Druidas e bardos - Os guardiões da alma

01/08/2018

Uma sociedade que acredita numa dimensão extrafísica da vida - as profundas verdades que se ocultam por trás do véu da vida terrena - investe sua fé em especialistas talentosos, capazes de servir de intermediários entre os dois mundos: os videntes, os druidas e os bardos. Com o surgimento do Cristianismo, os santos se juntaram às fileiras de talentosos guardiães da alma - e muitas figuras antes de cultura ancestral adquiriram outros nomes e um novo conjunto de atributos religiosos.


A sabedoria dos druidas

Os druidas, ao lado dos bardos e dos videntes, são os detentores da sabedoria no mundo celta. O autor clássico Diodoro Sículo escreveu um conto detalhado acerca de como eles adquiriam essa sabedoria. Ele explica que o título "druida" significa "aquele que é muito instruído" e que a erudição dos druidas advinha do fis, "conhecimento secreto" ou até mesmo do im fiss, "conhecimento secreto completo".

Diodoro Sículo conta que, para usar esse conhecimento, o druida realizava um ritual especial chamado imbas forosnai, ou "conhecimento de iluminação". Ele retirava uma porção pequena de carne de um animal sagrado, como um porco ou um cavalo, cozida especialmente para a cerimônia. Depois de mastigar o pedaço de carne, ele o colocava no chão, atrás da porta da sua casa. Depois repetia um encantamento sobre o bocado de carne e o oferecia aos deuses. O conhecimento que ele buscava o visitava num sonho revelador. Se o sonho não viesse imediatamente, ele fazia o encantamento novamente, desta vez recitando-o dentro das palmas das mãos em concha. Depois dormia com as mãos pressionadas contra as bochechas para intensificar o poder das palavras mágicas. Seus companheiros se mantinham de guarda para que nada perturbasse seu sono, semelhante a um transe. Quando despertava, ele descobria que estava de posse do conhecimento que procurava.

Divitiacus é um dos poucos druidas cujo nome é mencionado em obras clássicas. Líder dos aedui, uma tribo celta gaulesa, ele era respeitado pela sua arte por Júlio César, que o descreve como um homem magnânimo. Divitiacus era amigo do filósofo romano Cícero, que nos conta que o druida era conhecedor da ciência grega da physiologia (o conhecimento das coisas da natureza) e que ele podia prever acontecimentos por meio de augúrios.

Como demonstrou Cathbad, o líder dos druidas do Rei Conchobar, a posição privilegiada dos druidas pode acarretar conseqüências desastrosas para qualquer um que lhes demonstre desrespeito, seja intencional ou não. Na véspera de uma batalha, um dos campeões do rei exclama uma advertência antes que Cathbad tenha chance de falar. Essa transgressão ao direito de precedência do druida é tão grave que o cavalo do homem levanta-se sobre as patas traseiras e ele perde controle de suas armas; nesse instante, o escudo voa de sua mão e acaba por decapitá-lo.

O autor grego Estrabão relata: "Os druidas dizem que as almas dos homens e o universo são indestrutíveis, embora tanto o fogo quanto a água um dia acabarão prevalecendo sobre eles". Os druidas têm um relacionamento especial com a água; eles podem fazer rios e lagos secarem e lançar tempestades sobre os inimigos. Mas, num exemplo até maior do seu controle sobre os elementos, o druida Figol consegue combinar fogo e água: quando os Tuatha De Danann preparam-se para lutar contra os monstruosos fomorianos, Figol promete que, pelo poder da magia, uma chuva de fogo cairá sobre o inimigo, não apenas uma vez mas três.

Em outro conto, pedem a Dallan, um druida cujo nome significa "o cego", para que utilize suas capacidades psíquicas para encontrar uma mulher que está perdida. Ele confecciona quatro varinhas de teixo e faz nelas inscrições com letras ogham - a misteriosa escrita dos druidas. Com o poder intensificado por esses objetos ritualísticos, o druida cego usa seu olho interior para "ver" que a mulher está aprisionada num monte sidh.

Todos os líderes druidas predizem acontecimentos relacionados ao rei e seu reino; no entanto, Beag mac De, druida da corte do Grande Rei Diarmid mac Cearrbheoil, tem outras capacidades surpreendentes - ele é capaz de prever o futuro poder dos santos irlandeses e tem visões de São Brenan, São Ciaran e São Columba. Beag é recompensado antes de sua morte, quando encontra São Columba, que administra os sacramentos cristãos ao druida como um favor especial. Essa afinidade entre homens santos ancestrais e cristãos simboliza o modo como o Cristianismo incorporou os aspectos da antiga sabedoria celta e assimilou-os em suas próprias tradições e interesses. 


Combates mágicos

A capacidade de mudar de forma e assumir o disfarce de outra pessoa, um animal ou até um objeto é um poder especial que só os grandes magos possuem. Essa faculdade de metamorfose muitas vezes passa por uma prova de fogo quando dois magos competem entre si para saber quem tem mais força sobrenatural - um tema comum nas estórias celtas. A mais famosa dessas disputas aconteceu entre a formidável feiticeira Ceridwen e o jovem que adquiriu poderes mágicos por acidente.

Ceridwen tem um filho feio, Avagddu, cujo nome significa "escuridão". Ela gostaria de dar a ele o dom de profecia para compensar sua aparência. Então, a feiticeira mistura ervas especiais num caldeirão fumegante e manda o jovem chamado Gwion vigiar a mistura. Quando o preparado começa a ferver, três gotas do "líquido do conhecimento" saltam do caldeirão e Gwion os engole. O caldeirão se quebra e seu conteúdo se espalha e chega até o rio, matando os cavalos do rei que bebem da sua água. Gwion, percebendo que corre perigo mortal, foge de Ceridwen, que sai em seu encalço. Ele se transforma num peixe e mergulha no rio, mas ela assume a forma de uma lontra e o persegue. Em seguida, Gwion se torna uma lebre, mas no mesmo instante ela se [100] transforma num cão de caça para persegui-lo. Ele então se transforma num pássaro e tentar voar para longe, mas ela toma forma de um falcão e precipita-se sobre ele. Por fim, o jovem mago transforma-se num grão de trigo e Ceridwen, transformada numa galinha preta, engole o grão. Nove meses depois, a feiticeira dá à luz um bebê tão belo que ela não é capaz de matá-lo. Em vez disso, ela o prende num saco preto e o joga num rio, onde mais tarde ele é encontrado por um príncipe, que lamenta a sua sorte por ter encontrado um bebê e nenhum peixe. Mas então a verdadeira identidade da criança é revelada; pois ela era Taliesin, destinado a se tornar o líder dos bardos.


A sabedoria da inspiração

A palavra "inspiração" lembra respiração (o ato de inalar o ar). Para os celtas, a inspiração é um tipo de conhecimento que vem pelo ar e pela água, e essas duas imagens são muitas vezes combinadas. A versão celta dessas ideias é a "do sopro líquido da inspiração" ou awen. Só depois de uma jornada perigosa, em que a alma sai do corpo, seguindo talvez até o reino dos mortos, é que a awen pode possuir o espírito. Para se preparar para adquirir essa sabedoria sobrenatural, o druida aguçava os seus sentidos por meio do transe - uma técnica antiga usada pelos xamãs de muitas culturas do mundo, para atingir o mundo espiritual.

Gerald de Gales comenta que "certas pessoas de Cambria [Gales], que não existiam em nenhum outro lugar, eram chamadas de awenyddion, ou 'pessoas inspiradas'". Segundo ele descreve, "quando pediam a essas pessoas que previssem os resultados de um acontecimento futuro, elas urravam violentamente, como se possuídas por um espírito. Não davam a resposta de um modo racional, mas alguém que ouvisse atentamente os ruídos aparentemente incoerentes que emitiam, seria capaz de decifrar a profecia. Esses druidas xamânicos só recuperavam por completo os sentidos quando alguém os sacudia violentamente, para que saíssem do transe, que se assemelhava a um sono profundo; eles também não se lembravam das respostas que proferiam. Gerald também observou que os awenyddion recebiam favores espirituais durante essas jornadas. Alguns pareciam receber leite adoçado ou mel nos lábios. Outros afirmavam que, ao acordar, viam que tinham recebido informações por escrito, como uma dádiva espiritual. O relato sobre uma estátua cultuada representando Ogmios, o deus da inspiração, fundamenta a descrição de Gerald a respeito do transe mediúnico. Uma corrente liga os ouvidos dos devotos à língua do deus, uma ilustração vivida da natureza extrassensorial da inspiração druídica. 

A inspiração envolve a visão, a audição e a fala. A palavra irlandesa para poeta, filidh, deriva de uma raiz indo-europeia cujo significado é "ver". Muitas estátuas celtas tricéfalas eram ligadas pela orelha, como se compartilhassem o sentido da audição. A mais importante das faculdades do vidente, porém, é o poder da fala. A sabedoria que o druida ouve e vê em suas jornadas ao reino do espírito é transmitida ao seu povo por meio da fala, e os awenyddion vivenciam seu dom como uma abertura da boca.

A importância da fala para os celtas é bem ilustrada na estória a seguir. Matholwch, um rei irlandês, viola as leis da hospitalidade tentando matar seu hóspede, Bendigeidfran mab Lyr. Durante a luta que se segue, muitos soldados são mortos e, pelo fato de seu mestre ter se comportado de maneira tão desonrosa, eles morrem sob uma nuvem de vergonha. Eles não conseguem, portanto, fazer a transição para o Outro Mundo, de modo que são mandados de volta da terra dos mortos para fazer companhia aos vivos e destituídos do poder da fala como castigo por terem agido tão mal.

Como se fosse para valorizar o conhecimento que se pode adquirir no mundo espiritual, as viagens para esse reino são extremamente perigosas. A busca pessoal pela sabedoria sobrenatural tem seu lado sombrio - experiências fora do corpo podem levar à morte ou à demência. O conhecimento sobrenatural, se não for controlado, pode ameaçar até os videntes mais poderosos com a perda da razão. Numa estória, Merlin tem uma visão tão terrível que o leva à loucura e ele se torna um homem arredio, alienado da sociedade. As divagações da sua mente perturbada são ouvidas apenas pelo seu porquinho de estimação e pelas macieiras que lhe fazem sombra. Quando Gwenddydd, sua irmã, lhe faz uma visita em sua casa no bosque, ela tenta confortá-lo. Primeiro oferece vinho ao irmão, mas ele rejeita. Depois oferece leite, mas ele também o despreza. Só quando ela lhe oferece uma terceira bebida, a água, o líquido mais puro e carregado de conhecimento, ele aceita. A água cura sua loucura e restaura suas capacidades como vidente e profeta. 


Santos e anjos

Num dos poemas mais místicos da tradição celta, o bardo Taliesin afirma ter vindo da Terra dos Serafins. Esses seres angélicos são uma companhia apropriada para o líder dos bardos, visto que os serafins pertencem à ordem mais elevada dos anjos, aqueles que estão mais próximos do trono de Deus. Os vários anjos retratados no Livro de Kells lembram os anjos bizantinos na forma e nas vestimentas, mas, quando se comunicam com os santos celtas, esses seres celestiais palestram tanto sobre questões relacionadas à tradição de sabedoria celta quanto sobre a doutrina cristã.

Em uma ocasião, São Patrício evoca os espíritos de dois antigos guerreiros, Cailte e Oisin, e de seus companheiros, para que lhe contem as aventuras de antigos heróis irlandeses e recitem a sabedoria dos ollamh, a ordem mais importante dos poetas irlandeses antigos. Fascinado por essa esplêndida tradição ancestral, São Patrício se pergunta se não estaria negligenciando seus deveres pastorais. De repente, dois anjos aparecem para assegurá-lo da importância dos contos sobre os antigos heróis, e São Patrício convoca seus escribas para registrar as estórias e preservá-las na forma escrita para sempre. 

O canal de comunicação entre os anjos e os santos celtas não é apenas um veículo pelo qual a palavra de Deus pode ser transmitida à humanidade. Como mostra a estória a seguir, sobre São Columba, às vezes os anjos atribuem tarefas que podem ser experiências arriscadas até para um santo. Uma noite, enquanto São Columba estava meditando, "arrebatado em seus sentidos", ele tem a visão de um anjo, que lhe pede para presidir a cerimônia de coroação de um rei irlandês e oferece a ele um livro de vidro contendo as palavras que ele deve proferir na cerimônia. Quanto São Columba se recusa a pegar o livro pela segunda vez, o anjo o atinge com o golpe de um relâmpago, marcando o santo para sempre. O anjo então pede a ele, mais uma vez, que aceite o livro. Dessa vez o santo não ousa recusar: ele aceita a oferta e cumpre sua incumbência.


O poder do três

Tríades (grupos de três) e triplicações são um tema recorrente no mundo celta. As perguntas são feitas três vezes, as deusas aparecem em grupos de três e as figuras de pedra do homenzinho de capuz que dá sorte sempre ocorrem em grupos de três. O número três tem a capacidade de intensificar o poder e unificar diversas experiências numa só: cabeças e rostos esculpidos são entalhados em padrões interligados, de modo que o três se torna uma única unidade. Esses rostos entalhados olham para o passado, para o presente e para o futuro simultaneamente, e qualquer grupo de três imagens ligado dessa maneira incorpora a natureza todo-abrangente da sabedoria celta.

De acordo com Júlio César, os druidas recusavam-se a confiar seu conhecimento ao papel e preferiam transmitir tudo pela palavra oral, confiando mais na memória do que na escrita. Eles usavam várias técnicas mnemônicas sofisticadas, sendo a mais comum delas a tríade de três elementos. Grupos de tríades catalogam as leis, as regras de poesia e o conhecimento tradicional de todos os tipos.

Esses agrupamentos criam um mecanismo valioso para organização e memorização do vasto cabedal de informações pelo qual o druida é responsável. No entanto, como os druidas fazem pouca distinção entre o sagrado e o secular, o próprio ato de organizar o conhecimento em tríades encerra um significado oculto no qual o último elemento muitas vezes transmite a mensagem mais importante. A tríade a seguir registra os três nomes da Britânia: Distrito de Merlin, Ilha do Mel e Ilha da Britânia. Esses epítetos transmitem mais do que um simples registro histórico - eles encerram a estória espiritual da ilha. Trata-se de um lugar de magia, graças à sua associação com o grande mago Merlin; é a Ilha do Mel porque é uma terra fértil e próspera; mas todas essas qualidades e, na verdade toda a sua identidade como nação, são acumuladas e concentradas no último dos três nomes, que encerra mais do que apenas um significado literal.


Cura espiritual

O escritor romano Plínio descreve um tipo de samambaia chamada selago que os druidas gauleses usavam para efetuar curas mágicas e medicinais. Como a planta tem propriedades místicas e terapêuticas, ela devia ser colhida de acordo com determinados rituais. Antes de colher o selago, convinha fazer oferendas de pão e vinho, e qualquer um que pretendesse colhê-la devia vestir uma túnica branca e ficar descalço. Ela não podia ser colhida com nenhum utensílio de ferro, mas arrancada passando-se a mão direita através da manga esquerda da túnica. Se todas essas condições fossem atendidas, o amuleto feito de selago se tornaria um poderoso encantamento contra o mal.

César compara os deuses celtas da cura ao clássico deus solar Apolo, mas para os celtas o poder de cura não vinha do sol, mas do Outro Mundo, o reino da escuridão e do conhecimento. Dian Cecht, o médico dos Tuatha De Danann, que vive no Outro Mundo, é um dos mais famosos curandeiros do mundo celta. Depois da morte de Miach, filho de Dian Cecht, 365 plantas de cura brotaram em sua sepultura. Cada parte do corpo de Miach produziu uma erva diferente. Seu pai e sua irmã colheram as ervas e jogaram-nas num poço profundo chamado Tiopra Slaine. Durante a batalha de [114] Moytura, Dian Cecht e seus outros três filhos jogavam no poço os guerreiros Tuatha De Danann feridos, repetindo encantamentos sobre eles, e os guerreiros emergiam do poço com os ferimentos cicatrizados.

A maior proeza de Dian Cecht, no entanto, foi criar um braço de prata para Nuadu, rei dos Tuatha De Danann. Segundo a tradição, a Irlanda não podia ser governada por um rei mutilado, por isso a perda do braço faria com que Nuadu perdesse o trono num período crítico para o seu povo. Ao criar o braço, Dian Cecht realizou um ato de cura tanto física quanto espiritual, visto que ele salvou não só o rei, mas a própria instituição da realeza.

A estória da devastadora doença de Cuchulainn é um conto sobre as doenças e tristezas provocadas e curadas pelo conhecimento do Outro Mundo. Um dia, no festival de Samhain, Cuchulainn tenta capturar dois misteriosos cisnes, presos um ao outro por uma corrente de ouro. Para fugir, os pássaros começam a cantar uma canção mágica que faz com que Cuchulainn se encoste num pilar de pedra e caia no sono. Nesse sono encantado, ele sonha que duas mulheres vêm do Outro Mundo e [116] nele até fazê-lo perder os sentidos. Quando acorda, o herói vai para a cama e ali fica, em estado letárgico, durante um ano. Quando Samhain se aproxima novamente, ele volta ao pilar de pedra e as duas fadas surgem diante dele novamente. Dessa vez elas o convidam para acompanhá-las ao Outro Mundo, onde, caso derrote os inimigos do rei delas, ele terá o amor de Fand, uma mulher encantada, como recompensa. O herói concorda e as acompanha.

Cuchulainn cumpre sua parte do acordo no Outro Mundo e, como está enfeitiçado por Fand, ele a traz para viver entre os seres humanos. Contudo, Emer, a esposa de Cuchulainn, o repreende severamente pela sua infidelidade e a encantada é obrigada a deixá-lo. O herói fica inconsolável e vaga pelo mundo, ensandecido. Emer pede aos druidas que ajudem a curar seu marido e eles entoam encantamentos e feitiços para sanar sua loucura. Depois lhe dão uma poção do esquecimento, curando-o, por fim, da sua paixão pela mulher encantada. [117]


A sabedoria dos bardos

As palavras de Amergin - "Eu sou a palavra de sabedoria" (que significa "Sou poeta") - evocam a posição exaltada dos poetas e dos bardos no mundo celta. Os bardos são os guardiães da sabedoria tribal e, com a sua arte, eles preservam a própria identidade do seu povo. Os três privilégios concedidos a todos os bardos da Britânia são: ter abrigo e alimentação em qualquer lugar, ter as armas na bainha em sua presença e a palavra respeitada por todos.

O valor conferido às palavras de um poeta reflete a natureza sagrada do seu aprendizado, e as leis irlandesas estabelecem que o "preço de honra" do líder dos poetas, o ollamh, é igual ao do rei. Um dia, quando o druida Ollamhan, cujo nome significa "líder dos poetas", estava sentado ao lado do irmão, o Grande Rei Fiachna, ouviu-se o som de uma ventania. O druida profetizou que seu próprio filho, que estava prestes a nascer, seria considerado alguém à altura de Fiachna. O rei, enciumado, convocou a cunhada grávida e perguntou sobre a criança, mas ela não tinha conhecimento da profecia. Quando a criança nasceu, porém, o bebê recitou um poema. Fiachna, atônito diante da [118] sabedoria precoce da criança, aceitou o menino como seu igual e lhe conferiu a posição dos Ollamhan, poetas líderes.

A visão, ou introvisão, dos poetas celtas funciona em três níveis. Ela vê a sabedoria passada do seu mundo, propicia entendimento intuitivo do presente e possibilita a previsão do futuro. Martin Martin, historiador do século XVII oriundo da Ilha de Skye, conta que os poetas gaélicos da sua época aprendiam sua arte deitando-se na escuridão com uma pedra no peito. Essa meditação druídica ajudava a focar a mente e a afastá-la de todas as distrações. Com a ajuda dessa técnica, os bardos desse período, como os seus antepassados celtas, eram capazes de canalizar sua consciência de maneira que lhes permitissem compreender as complexidades da composição poética, os [119] códigos legais intrincados da época, e o conhecimento prático e oculto que sua vocação exigia que recordassem.

Ser bardo é uma vocação, um chamado, e aqueles a quem falta esse talento não podem adquiri-lo por meio do aprendizado. Existem muitas estórias fantásticas sobre como os bardos adquiriam seus talentos. A grande dinastia dos bardos irlandeses, os 0'Dalaighs, tem uma estória sobre seu ancestral Cearbhall 0'Dalaigh. Quando garoto, Cearbhall trabalhava para um fazendeiro que todos os dias perguntava ao menino se ele tinha visto alguma coisa fora do comum. O menino sempre negava, mas um dia ele viu uma nuvem baixar até uma moita de juncos, que foram devorados por uma vaca malhada. O fazendeiro disse a Cearbhall para que ele trouxesse o primeiro leite da vaca, mas o menino esparramou o leite sobre o próprio corpo. Imediatamente ele se transformou num poeta e passou a se exprimir apenas em versos perfeitos. O fazendeiro mandou-o embora e a fama de Cearbhall como bardo se espalhou, chegando até a Escócia, onde a filha do rei se apaixonou por ele. Como não aprovava o pretendente da filha, o rei fez tudo o que estava ao seu alcance para mantê-los afastados. No entanto, com uma doce canção ao som da harpa, Cearbhall induziu todos ao sono, menos a princesa, e os enamorados puderam finalmente ficar juntos.

Além dos bardos terem o poder de enfeitiçar as pessoas com palavras, eles também são capazes de infligir sofrimento - algumas das suas reprimendas podem causar dor física. E até os reis podem ser alvo de sua cólera. De acordo com o Livro das Invasões, Cairbre, o líder dos bardos dos Tuatha De Danann, compôs a primeira invectiva satírica já ouvida na Irlanda. Ela criticava o Rei Bres com tamanha virulência que o rosto do rei se cobriu de pústulas. Como as leis da soberania proibiam que um rei desfigurado governasse o país, o Rei Bres foi obrigado a abdicar. Essas intemperanças vieram à tona novamente num poema do século XV em que o líder dos bardos da Irlanda luta para conter a raiva: "Antes que a minha onda de fúria se avolume e queime as suas faces, eu levantarei a voz contra mim mesmo, embora vá me ferir..." As palavras de desagrado de um bardo, porém, normalmente causam desgraças na vida de suas vítimas. 

Fontes: Templo de Apolo, WOOD,Juliette.Guardiães da alma.in:__________.O Livro Celta da Vida e da Morte:Um guia ilustrado.São Paulo/SP:Pensamento,2011.Cap. 6.p.97-120