El Cid - El Campeador

20/08/2018

El Cid Campeador foi um herói castelhano que nasceu em Vivar, uma aldeia a cercado de 10km ao norte de Burgos, capital do Reino de Castela. Mas contar somente isto me tornaria um pouco egoísta, pois este personagem tem uma história muito interessante.


Rodrigo (ou Ruy) Diaz é um personagem histórico, nascido por volta de 1043 em Bivar, perto de Castela, e morto em 1099, em Valência. Sua carreira ilustra como era a cavalaria na Espanha do século XI, época conturbada em que os cristãos empreendiam a reconquista das terras em poder dos mouros. Para os cristãos ele era "El Campeador" ("campeão", "batalhador"), e também o chamavam de "Cid" (do árabe hispânico "as-sid": "nobre senhor"), adotando o nome que lhe fora dado pelos mouros.

Seu pai, Diego Lainez, era membro da pequena nobreza de Castela e sua mãe vinha da alta aristocracia latifundiária. Foi educado na corte de Fernando I, a serviço de Sancho, filho mais velho do rei. Antes de morrer, Fernando partilhou o reino entre os vários filhos; em especial, Sancho ficou com Castela e Alfonso com León. O Cid era comandante das tropas de Sancho, a quem serviu lealmente até a morte dele; passou então a servir a Alfonso, que se tornara rei também de Castela, e foi talvez instigado por ele que se casou com dona Ximena, filha do conde de Oviedo.

Entretanto, acabou exilado por Alfonso, provavelmente em conseqüência da inimizade de cortesão poderosos, seja como vítima de calúnias por parte deles, ou por tê-los tratado com arrogância. No exílio, organizou um exército de soldados da fortuna, e vendia seus serviços tanto a cristãos quanto a mouros, conforme as conveniências. Por quase dez anos subordinou-se à dinastia islâmica que governava Saragoça, no norte da Espanha, primeiro com o rei al Mut'tamin e depois com seu sucessor, al-Musta'in. Lutando por esses soberanos, derrotou decisivamente o rei mouro de Lérida e seus aliados cristãos, entre os quais estava o conde de Barcelona, e, mais tarde, venceu também o exército cristão do rei de Aragón. No curso desse tipo de campanhas, o Cid se notabilizava não apenas pela bravura e capacidade de comando, mas, também, como cavaleiro mercenário, pelo êxito em enriquecer a si mesmo e a seus homens com os despojos arrancados aos vencidos - e esse objetivo de lucro, junto com louvores a quem o realiza, está explícito nas narrativas que nos chegaram sobre ele, lado a lado com os ideais cavaleirescos.

Seu principal feito foi a conquista de Valência, que tomou aos mouros e governou com habilidade e justiça. Supostamente, a detinha em nome de Alfonso, com quem se reconciliara, mas de fato cuidava dela como coisa sua. Aumentou sua fama ao defender com sucesso a posse da cidade contra os Almoravidas africanos, que repetidamente cruzavam o mar para tentar invadi-la. Terminou a vida em Valência, mas seu corpo foi depois recolhido ao mosteiro de San Pedro de Cardena, nas proximidades de Burgos, onde continua sendo objeto de veneração.

Antes mesmo de sua morte, as façanhas do Cid foram registradas em um poema em latim, conhecido como Carmen Campidoctoris (1093-1094), e logo em uma breve crônica, também em latim, Historia Roderici (1110).

E, em torno das realidades já tão fascinantes de sua vida, foi-se acumulando uma tradição lendária ainda mais prestigiosa, registrada em diversas obras poéticas e teatrais. A mais célebre é o Poema (ou Cantar) de Mio Cid, do século XII ou XIII. Mais tardio é o poema Mocedades de Rodrigo, composto entre 1350 e 1360. O drama Las Mocedades del Cid, de Guillen de Castro, é ainda posterior (1612-1618), tendo servido de fonte ao mais famoso Le Cid (1637), tragédia em cinco atos do francês Pierre Corneille. O poeta inglês Robert Southey escreveu em prosa, reunindo e traduzindo três textos espanhóis, uma interessante e abrangente compilação das aventuras lendárias do herói, sob o título de The Chronicle of the Cid (1808) - a principal referência para a elaboração do texto apresentado. O compositor Jules Massenet adaptou a obra de Corneille em sua ópera Le Cid, pela primeira vez encenada, em Paris, a 30 de novembro de 1885. É de 1961 o filme El Cid, protagonizado por Charlton Heston e Sophia Loren e sob a direção de Anthony Mann.

O relacionamento do Cid com dona Ximena é um dos elementos dramáticos mais explorados pela ficção, de vez que o Cid teria matado o pai da futura mulher em duelo. A primeira reação dela teria de ser de ódio, mesmo que antes o amasse, como sucede em algumas versões, tais como a do filme. Na versão aqui adotada, a atitude de Ximena, começando por dar queixa ao rei, mas logo pedindo a ele para fazê-la casar com Rodrigo, combina a louvável disposição de contribuir para a paz entre os grandes do reino com um senso prático um tanto inesperado e até chocante: ela diz francamente ao rei que considera o jovem o que chamaríamos hoje de "um bom partido", não apenas um herói, mas alguém capaz de tornar-se rico. Seria uma atitude em parte interesseira, lembrando os traços de mercenário que ele próprio teria adotado para sobreviver no exílio forçado. Entretanto, em todas as versões, o sentimento que une os dois durante a longa carreira do Cid é de amor e de profunda devoção. E não é menor a ternura que ele demonstra pelas duas filhas.

Outro aspecto exemplar dessas narrativas é que elas recuperam, para além das diferenças e preconceitos, os frutos da convivência nem sempre inamistosa entre cristãos, mouros e judeus, através da qual as realizações desses três grupos iam-se combinando para a formação de uma cultura refinada e única em suas características. Um cristão podia viver nas terras dominadas pelos mouros, sendo chamado "mozárabe" (do árabe "mustab'rab" - "que quer parecer árabe"); reciprocamente, um mouro podia habitar em território cristão, sendo chamado "mudejar" (do árabe "mudeyyen"- "que tem permissão para permanecer"). E a Espanha está repleta de obras de arte tanto de origem mozárabe quanto mudejar, resultantes de criativas combinações de estilos. A própria língua espanhola (e até o português) contém numerosas palavras de origem árabe, várias das quais aparecem no texto a seguir, como "alcaide", por exemplo. Igualmente, os judeus conviviam com cristãos e mouros, exercendo numerosas profissões, tais como conselheiros de Estado, médicos, boticários, advogados, notários, escribas, astrônomos, cartógrafos, encadernadores, curtidores, etc. Em especial, eram reputados como bons comerciantes e, ainda mais, por sua participação nas finanças - tal como os dois, Rachel e Vidas, a quem o Cid lendário primeiro busca enganar, mas no final trata com gratidão - trabalhando como prestamistas, cambistas, administradores de rendas e arrecada­dores de impostos, entre outras atividades.

Fontes: templo de apolo, FURTADO,Antônio L.El Cid (Espanha).in:__________.Heróis do Ocidente e do Oriente:Mitos e Lendas.Rio de Janeiro/RJ:Nova Era,2006.Cap. 12.p.260-262. Meuscaminhos