carnes da maçã, configura, além do mais, a involução do espírito na matéria carnal".

Alexandre Magno, buscando a Água da Vida, na Índia, encontrou maçãs que prolongavam a vida dos sacerdotes por quatrocentos anos. "Na mitologia escandinava a maça é tida como o fruto regenerador e rejuvenescedor. Os deuses comem maçãs e permanecem jovens até o ragna rök, vale dizer, até o fecho do ciclo cósmico atual".

Para Paul Diel, a maçã, por sua forma esférica, significaria, no seu todo, os desejos terrestres ou a complacência nesses desejos. O interdito de Javé teria como objetivo admoestar o homem contra a predominância desses anseios, que o arrastariam para uma vida animal, por uma espécie de regressão, contraponto da vida espiritualizada, sinal, esta sim, de uma evolução progressiva. Semelhante advertência divina faria com que o homem tomasse conhecimento dessas duas direções: a escolha entre a via dos desejos materiais e a da espiritualidade. A maçã seria, pois, o símbolo desse conhecimento e a opção de uma necessidade, a necessidade de escolha.

A escolha de Héracles foi clara: optou pela via do espírito, preparando-se, destarte, para escalar o último degrau, que o levaria aos braços de Hebe, a Juventude perpétua. O herói, mesmo assim, ainda teria que esperar um pouco. O último degrau é sempre o mais difícil. Os sofrimentos em terra e no mar e, por fim, as chamas no monte Eta, lhe dariam o direito de brindar com Zeus à imortalidade!


Os trabalhos secundários de Heracles

Até o momento, como se pôde observar, apesar de nossos esforços em imprimir uma certa ordem na vida atribulada e nas gestas, por vezes, bastante desconexas do herói, tivemos que fazer concessão ao "mito", e à sua intemporalidade, antecipando aventuras e adiando outras. Felizmente, a partir do ciclo da morte e da apoteose, o mitologema do filho de Alcmena segue em linha mais ou menos reta, partindo de Dejanira, passando por Íole e Ônfale, e terminando nos braços da divina Hebe. É esse itinerário de liberação do inconsciente castrador materno e do encontro da anima que vamos perseguir. Diga-se, a bem da verdade, que esse cosimento do mito e de suas inúmeras variantes se deve, antes do mais, aos poetas trágicos que, coagidos a imitar "uma ação séria e completa, dotada de extensão" e com duração de "um período do sol" (Arist. Poética, 1449b), souberam dar unidade ao extenso drama final do herói.

Pois bem, o fio condutor desse drama é Dejanira e a tragédia, que elaborou a síntese, foi escrita por Sófocles, Traquínias, infelizmente pouco citada pelos que se dedicam ao Teatro Grego.

O casamento com Dejanira, viu-se na catábase do herói em Busca do Cão Cérbero, foi acertado entre Héracles e Meléagro. A séria dificuldade para obter a mão da princesa, isto é, a luta com o rio Aquelôo. Após as núpcias, Héracles permaneceu com a esposa por algum tempo na corte de seu sogro Eneu. Perseguido, todavia, pela fatalidade, matou involuntariamente ao pequeno copeiro real, Êunomo, filho de Arquíteles, parente de Eneu. Embora aquele tivesse perdoado ao herói a morte do filho, Héracles não mais quis ficar em Cálidon e partiu com Dejanira e com o filho Hilo, ainda muito novinho. Foi durante essa viagem em direção ao exílio em Tráquis, porque, segundo uma variante, o filho de Zeus fora expulso do reino de Eneu, que o herói travou uma terceira e derradeira luta com Nesso. Esse Centauro habitava as margens do rio Eveno e exercia o ofício de barqueiro

Apresentando-se Héracles com a família, primeiramente o lascivo Centauro o conduziu para a outra margem, e, em seguida, voltou para buscar Dejanira. No meio do trajeto, como se recordasse de uma grave injúria de Héracles, tentou, para vingar-se, violar Dejanira que, desesperada, gritou por socorro. O herói aguardou tranqüilamente que o barqueiro alcançasse terra firme e varou-lhe o coração com uma de suas flechas envenenadas com o sangue da Hidra de Lerna. Nesso tombou e, já expirando, entregou a Dejanira sua túnica manchada com o sangue envenenado da flecha e com o esperma que ejaculara durante a tentativa de violação. Explicando-lhe que a túnica seria para ela um precioso talismã, um filtro poderoso, com a força e a virtude de restituir-lhe o esposo, caso este, algum dia, tentasse abandoná-la.

Com a esposa e o filho chegou finalmente a Tráquis, na Tessália, onde reinava Ceix, sobrinho de Anfitrião. Foi durante sua permanência na corte de seu "primo" Cêix que o herói teve que enfrentar um sério dissabor. Como Êurito, rei de Ecália, "o mais hábil dos mortais no arco", tivesse desafiado a Grécia inteira, prometendo a mão de sua filha Íole a quem o vencesse (veja-se nisso a disputa da mão da princesa), Héracles resolveu competir com seu ex-mestre no manejo do arco e o venceu. Não tendo o rei cumprido a promessa, porque, pessoalmente, ou por conselho de todos os filhos, exceto Ífito, temesse que o herói viesse novamente a enlouquecer e matasse a Íole e os filhos que dela tivesse, Héracles resolveu, como sempre, vingar-se.

A respeito dessa guerra de Héracles contra Êurito há várias versões e variantes. Vamos seguir aquela que nos parece mais lógica. Face, pois, à recusa do rei de Ecália, o herói invadiu a cidade e incendiou-a, após matar Êurito e seus filhos, com exclusão de Ífito e Íole, de quem fez sua concubina. Ífito, que herdara o famoso arco paterno, presente de Apolo a seu pai, partira para Messena, onde, na corte do rei Orsíloco, tendo se encontrado com Ulisses, resolveram ambos, como penhor de amizade, trocar as armas: o esposo de Penélope presenteou Ífito com sua espada e lança e este deu a Ulisses o arco divino com o qual, diga-se logo, o herói da Odisséia matará, "bem mais tarde", os pretendentes.

Quando Ulisses encontrou Ífito na cidade de Messena, este andava à procura de um rebanho de éguas ou de bois, que Héracles havia furtado ou, segundo outra versão, que o avô de Ulisses, Autólico, o maior de todos os ladrões da mitologia heróica, havia roubado e confiado a Héracles. Este, interrogado por Ífito, não só se recusou a entregar o rebanho, mas ainda o assassinou. Relata uma outra variante que Héracles era apenas suspeito do roubo e que Ífito o procurara para pedir-lhe ajuda na busca do armento.

Recuperada a razão, o herói dirigiu-se a Delfos e perguntou à Pítia como poderia, dessa feita, purificar-se. Esta simplesmente se recusou a responder-lhe. Ferido de hýbris, o filho de Alcmena ameaçou saquear o santuário e, para provar que não estava gracejando, apossou-se da trípode sagrada, sobre que se sentava a Pitonisa, e disse-lhe que iria fundar em outro local um oráculo novo, a ele pertencente. Apolo veio imediatamente em defesa de sua sacerdotisa e travou-se uma luta perigosa entre os dois. Zeus interveio e os separou com seu raio. Héracles devolveu a trípode, mas a Pítia viu-se coagida a dar-lhe a "penitência" pela morte de Ífito e outras "faltas" ainda não purgadas. Para ser definitivamente purificado, deveria vender-se como escravo e servir a seu senhor por três anos; o dinheiro apurado com a transação seria entregue à família de Ífito como preço de sangue. Comprou-o a rainha da Lídia, Ônfale, por três talentos de ouro.

Durante todo esse tempo, Dejanira permaneceu em Tráquis e o herói levou Íole como sua concubina.

A respeito da nova senhora de Héracles existem duas versões. Originariamente, o mito de Ônfale parece localizar-se na Grécia, mais precisamente no Epiro, onde ela aparece como epônima da cidade de Onfálion. Muito cedo, porém, o mito foi deslocado para a Lídia, onde se revestiu de opulenta e pitoresca indumentária oriental, ampla e sofregamente explorada pelos poetas e artistas da época helenística. Com deslocamento igualmente de um nome próprio grego, a lindíssima Ônfale passou a ser filha de Iárdano, rei da Lídia. Segundo outros autores, a princesa seria filha ou viúva do rei Tmolo, que lhe deixara o reino. Sabedora das proezas de seu escravo, impôs-lhe, basicamente, quatro trabalhos, que consistiam em limpar-lhe o reino de malfeitores e de monstros. O primeiro deles foi contra os Cercopes, coletivo para designar dois facínoras que impestavam a Lídia, Euríbates e Frinondas, também chamados Silo e Tribalo, filhos de Téia, uma das filhas de Oceano. Téia, aliás, que lhes apoiava o banditismo, mais de uma vez, os pôs de sobreaviso contra um certo herói, chamado (Melampygos), "Melampigo", isto é, "de nádegas escuras", vale dizer, com as nádegas cobertas de pêlos negros, que, para os antigos gregos, era um sinal de força. Altíssimos e de uma força descomunal, assaltavam os viajantes e, em seguida, os matavam. Um dia em que Héracles dormia à beira de uma estrada, os Cercopes tentaram acometê-lo, mas o herói despertou e após dominar os filhos de Téia, os amarrou de pés e mãos e prendeu cada um deles na ponta de um longo varal. Colocou o pesado fardo sobre os ombros, como se fazia com os animais que se levavam ao mercado e encaminhou-se para o palácio de Ônfale. Foi, nessa posição, que Silo e Tribalo, vendo as nádegas de Héracles, compreenderam a profecia de sua mãe e pensaram num meio de libertar-se. Descarregaram sobre o herói uma saraivada tão grande de chistes e graçolas apimentadas, que Héracles, coisa que há muito não experimentava, foi tomado de um incrível bom humor e resolveu soltá-los, sob a promessa de não mais assaltarem e matarem os transeuntes.

O juramento, entretanto, não durou muito e os Cercopes voltaram à sua vida de pilhagem e assassinatos. Irritado, Zeus os transformou em macacos e levou-os para duas ilhas que fecham a baía de Nápoles, Próscia e Ísquia. Seus descendentes aí permaneceram e, por isso, na antigüidade essas duas ilhas eram denominadas Pithecüsae, "Ilha dos Macacos".

A segunda tarefa consistia em libertar a Lídia do cruel Sileu, filho de Posídon. Sileu era um vinhateiro, que obrigava os transeuntes a trabalhar de sol a sol em suas videiras e, como pagamento, os matava. Héracles colocou-se a seu serviço, mas, em vez de cultivar as videiras, arrancou-as a todas e se entregou a todos os excessos. Terminada a faina, matou Sileu com um golpe de enxada.

Segundo a tradição, Sileu possuía um irmão, chamado Diceu, o Justo, cujo caráter correspondia ao significado de seu nome. Após a morte do vinhateiro, o herói hospedou-se na casa de Diceu, que criara e educara uma sobrinha muito bonita, filha de Sileu. Enfeitiçado pela beleza da moça, o herói a desposou. Tendo se ausentado por algum tempo, a jovem esposa, não suportando as saudades do marido e, julgando que ele não mais voltaria, morreu de amor.

Regressando, o herói, desesperado, quis atirar-se a qualquer custo na pira funerária da mulher, sendo necessário um esforço sobre-humano para dissuadi-lo de tão tresloucado gesto.

O terceiro trabalho imposto pela soberana da Lídia tinha por alvo a Litierses, filho de Midas, e denominado o Ceifeiro maldito.

Hospedava gentilmente todo e qualquer estrangeiro que passasse por suas terras e, no dia seguinte, convidava-o a segar o trigo em sua companhia. Se recusasse, cortava-lhe a cabeça. Se aceitasse, tinha que competir com ele, que saía sempre vencedor e igualmente decapitava o parceiro, escondendo-lhe o corpo em uma paveia.

Héracles aceitou-lhe o desafio e tendo-o vencido e mitigado com uma canção, o matou. Uma variante ensina que o herói resolveu matar Litierses, porque este mantinha por escravo a Dáfnis, que percorria o mundo em busca de sua amante Pimpléia, raptada pelos piratas. Ora, como Litierses a houvesse comprado, iria fatalmente matar ao pastor Dáfnis, não fora a intervenção do herói, que, além do mais, após a morte do Ceifador maldito, entregou-lhe todos os bens a Dáfnis e Pimpléia.

A quarta e última tarefa consistia em livrar a Lídia dos Itoneus, que constantemente saqueavam o reino. Héracles moveu-lhes guerra sangrenta. Apoderou-se de Itona, a cidade que lhes servia de refúgio; após destruí-la, trouxe todos os sobreviventes como escravos.

Face a tanta coragem, pasma com gestas tão gloriosas e vitórias tão contundentes, Ônfale mandou investigar as origens do herói. Ciente de que era filho de Zeus e da princesa Alcmena, de imediato o libertou e se casou com ele, tendo-lhe dado um filho, chamado Lâmon ou, segundo outras fontes, seriam dois os filhos de Héracles com Ônfale: Aqueles (Agelau) e Tirseno. A partir desse momento, terminaram os trabalhos do filho de Zeus e Alcmena. Todo o tempo restante do exílio, agora doce escravatura, Héracles o passou no ócio, nos banquetes e na luxúria. Apaixonada pelo maior de todos os heróis, Ônfale se divertia revestida da pele do Leão de Neméia, brandindo a pesada clava de seu amante, enquanto este, indumentado com os longos e luxuosos vestidos orientais da rainha, fiava o linho a seus pés...

Mas essa modalidade de exílio, ao menos para os heróis, costuma terminar rapidamente e, por isso mesmo, o amante de Ônfale preparou-se para a partida.

Desejando, após a vitória sobre Êurito e o fim do exílio, erguer um altar em agradecimento a seu pai Zeus, mandou um seu servidor, Licas, pedir a Dejanira que lhe enviasse uma túnica que ainda não tivesse sido usada, conforme era de praxe em consagração e sacrifícios solenes. Admoestada pelo indiscreto Licas de que o herói certamente a esqueceria, por estar apaixonado por fole, Dejanira lembrou-se do "filtro amoroso" ensinado e deixado por Nesso, e enviou-lhe a túnica envenenada com o sangue da Hidra de Lerna e com o esperma do Centauro.

Ao vesti-la, a peçonha infiltrou-se-lhe no corpo. Alucinado de dor, pegou Licas por um dos pés e o lançou ao mar. Tentou arrancar a túnica, mas esta se achava de tal modo aderente às suas carnes, que estas lhe saíam aos pedaços. Não mais podendo resistir a tão cruciantes sofrimentos, fez-se transportar de barco para Tráquis. Dejanira, ao vê-lo, compreendendo o que havia feito, se matou. O retorno de Héracles assemelha-se, pois, a uma espécie de Odisséia ao contrário. Ulisses, remoçado por Atena, recebe o beijo de sua Penélope, sob os primeiros sorrisos da Aurora de dedos cor-de-rosa; Héracles, com as carnes aos pedaços, contempla, já agonizante, o suicídio de sua Dejanira, sob as maldições silenciosas do monstruoso Centauro Nesso.

Após entregar Íole a Hilo, pedindo que com ela se casasse, tão logo tivesse idade legal, escalou, cambaleando, o monte Eta, perto de Tráquis. No píncaro do monte mandou erguer uma pira e deitou-se sobre ela. Tudo pronto, ordenou que se pusesse fogo na madeira, mas nenhum de seus servidores ousou fazê-lo. Somente Filoctetes, se bem que relutante e a contragosto, acedeu, tendo recebido, por seu gesto de coragem e compaixão, um grande presente do herói agonizante: seu arco e suas flechas. Conta-se que, antes de morrer, Héracles solicitou a Filoctetes, única testemunha de seus derradeiros momentos, que jamais revelasse o local da pira.

Interrogado, sempre se manteve firme e fiel ao pedido do herói. Um dia, porém, tendo escalado o monte Eta, sob uma saraivada de perguntas, feriu significativamente a terra com o pé: estava descoberto o segredo. Bem mais tarde (é uma das versões) Filoctetes foi punido com uma ferida incurável no mesmo pé.

Tão logo as línguas do fogo começaram a serpear no espaço, fez-se ouvir o ribombar do trovão. Era Zeus que arrebatava o filho para o Olimpo.

Acerca dos momentos derradeiros de Héracles neste vale de lágrimas existe uma variante. O herói não teria morrido torturado pela túnica impregnada do sangue da Hidra e do sêmen de Nesso, mas se teria abrasado ao sol e se teria lançado em um regato caudaloso, perto de Tráquis, para extinguir as chamas, morrendo afogado.

O ribeiro, em que se precipitara, teve, a partir daí, suas águas sempre quentes. Esta seria a origem das Termópilas (águas termais), entre a Tessália e a Fócida, onde existia e existe até hoje uma fonte de água quente.

A morte de Héracles, em ambas as versões, teve por causa eficiente o fogo: era preciso, simbolicamente, que o herói se purificasse por inteiro, despindo-se dos elementos mortais devidos à sua mãe mortal Alcmena. Também Demeter tentou imortalizar nas chamas a Demofonte e Tétis a Aquiles, expondo-o ao calor de uma lareira, esquecendo-se apenas de que o segurava pelo calcanhar!

Admitido entre os Imortais, Hera se reconciliou com o herói: simulou-se, para tanto, um novo nascimento de Héracles, como se ele saísse das entranhas da deusa, sua nova mãe imortal. Sófocles, nas Traquínias, 1105, compreendeu bem essa mensagem, ao escrever que, na hora da morte, o herói dissera que "se chamava assim (Héracles, 'a glória de Hera') por causa da mais perfeita das mães".

Seu casamento com Hebe, deusa da juventude eterna, é apenas uma ratificação da imortalidade do novo imortal. Se Hebe, até então, servia aos Imortais o néctar e a ambrosia, penhores da imortalidade, a partir de agora ela se servirá a Héracles como garantia dessa mesma imortalidade. Uma imortalidade conseguida por seus trabalhos, sua timé e sua areté, mas sobretudo por seus sofrimentos: (tôi páthei máthos), "sofrer para compreender", escreveu Esquilo na Oréstia (Agam. 177).

"O mais popular de todos os heróis gregos, como atestam a constância e a freqüência de seus aparecimentos na tragédia e particularmente na comédia, foi o único celebrado por todos os Helenos". Seu culto abrangeu uma universalidade tal, que até mesmo uma cidade como Atenas, tão cônscia de suas peculiaridades, não só se vangloriava de haver precedido a todo o mundo grego em prestar honras divinas ao herói (Did. 4,39,1), mas também de lhe haver consagrado mais santuários do que ao herói ateniense Teseu (Eur. Héracles, 1324-1333; Plut. Teseu, 35.2).

Cabe, por conseguinte, a indagação: será Héracles um herói ou um deus? Desde que Sófocles (Traquínias, 811) o disse "o maisndestemido dos homens", (áristos andrôn), ou como o apodaram, com ligeiras alterações sinonímicas, Eurípides (Héracles, 183), Aristófanes (Nuvens, 1049 e Hino a Héracles), a qualidade de herói atribuída a Héracles não sofreu qualquer solução de continuidade. Afinal, não era o herói definido pelos gregos como um ser à parte, ferido de hýbris, excepcional, sobre-humano, consagrado pela morte?

Mas, se entre o homem, o ánthropos, e o herói, o anér, a diferença se mede pela timé e a areté, entre o herói e o deus existe aquele abismo insondável, lembrado por Apolo ao fogoso Diomedes na Ilíada, V, 441-442: haverá sempre duas raças distintas, a dos deuses imortais e a dos homens mortais que marcham sobre a terra. Eis aí, portanto, o grande paradoxo de Héracles: enquanto filho de Zeus e de Alcmena, apesar de tantas gestas gloriosas, teve que escalar o monte Eta para purgar tantos descomedimentos, inerentes "à sua condição de herói" e desvincular-se, nas chamas, do invólucro carnal; enquanto "iniciado", escala apoteoticamente o monte Olimpo e como renascido de Zeus e Hera, torna-se imortal entre os Imortais, no júbilo dos festins (Odisséia, XI, 601-608).

" (Héros theós), herói-deus, como diz Píndaro, Neméias, 3,22, Héracles se eternizou nos braços de Hebe, a Juventude eterna.

Tomados em conjunto, os Doze Trabalhos se constituem na escada por que sobe o herói até os píncaros do monte Eta, onde realiza o décimo terceiro, a vitória sobre a morte. Observe-se, aliás, que as três últimas tarefas do herói configuram um namoro com Thánatos. Em Gerião, o grande pastor, "em seus campos brumosos, muito além do ilustre Oceano", está retratado um segundo Hades; seu cão Ortro, de duas cabeças, é irmão de Cérbero, o guardião do reino das sombras, aonde desce Héracles e de onde retorna vitorioso, com o pastor da morte em seus braços; para colher os pomos de ouro, mais uma vez o filho de Alcmena terá que transpor os limites do imenso Oceano (Eurípides, Hipólito, 742sqq.) e penetrar no jardim encantado das Hespérides cantoras (Hesíodo, Teog. 215, 275,517), sedutoras filhas de Nix (Noite) e irmãs das Queres e das Moîras.

Este derradeiro Trabalho, diga-se de passagem, "numa versão mais antiga, como atesta Bonnefoy, era suficiente para abrir a Héracles o caminho do Olimpo. Sem conflitos. Sem sofrimentos. E talvez, sem que lhe fosse necessário morrer a morte de um mortal".

Desse modo, tendo arrostado o Além, Héracles venceu a morte e a tradição multiplicou indefinidamente essa vitória, relembrando como o herói feriu ao deus Hades (Il. V, 395sqq.) ou prendeu Thánatos na cadeia de seus braços (Eurípides, Alceste. 846sq.).

Vencer a morte é um sonho do ideal heróico, que concentra todo o valor da vida na "esfuziante juventude", a (aglaè hébe); vencer a velha idade, flagelo terrível, que aniquila os nervos e os músculos dos braços e das pernas do guerreiro. Héracles, o Forte, triunfou portanto da velhice, desposando a eterna Juventude.

A época clássica, no entanto, já impregnada de Orfismo, fez que o herói escalasse o Eta, onde se encerra sua carreira mortal sobre uma pira, "como se, para penetrar no Olimpo, o herói tivesse necessidade de conhecer a morte; como se a morte de Héracles negasse nele a mortalidade: morrer, morrer, porém, através do fogo purificador, sobre o monte Eta, onde reina Zeus" (Sófocles, Traquínias, 200,436,1191; Filoctetes, 728sq.).

De qualquer forma, só o aniquilamento do Héracles humano permitiu a apoteose do filho de Zeus; mas ainda não se deu a devida importância à tensão que constantemente reenvia Héracles da morte dos mortais para a morte que imortaliza.

Muitos e grandes heróis, que tantas vezes contemplaram a morte de perto e de frente, e a desafiaram, pereceram de maneira pouco mais que infantil. Parece que, em dado momento, quando Láquesis sorteia o fio da vida, o herói, por mais astuto que seja, perde o itinerário da luz, como Agamêmnon, Aquiles, Ulisses, Teseu... Héracles, o Forte, não escapou a essa armadilha da Moîra. Sófocles pôs majestosamente em cena a queda, o desabamento do "mais nobre de todos os homens" convertido num objeto de pena e de ignomínia. O maior exterminador de monstros e de Gigantes (Píndaro, Neméia, 7,90; Sófocles, Traquínias, 1058sq.; Eurípides, Héracles, 177sqq.) transforma-se num monstro urrante, vítima da crueldade e traição que ele tantas vezes combateu e venceu.

Fica patente no mito de Héracles que a força física é ambivalente, na medida em que ela se apóia apenas na hýbris, no excesso, na "démesure". Assim o herói oscila entre o ánthropos e o anér, entre o homem ou sub-homem, e o herói, o super-homem, sacudido constantemente, de um lado para outro, por uma força que o ultrapassa, sem jamais conhecer o métron, a medida humana de um Ulisses, que soube escapar a todas as emboscadas do excesso.

Talvez se pudesse ver nesses dois comportamentos antagônicos a polaridade Ares-Atena, em que a força bruta do primeiro é ultrapassada ou "compensada" pela inteligência astuta da segunda.

Desse modo, antes de ser arrebatado para junto dos Imortais, o filho de Alcmena conheceu, mais e melhor que todos os mortais, a humilhação e o aviltamento. Vistos do Olimpo ou do Hades, seus Trabalhos são tidos por gestas ignominiosas e destino miserável (Il. XIX, 133; Od. XI, 618sq.): o flagelo dos monstros conheceu a escravidão às ordens de Euristeu ou de Ônfale; por duas vezes Ánoia ou Lýssa dele se apossaram, levando-o a matar os próprios filhos e essa demência não o abandonou a não ser para reduzi-lo à fragilidade de uma criança ou de uma mulher (Eurípides, Héracles, 1424).

O grande momento de sua queda, todavia, se inscreve no episódio do ato final em que Dejanira se transmuta em homem e Héracles em mulher. Na tragédia de Sófocles Dejanira se apunhala, como um herói, como Ájax, em vez de se enforcar, morte tipicamente feminina, segundo a tradição (Sófocles, Traquínias, 930sq.), enquanto o herói grita e chora como uma mulher, ele, o Forte, o másculo, que, no infortúnio, se revela uma simples mulher (Sófocles, Traquínias, 1071-1075). E é uma mulher com um físico de mulher, sem nenhum traço de um macho, que o destrói, sem mesmo dispor de um punhal (Sófocles, Traquínias, 1062sq.). Como A (Deiáneira), etimologicamente, talvez provenha do (deïûn), "matar, destruir" e (anér), "homem, marido", significa "a que mata o marido", viu-se em Héracles o símbolo de uma vigorosa denegação da fraqueza face à hostilidade materna de Hera, figurando Dejanira como a mãe perversa.

Para encerrar, um derradeiro paradoxo do mais jovem imortal do Olimpo. É deveras impressionante a multiplicidade de facetas que o herói assumiu no lógos filosófico e a propensão de sábios e intelectuais, desde os Órficos e Pitagóricos, passando pelos Sofistas, em anexar-lhe a figura como modelo exemplar, como exemplar uirtutis.

"Desse modo, a força bruta passou a ser um terreno inexplorado para o desenvolvimento desse exemplar uirtutis e já que o herói escravizado e humilhado pelos prepotentes se tornou um deus, os moralistas viram no seu destino um símbolo da própria condição humana: a encarnação mesma da eficácia do sofrimento". "Sofrer para compreender", já adiantara o religiosíssimo Ésquilo. Um herói, voltado eminentemente para a (nómos), da lei e dos costumes. E o herói se desdobrou, como se fora executar um décimo quarto Trabalho, que seria a busca da (areté), da "virtude estóica".

Antes que os Sofistas se apoderassem desse novo Héracles, todo reflexão, sentado meditativamente em locais solitários ou nas encruzilhadas, o amante da música, o herói da ação energética da força moral, o justo fatigado e sofredor, a hagiografia órfico-pitagórica já transformara o mito em paradigma significativamente edificante.

Coube, todavia, ao sofista Pródico, século V a.e.c, autor de um apólogo denominado na tradição latina Hercules in biuio, "Héracles na encruzilhada", mostrar um herói novo, que, com uma constância invencível, sobrepujou todos os obstáculos, para tornar-se digno de uma glória imperecível. Pois bem, foi desse apólogo que se aproveitou Xenofonte para nos dar em seus (Apomnemoneúmata), que o escritor latino Aulo Gélio traduziu por Commentarii, "Memórias", "Memoráveis", como querem outros, um retrato de corpo inteiro do novo Héracles, inteiramente retocado pelo pincel órfico-pitagórico. A alegoria se encontra no livro segundo, capítulo 1, 21-33 dos Memoráveis, quando do diálogo sobre a temperança entre Sócrates e Aristipo.

Sentado em um local solitário, Héracles adolescente pesa as vantagens e os inconvenientes, respectivamente, do caminho da "virtude", (areté) e daquele do "vício", (kakía). Dele se aproximam duas mulheres, que, pela estatura e porte, são hipóstases de duas deusas, cujos nomes são Areté e Kakía. Como no Discurso justo e o Discurso Injusto das Nuvens, 889-1114, de Aristófanes, comédia por nós traduzida, cada uma defende sua causa diante do jovem em busca de uma diretriz para sua vida, que está começando. Kakía, ricamente indumentada e com olhares gulosos, fala contra todo e qualquer esforço e contenção, e faz uma bela apologia do ócio e do prazer; Areté, vestida de branco, de olhar modesto e pudico, disserta com absoluta precisão acerca da felicidade e do bem, mas estes só se alcançam, diz ela, através do trabalho e da fadiga, com o sacrifício e a submissão do corpo à inteligência.

É bem verdade que o prólogo se encerra com a luminosa peroração de Areté, mas o público de Pródico, ou melhor, o público ateniense sabia perfeitamente que o jovem Héracles, em nome da (Eudaimonía), da Felicidade, elegera o caminho estreito dos Doze Trabalhos.

Não há dúvida, acentua Bonnefoy, de que este apólogo evidencia temas estranhos àquilo que se constituiu até o século V a.e.c. no núcleo do mitologema de Héracles. Na referência à escolha dos dois caminhos tem-se reconhecido uma alusão a Hesíodo que, nos Trabalhos e Dias, 287-292, já opõe a via do (kakótes), do vício, da miséria à da (areté), do mérito e do trabalho; a alegoria, igualmente, parece ecoar, no concurso de eloqüência entre Areté e Kakía, uma versão sofistica do julgamento de Páris ou Alexandre, para outorga do Pomo da Discórdia: apenas um julgamento sem Hera, um julgamento ao contrário, em que o herói prefere Areté-Atena a Afrodite-Kakía. Um dilema evidentemente desconhecido pelo Héracles do mito, cuja virilidade e descomedimento se ajustam perfeitamente ao auxílio meio à distância de Atena e à presença integral dos prazeres de Afrodite! Por fim, a opção de Héracles está certamente relacionada com a escolha de Aquiles, morrer jovem, mas gloriosamente, ou morrer idoso, como qualquer mortal, tema favorito das escolas atenienses do século V a.e.c, em que a Areté e Kakía se dava o sentido tradicional de "bravura" e "covardia".

Uma coisa, todavia, é definitiva: como núcleo do apólogo, bem distante dos Órfico-Pitagóricos e dos Sofistas, baloiçando, como convinha a um herói de seu porte, entre dois pólos antagônicos, o herói fez sua escolha e preferiu o que o mito lhe oferecia, uma vida de trabalhos e de dores, mas também de prazeres e desregramentos, quando os Trabalhos o permitiam.

Reinterpretando, porém, à maneira órfico-pitagórica, as façanhas do herói numa perspectiva moralizante, que superlativava o esforço, Pródico construiu um Héracles edificante, fazendo esquecer as representações amorais do herói.

No fecho desse longo percurso, triturado pela máquina moralizante órfico-pitagórico-prodiciana, eis um novo Héracles: casto, sábio, modelo de virtude!

Héracles, realmente, se tornara por fim o que ele sempre foi, desde o Hino Homérico aos Estóicos, um (áristos andrôn), "o melhor dos homens". É que, e aqui está a diferença, a expressão áristos andrôn, "o maior, o melhor dos heróis", adquiriu, no decorrer dos séculos, a conotação de "o melhor dos homens". Também (areté), que é da mesma família etimológica que (áristos), e que designava originariamente "o valor guerreiro" se enriqueceu paulatinamente com uma carga de interioridade, até tornar-se algo semelhante a que se poderia chamar "virtude".

A história do destino de Héracles acabou por contrair núpcias indissolúveis com a areté, adquirindo o herói um perfil de urbanidade e civilidade que Homero e Hesíodo estavam longe de imaginar.


Fontes: Templo de Apolo, BRANDÃO,Junito de Souza.Héracles e os Doze Trabalhos.in:__________.Mitologia Grega, v3.Vol 3.Petrópolis/RJ:Ediouro,2001.Cap. 3.p.89-148,  Mitologia Grega Online.