Eros/Cupido - O Deus do Amor, do Desejo e da Sedução

29/05/2019

O mais belo entre os deuses imortais, segundo Hesíodo, Eros dilacera os membros e transtorna o juízo dos deuses e dos homens. Dotado de uma natureza vária e mutável, o mito do deus do amor evoluiu muito, desde a era arcaica até a época alexandrina e romana, isto é, do século IX a.e.c., ao século VI d.e.c. Nas mais antigas teogonias, como se vê em Hesíodo, Eros nasceu do Caos (na versão grega nasceu de Afrodite e Hermes), ao mesmo tempo em que Geia e Tártaro. Numa variante da cosmogonia órfica, o Caos e Nix (noite) estão na origem do mundo. Nix põe um ovo, de que nasce Eros, enquanto Urano e Geia se formam das duas metades da casca partida. Eros, no entanto, apesar de suas múltiplas genealogias, permanecerá sempre, mesmo à época de seus disfarces e novas indumentárias da época alexandrina, a força fundamental do mundo. Garante não apenas a continuidade das espécies, mas a coesão interna do cosmo. Foi exatamente sobre este tema que se desenvolveram inúmeras especulações de poetas, filósofos e mitólogos.

Para Platão, no Banquete, pelos lábios da sacerdotisa Diotima, Eros é um Demônio, quer dizer, um intermediário entre os deuses e os homens (não do sentido pejorativo de Diabo, para os gregos, "daimónion" eram seres semideuses que vagavam entre deuses e homens, sendo como os anjos são para os cristãos hoje) como o deus do amor está à meia distância entre uns e outros, ele preenche o vazio, tornando-se assim, o elo que une o Todo a sim mesmo. Foi contra a tendência generalizada que lhe atribuiu nova genealogia. Consoante Diotima, Eros foi concebido da união de Póros (expediente) e de Penia (Pobreza), no jardim dos Deuses, após um grande banquete, em que se celebrava o nascimento de Afrodite. Em face desse parentesco tão díspar, Eros tem caracteres bem definidos e significativos: sempre em busca de seu objeto, como Pobreza e "carência", sabe, todavia, arquitetar um plano, como Expediente, para atingir o objetivo, "a plenitude". Assim, longe de ser um deus todo-poderoso, Eros é uma força, uma ένέργεια (enérgueia), uma "energia", perpetuamente insatisfeito e inquieto: uma carência sempre em busca de uma plenitude. Um Sujeito em busco do Objeto.

Com o tempo, surgiram várias outras genealogias: umas afirmam se o deus do Amor filho de Hermes e Ártemis ctônia ou de Hermes e Afrodite urânia, a Afrodite dos amores etéreos; outras dão-lhe como pais Ares e Afrodite, enquanto filha de Zeus e Dione e, nesse caso, Eros se chamaria Ânteros, quer dizer, o Amor Contrário ou Recíproco. As duas genealogias, porém, que mais se impuseram, fazem de Eros ora filho de Afrodite Pandêmia, isto é, da Afrodite popular, a Afrodite dos desejos incontroláveis, e de Hermes, ora filho de Artemis, enquanto filha de Zeus e Perséfone, e de Hermes. Este último Eros, que era alado, foi o preferido dos poetas e escultores.

Aos poucos, todavia, sob a influência da poesia, Eros se fixou e tomou sua fisionomia tradicional. Passou a ser apresentado como um garotinho louro, normalmente com asas. Sobe a máscara de um menino inocente e travesso, que jamais cresceu (afinal a idade da razão, o lógos, é incomparável com o amor), esconde-se um deus perigoso, sempre pronto a traspassar com suas flechas certeiras, envenenadas de amor e paixão, o fígado e o coração de suas vítimas.

O fato de Eros ser uma criança simboliza, sem dúvida, a eterna juventude de um amor profundo, mas também uma certa irresponsabilidade. Em todas as culturas, a Aljava, o arco, as flechas, a tocha, os olhos vendados significam que o Amor se diverte com as pessoas de que se apossa e domina, mesmo sem vê-las (o amor, não é raro, é cego), ferindo-as e inflamando-lhes o coração. O globo que ele, por vezes, tem nas mãos, exprime sua universalidade e seu poder.

Eros, de outro lado, traduz a complexio oppositorum, a união dos opostos. O Amor é a pulsão fundamental do ser, a libido, que impele toda existência a se realizar na ação. É ele que atualiza as virtualidades do ser, mas essa passagem ao ato só se concretiza mediante o contato com o outro, através de uma série de trocas materiais, espirituais, sensíveis, o que fatalmente provoca choques e comoções. Eros procura superar esses antagonismos, assimilando forças diferentes e contrárias, integrando-as numa só e mesma unidade. Nessa acepção, ele é simbolizado pela cruz, síntese de correntes horizontais e verticais e pelos binômios animus-anima e Yang-Yin. Do ponto de vista cósmico, após a explosão do ser em múltiplos seres, o Amor é a δύναμις (dýnamis), a força, a alavanca que canaliza o retorno à unidade; é a reintegração do universo, marcada pela passagem da unidade inconsciente do Caos primitivo à unidade consciente da ordem definitiva. A libido então se ilumina de progresso moral e místico. O ego segue uma evolução análoga à do universo: o amor é a busca de um centro unificador, que permite a realização da síntese dinâmica de suas potencialidades.

Dois seres que se dão e reciprocamente se entregam, encontram-se um no outro, desde que tenha havido uma elevação ao nível de ser superior e o dom tenha sito total, sem as costumeiras limitações ao nível de cada um, normalmente apenas sexual. O Amor é uma fonte de progresso, na medida em que ele é efetivamente união e não apropriação. Pervertido, Eros, em vez de se tornar o centro unificador, converte-se em princípio de divisão e morte. Essa perversão consiste sobretudo em destruir o valor do outro, na tentativa de servir-se do mesmo egoisticamente, ao invés de enriquecer-se a si próprio e ao outro com uma entrega total, um dom recíproco e generoso, que fará com que cada um seja mais, ao mesmo tempo em que ambos se tornam eles mesmos. O Erro capital do amor se consuma quando uma das partes se considera o todo. O conflito entre a alma e o amor é simbolizado pelo mito de Eros e Psiqué.


Nascimento de Eros - 

Eros nos tempos primitivos é considerado um dos grandes princípios do universo e até o mais antigo dos deuses. Representa a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros, e pela qual nascem e se perpetuam todas as raças. Mitologicamente, não sabemos quem é seu pai, mas os poetas e escultores concordam em lhe dar Hermes como pai e Afrodite por mãe, e é realmente naturalíssimo que Eros seja filho da beleza.

O nascimento de Eros proporcionou a Lesueur o tema de uma encantadora composição. Afrodite sentada nas nuvens está rodeada das três Cárites, uma das quais lhe apresenta o gracioso menino. Uma das Horas, que paira no céu, esparze flores sobre o grupo.


Educação de Eros - 

Notando Afrodite que Eros não crescia e permanecia sempre menino, perguntou o motivo a Temis. A resposta foi que o menino cresceria quando tivesse um companheiro que o amasse. Afrodite deu-lhe, então, por amigo Anteros (o amor partilhado). Quando estão juntos, Eros cresce, mas volta a ser menino quando Anteros o deixa. É uma alegoria cujo sentido é que o afeto necessita de ser correspondido para desenvolver-se.

A educação de Eros por Afrodite proporcionou assunto para uma multidão de maravilhosas composições em pedras gravadas. Afrodite brinca com ele de mil modos diversos, pegando-lhe o arco ou as setas e seguindo-lhe com o olhar os graciosos movimentos. Mas o malicioso menino vinga-se, e várias vezes a mãe experimenta o efeito das suas flechadas.

Eros era freqüentemente considerado um civilizador que soube mitigar a rudeza dos costumes primitivos. A arte apoderou-se dessa idéia, apresentando-nos os animais ferozes submetidos ao irresistível poder do filho de Afrodite. Nas pedras gravadas antigas vemos Eros montado num leão a quem enfeitiça com os seus acordes; outras vezes atrela animais ferozes ao seu carro, após domesticá-los, ou então quebra os atributos dos deuses, porque o universo lhe está submetido. Não obstante o seu poder, jamais ousou atacar Atena e sempre respeitou as Musas.

Eros é o espanto dos homens e dos deuses. Zeus, prevendo os males que ele causaria, quis obrigar Afrodite a desfazer-se dele. Para o furtar à cólera do senhor dos deuses, viu-se Afrodite obrigada a ocultá-lo nos bosques. Onde ele sugou o leite de animais ferozes.

Também os poetas falam sem cessar da crueldade de Eros: "Formosa Afrodite, filha do mar e do rei do Olimpo, que ressentimento tens contra nós? Por que deste a vida a tal flagelo, Eros, o deus feroz, impiedoso, cujo espírito corresponde tão pouco aos encantos que o embelezam? Por que recebeu asas e o poder de lançar setas, a fim de que não pudéssemos safar-nos dos seus terríveis golpes?" (Bíon).

Um epigrama de Mosco mostra a que ponto conhecia Eros o seu poder, até contra Zeus. "Tendo deposto o arco e o archote, Eros, de cabelos encaracolados, pegou um aguilhão de boieiro e suspendeu ao pescoço o alforje de semeador; depois, atrelou ao jugo uma parelha de bois vigorosos e nos sulcos atirou o trigo de Démeter. Olhando, então para o céu, disse ao próprio Zeus: "Fecunda estes campos, ou então, touro da Europa, eu te atrelarei a este arado." (Antologia).

Luciano, nos seus diálogos dos deuses, assim formula as queixas de Zeus a Eros:

"Eros. - Sim, se cometi um erro, perdoa-me, Zeus. Sou ainda menino e não atingi a idade da razão.

Zeus. - Tu, Eros, um menino?! Mas se és mais velho que Japeto. Por não teres barba nem cabelos brancos, julgas-te ainda menino? Não. És velho e velho maldoso.

Eros. - E que mal te fez, pois, este velho, como dizes, para que penses em encadeá-lo?

Zeus. - Vê, pequenino malandro, se não é grande mal insultar-me a ponto de fazeres com que eu me revestisse da forma de sátiro, touro, cisne e águia. Não fizeste com que mulher alguma se apaixonasse de mim próprio, e não sei absolutamente que, pelo teu sortilégio, eu tenha conseguido agradar a uma que fosse. Pelo contrário, devo recorrer a metamorfoses e ocultar-me. É verdade que amam o touro ou o cisne, mas se me vissem morreriam de medo." (Luciano).

Eros inspirou encantadores trechos a Anacreonte:

"No meio da noite, na hora em que todos os mortais dormem, Eros chega e, batendo à minha porta, faz estremecer o ferrolho: "Quem bate assim? exclamei. Quem vem interromper-me os sonhos cheios de encanto? - Abre, responde-me Eros, não temas, sou pequenino. Estou molhado pela chuva, a lua desapareceu e eu me perdi dentro da noite." Ouvindo tais palavras apiedei-me; acendo a lâmpada, abro e vejo um menino alado, armado de arco e aljava; levo-o ao pé da lareira, aqueço-lhe os dedinhos entre as minhas mãos, e enxugo-lhe os cabelos encharcados de água. Mal se reanima: "Vamos, diz-me, experimentemos o arco. Vejamos se a umidade o não estragou." Estica-o, então, e vara-me o coração, como faria uma abelha; depois, salta, rindo com malícia: "Meu hóspede, diz, rejubila-te. O meu arco está funcionando perfeitamente bem, mas o teu coração está agora enfermo." (Anacreonte).

"Um dia, Eros, não percebendo uma abelha adormecida nas rosas, foi por ela picado. Ferido no dedinho da mão, soluça, corre, voa para o lado de sua mãe: "Estou perdido, morro! Uma serpentezinha alada me picou. Os lavradores dizem que é uma abelha." Afrodite responde-lhe: "Se o aguilhão de uma simples abelha te faz chorar, meu filho, reflete como devem sofrer aqueles a quem tu atinges com as setas!" (Anacreonte).


Tipos e Atributos de Eros - 

Na arte Eros apresenta dois tipos distintos, pois uma das vezes o vemos como adolescente, outras sob o aspecto de gracioso menino. Mas o primeiro de tais tipos é o mais antigo. Uma pedra gravada nos mostra Eros de estilo antigo, representado por um éfebo alado e disparando uma seta. O arco, as setas e as asas são sempre os atributos de Eros.

O tipo de Eros adolescente está fixado perfeitamente num tronco do museu. Pio-Clementino. Os membros, infelizmente, faltam. Os ombros apresentam vestígios de orifícios abertos para acolherem o pé das asas. A cabeça, de delicada beleza, está coberta de cabelos encaracolados.

Foi Praxíteles, contemporâneo de Alexandre, que fixou na arte o tipo de Eros. Sabe-se que o grande escultor era freqüentador assíduo da famosa cortesã Frinéia. Esta, ao lhe pedir um dia que ele lhe cedesse a mais bela das suas estátuas, teve o prazer de ser ouvida. Mas Praxíteles não lhe explicou qual delas seria. Frinéia, então, mandou que um escravo fosse à casa do escultor, e dali a pouco o escravo voltou dizendo que um incêndio destruíra a casa de Praxíteles e com ela a maior parte dos seus trabalhos; no entanto, acrescentou, que nem tudo desaparecera, Praxíteles precipitou-se imediatamente para a porta, gritando que estaria perdido todo o fruto dos seus longos esforços, se o incêndio lhe não tivesse poupado o Eros e o Sátiro. Frinéia tranqüilizou-o assegurando-lhe que nada estava queimado e que, graças ao ardil, ficara sabendo dele próprio o que de melhor havia em escultura. Escolheu, assim, o Eros. Mas não era para guardá-la que a cortesã pedira a obra-prima ao grande escultor, pois, na Grécia, os costumes licenciosos não impediam sentimentos elevados. Frinéia doou a estátua à cidade de Téspies, sua pátria, que Alexandre acabara de devastar. A escultura foi consagrada num antigo templo de Eros, e foi graças a esse Destino religioso que se tornou espécie de compensação para uma cidade destruída pela guerra. "Téspies já não é mais nada, diz Cícero, mas conserva o Eros de Praxíteles, e não há viajante que não vá visitá-la para conhecer tão esplêndida obra-prima." Esse Eros era de mármore, as asas eram douradas, e ele empunhava o arco. Calígula mandou que o transportassem para Roma; Cláudio devolveu-o aos habitantes de Téspies, Nero roubou-o de novo.

A célebre estátua foi, então, colocada em Roma sob os pórticos de Otávio, onde pouco depois a destruiu um incêndio.

O escultor Lisipo também fizera uma estátua de Eros para os habitantes de Téspies, colocada ao lado da obra-prima de Praxíteles. A famosa estátua conhecida pelo nome de Eros empunhando o arco passa por ser cópia de uma dessas duas obras. Via-se também no templo de Vênus em Atenas um famosíssimo quadro de Zêuxis, representando Eros coroado de rosas.

Até a conquista romana, quase sempre fora Eros representado como adolescente de formas esbeltas e elegantes. A partir de tal época, surge mais freqüentemente sob o aspecto de menino.

A arte dos últimos séculos representou muitas vezes Eros. No quarto de banho da cardeal Bibbiena, no Vaticano. Rafael fixou Eros triunfante, fazendo puxar o carro por borboletas, cisnes, etc. Numa multidão de encantadoras composições mostra-o doidejando ao lado de sua mãe ou então abandonando-a, após havê-la picado.

Parmeggianino fez com Eros e o seu, arco uma graciosa figura que, por longo tempo foi atribuída a Correggio. Correggio e Ticiano, por sua vez, fixaram Eros em todas as suas formas, mas nenhum pintor o representou tantas vezes quantas Rubens. Os Eross frescos e bochechudos do grande mestre flamengo podem ser vistos em todas as galerias, brigando, brincando. voando, correndo, colhendo frutos, etc.

Na Escola francesa, le Poussin representou muitas vezes Eros, mas le Sueur pintou a história completa nos salões do palácio Lambert, e o austero pintor de São Bruno soube evidenciar, sem jamais deixar de ser casto, uma graça encantadora nesses temas mitológicos.

Vemos, desde os primórdios do século dezoito, a importância desmedida que Eros terá nas produções artísticas da época. Coypel pintara, nos salões do cardeal Dubois, um forro representando o Grupo celestial desarmado pelos Eros. Nota-se ali, diz o biógrafo do pintor, um desses pequeninos deuses que se eleva, rindo, na águia de Zeus; mas quem ousa tentar apoderar-se do raio, queima-se, arrepende-se e foge. Outro, mais obstinado, nota com despeito que todas as suas setas se partem contra a égide de Atena, e tenta inutilmente novos esforços. O Tempo detém pela asa o temerário que acaba de lhe roubar o relógio e a foice, Vê-se a balaustrada que encima a cornija desabar sob os passos do impiedoso destruidor. O resto da composição apresenta aos olhos a simpática e nobre brincadeira que tanto apraz ao espírito e da qual somente o espírito pode ser inventor.

Eros fazendo o seu arco, de Bouchardon, atualmente no museu do Louvre, encontrava-se, outrora numa ilha no meio do lago do Trianon. A formosa estátua, fortemente desdenhada no começo deste século, conforma-se bastante ao espírito do século dezoito. Eros, vencedor dos deuses e dos homens, apoderou-se, sem nenhum trabalho, da maça de Héracles, e enquanto se ocupa em dela fazer um arco, inclina a cabeça com um movimento de faceirice algo afetado, mas cheio de graça. Na mesma época, Boucher cobria os seus entrepanos de Eroszinhos rechonchudos, cheios de encanto, mas que só possuem longínqua relação com o tipo fixado por Praxíteles e Lisipo.

Citemos uma Mercadora de Eros, imitação de antiga pintura famosa, a escola imperial representou freqüentemente Eros. Mas entre os artistas dos últimos séculos, nenhum o representou tantas vezes como Prudhon.

Embora tais composições pequem, uma vez que outra, por um pouco de afetação, são quase sempre encantadoras. A maioria foi popularizada pela gravura ou pela litografia. Aqui, vemos Eros de pé, asas abertas, passar os braços em volta do pescoço da Inocência sentada num cabeço. Mais longe, a Inocência seduzida por Eros é arrastada pelo Prazer e seguida pelo Arrependimento. Outras vezes, o autor representa Eros preso por um elo de ferro ao pedestal de um busto de Atena e pisando com o pequenino pé, mas em troca, outras é Eros triunfante que se vinga da mulher insensata a qual julgou encadeá-lo para sempre.

Eros fere muitas vezes sem ver, e dá origem a sentimentos que nem o mérito, nem a beleza explicam suficientemente. Foi o que Correggio pretendeu exprimir ao representar Afrodite prendendo uma venda sobre os olhos do filho. Ticiano pintou o mesmo tema que se vê reproduzido com freqüência na arte dos últimos séculos.

Eros produz naqueles aos quais fere efeitos surpreendentes, que na Lenda se traduzem sempre por metamorfoses. Assim, o mergulhão é uma ave que voa sempre acima das águas e nela mergulha freqüentemente. Noutros tempos, tratava-se do filho de um rei, que tinha aversão à corte do pai e evitava participar das festas que ali se realizavam, preferindo ir aos bosques, por ter a esperança de encontrar a ninfa Hespéria a quem amava ternamente. Entretanto Esaco, assim se chamava ele, não era correspondido. Um dia, estando a ninfa a fugir-lhe à perseguição amorosa, foi picada por uma serpente venenosa e morreu. Esaco, desesperado por lhe ter causado a morte, atirou-se ao mar do alto de um rochedo. Mas Tétis, comovida, sustentou-o na queda, cobriu-o de penas, antes que ele caísse na água e impediu-o, assim, de morrer, por maior que fosse o seu desejo de não sobreviver à querida Hespéria. Indignado contra a mão favorável que o protege, queixa-se da crueldade do Destino que o força a viver. Eleva-se no ar, depois se precipita com impetuosidade na água; mas as penas o sustêm e reduzem o esforço que ele faz para morrer. Furioso, mergulha a todo instante no mar, e procura a morte que o evita. O amor tornou-o magro, tem coxas longas e descarnadas e um pescoço muito comprido. Ama as águas, e é pelo fato de nelas mergulhar constantemente que se chama mergulhão

Fontes: Templo de Apolo, Toda Materia, BRANDÃO,Junito de Souza.A primeira fase do Universo: do Caos a Pontos.in:__________Mitologia Grega, v1.18ª Ed.Vol 1.Rio de Janeiro/RJ:Vozes,2009.Cap. 9.p.186-190