Dioniso / Baco - Deus da alegria, do vinho e da vegetação

30/07/2018

Trata-se, sem dúvida, de dois nomes importados, provavelmente da Trácia. Quanto a Dioníso, deus grego e não romano (o latim Bacchus que, à época da helenização de Roma e do sincretismo religioso greco-latino, suplantou o Liber dos latinos, é mera transliteração do grego Bákkhos); quanto a Dioníso, repetimos, que não aparece em Homero, Hesíodo, Píndaro e Ésquilo, somente surgiu na literatura grega no século V a.e.c. a partir de Heródoto e sobretudo no Édipo Rei de Sófocles.

Três outros epítetos de Dionisio, Iaco, Brômio, e Zagreu merecem igualmente um ligeiro comentário. Iaco, em grego (Íakkhos), é um avatar de Dioniso. Via-se nele o deus que conduzia a procissão dos Iniciados nos Mistérios de Elêusis e que era identificado misticamente com Dioníso. Etimologicamente, Iaco provém de (iakkhé), "grande grito". Trata-se, em princípio, de uma exclamação ritual, de que nasceu a idéia da presença, no cortejo dos Iniciados, de um daímon (gênio), o místico Iaco (o Iaco dos Mistério), que projetava, de certa forma, a alma coletiva e a expressão do entusiasmo de que era tomada, como antegozo da iniciação, a multidão dos peregrinos em marcha para Elêusis. Daímon de Deméter, Iaco era o Arkheguétes, o introdutor dos mistérios, como o denomina, com justiça Estrabão. Na comédia de Aristófanes, As Rãs, o Coro dos iniciados continua a invocá-lo na outra vida, como seu guia e corifeu.

BRÔMIO, em grego (Brômios), é um dos epítetos mais freqüentes de Dionisio nos hinos que imitam os cantos litúrgicos, entoados em seu culto. Do ponto de vista etimológico, (Brómios) se prende a (brómos), "estremecimento, frêmito, ruído surdo e prolongado", cuja fonte é o verbo (brémein), "fremir, agitar-se, onde Brômio é o "ruidoso, o fremente, o palpitante", significação que se harmoniza perfeitamente com a agitação e o tremor acompanhados de surdos rugidos, que assinalavam o estado de transe com a presença do deus que se apossou de seus adoradores.

ZAGREU, em grego (Dzagreús), é um dos nomes pelos quais é chamado o deus do êxtase e do entusiasmo no mundo mediterrâneo e particularmente, ao que parece, na ilha de Creta. Talvez o deus designe uma divindade, que, por força de analogias de seu culto com o de Dioniso, com este se tenha confundido, em época difícil de se precisar. Tendo-se tornado um dos nomes de Dioniso místico e, tendo permanecido religiosamente mais fiel ao Dioniso arcaico do antigo mundo insular, jamais se assimilou de todo ao "segundo Dioniso", que, era o filho de Sêmele.

A etimologia, já familiar aos antigos, do nome de Zagreu, como Grande Caçador, tão defendida por Wilamowitz, é de cunho popular. O deus, possivelmente, de origem ocidental, é chamado Zagreu sobretudo na Ásia Menor e em Creta. E se Zagreu, como epíteto, raramente aparece em textos da época clássica, seu nome, todavia, já é atestado desde o século VI a.e.c.. Ésquilo, em fragmentos de algumas de suas peças perdidas, faz de Zagreu o equivalente de Hades ou Plutão, ou mesmo seu filho, mas Eurípedes o menciona entre as divindades cultuadas por confrarias religiosas que ele supõe terem existido desde a época de Minos e cujos membros formam o coro de sua tragédia Os Cretenses. Esse Grande Caçador é um caçador noturno: o coro da tragédia citada dá-lhe o epíteto de nyktipólos, "noctívago", o mesmo que empregara Heráclito para designar os seguidores de Dioniso. A menção da omofagia, a alusão ao orgiasmo e ao culto da Grande Mãe, a qualificação de boieiro permitem adiantar que Eurípedes situava Zagreu numa atmosfera religiosa intencionalmente dionisíaca. Fundindo os dois, os Órficos hão de fazer de Zagreu o primeiro Dioniso.

Dioniso é o deus da (metamórphosis), quer dizer, o deus da transformação.

Até a década de 50, muitos pensavam e escreviam que Dioniso, deus importado, possivelmente da Trácia, havia chegado à Hélade quando muito lá pelo século IX a.e.c, uma vez que seu primeiro aparecimento teria sido na Ilíada, VI, 130-140, no famoso episódio de Licurgo, narrado por Diomedes. Este herói conta como Licurgo, filho de Drias e rei dos edônios, na Trácia, perseguiu a Dioniso e as suas nutrizes sobre o monte Nisa. Estas lançaram por terra seus tirsos e fugiram; o deus, ainda adolescente, mas já possuído da loucura sagrada, da mania, apavorado com as ameaças do rei, lançou-se ao mar, onde foi acolhido por Tétis. Os deuses, todavia, se encarregaram da vingança e Zeus cegou ao rei dos edônios.

Diga-se, logo, que a perseguição a Dioniso, sob a perspectiva mítica, faz parte de um rito iniciático e cacareco: a purificação pela água. Este é um dos temas bem atestados em quase todas as culturas primitivas. O episódio da perseguição aparece em determinados momentos das festas e cerimônias a que o filho de Sêmele presidia.

Plutarco, falando das Agriônias, festas "selvagens e cruéis" em honra de Dionísio, em Orcômeno, na Beócia, informa que, durante as mesmas, uma das Miníades (as primeiras Mênades ou Bacantes da tradição local) era sacrificada (simbolicamente, ao menos na época histórica) pelo sacerdote do deus. Dioniso e seu séquito corriam, perseguidos pelo sacerdote, em direção a um rio. Trata-se, como é óbvio, de uma alusão a alguma prática de banho ritual, como preliminar ou conclusão de uma cerimônia religiosa. Um mito da cidade tebana de Tanagra, conservado por Pausânias, atesta que as mulheres tinham por hábito purificar-se no mar, antes de se entregarem às orgias dionisíacas.

A perseguição de Dioniso por Licurgo insere-se e sintetiza, de outro lado, a perseguição à vítima sacrifical, rito em que o deus se apresenta, por vezes, em forma de touro ou de bode. Foi assim que Penteu, vítima da (mania), da loucura sagrada, como se há de assinalar, desejando acorrentar o deus, o vê sob a forma de touro, que não é outra coisa senão o próprio Dioniso dissimulado pela máscara.

As perseguições a Dioniso pelos piratas etruscos ou por Penteu, que, com seus soldados, precipitou o deus e suas "mulheres-do-mar" no fundo do pântano de Lerna, se inscrevem na mesma linha de raciocínio.

Se, porém, se analisar a perseguição de Licurgo e de Penteu sob um ângulo mais político, poder-se-á a ver em ambas, uma séria e longa oposição à penetração do culto de Dioniso na pólis aristocrática da Grécia Antiga.

Viu-se que o deus do êxtase e do entusiasmo, até mais ou menos a década dos anos 50, era considerado como uma divindade que chegara tardiamente à Hélade. Pois bem, a partir de 1952, as coisas se modificaram: é que a decifração de uma parte dos hieróglifos creto-micênicos por Michel Ventris, ou mais precisamente, a decifração da Linear B, consoante a classificação de Arthur Evans, demonstrou que o deus já estava presente na Hélade, pelo menos desde o século XIV ou XIII a.e.c., conforme atesta a tableta X de Pilos. Há de se perguntar por que um deus tão importante, já documentado no século XIV só se manifesta e de forma aparentemente grotesca, no século IX, e só a partir dos fins do século VII a.e.c. tem sua entrada solene na mitologia e na literatura? É quase certo que o adiado aparecimento de Dioniso e sua tardia explosão no mito e na literatura se deveram sobretudo a causas políticas. Dioniso é um deus humilde, um deus da vegetação, um deus dos campônios. Com seu êxtase e entusiasmo o filho de Sêmele era uma séria ameaça à polis aristocrática, à pólis dos Eupátridas, ao status que vigente, cujo suporte religioso eram os aristocratas deuses olímpicos.


O primeiro Dioniso  

Um deus importado não penetra na Grécia sem um batismo de ordem mítica. Consoante o sincretismo órfico-dionisíaco, dos amores de Zeus e Perséfone nasceu o primeiro Dioniso, chamado mais comumente de Zagreu. Preferido do pai dos deuses e dos homens, estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo, mas o destino decidiu o contrário. Para proteger o filho dos ciúmes de sua esposa Hera, Zeus confiou-o aos cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do Parnaso. Hera, mesmo assim, descobriu o paradeiro do jovem deus e encarregou os Titãs de raptá-lo e matá-lo. Com o rosto polvilhado de gesso, a fim de não se darem a conhecer, os Titãs atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos: ossinhos, pião, carrapeta, "crepundia" e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes num caldeirão e as devoraram. Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal. A nossa parte titânica é a matriz do mal, mas, como os Titãs haviam devorado a Dioniso, a este se deve o que existe de bom em cada um de nós. Na "atração, morte e cozimento" de Zagreu há vários indícios de ritos iniciáticos. Diga-se logo, que, sendo um deus, Dioniso propriamente não morre, pois que o mesmo renasce do próprio coração. A morte, desse modo, não afeta a imortalidade do filho de Zeus, onde provém, certamente, sua identificação com Osíris o "morto imortal" e com o imortal deus da morte, Plutão. Destarte, a "morte" de Dioniso nada mais é que uma Catábase seguida, de Imediato, de uma anábase.

De saída, cobrir o rosto com pó de gesso ou com cinzas é um rito arcaico de iniciação: os neófitos, como assinala Mircea Eliade, cobriam as faces com pó de gesso ou cinza para se assemelharem aos eídola, aos fantasmas, o que traduz a morte ritual. Em Atenas, durante os mistérios de Sabázio, "este outro Dioniso", um dos ritos iniciáticos consistia em aspergir os neófitos com pó ou com gesso. Demóstenes (384-322 a.e.c.), o maior orador da Hélade, em seu universalmente famoso discurso, A Oração da Coroa, 259, desdenha de seu adversário Ésquines, afirmando que o mesmo, para ajudar a mãe, que se ocupava de magia, ungia os iniciados com argila e farelo. Diga-se, aliás, de passagem, que por etimologia popular, se associou (titanos), "gesso", com (Titânes), "Titãs", o que de qualquer forma patenteia o complexo místico-ritual.

Quanto aos brinquedos, que são verdadeiros símbolos de iniciação, demarcando a idade infantil, por oposição aos sofrimentos da adolescência, que àquela se seguem, são atestados em muitas culturas. As crepundia, quer dizer, argolas de marfim ou pequenos chocalhos, que se colocavam no pescoço das crianças, os ossinhos e o pião tinham um sentido preciso: não existe teleté, isto é, cerimônia de iniciação, sem "determinados ruídos". Um deus se atraía e se atrai com flauta e tambores. Acrescente-se também que crepundia e ossinhos possuíam um decisivo poder apotropaico, pois repeliam influências malignas e demoníacas. Lúcio Apuleio, nascido por volta de 125 d.e.c., que foi um verdadeiro colecionador de iniciações no segundo século de nossa era e que se vangloriava de ser iniciado nos mistérios de Dionisio, fala de objetos misteriosos, usados por iniciados: a esses objetos o escritor dá o nome de crepundia. O espelho, a partir do qual, especulando, vemos o que somos e o que não somos, objeto muito comum em ritos iniciáticos, tem, entre muitas finalidades que se lhe atribuem, a de captar com a imagem, que nele se reflete, a alma do refletido. Olhando-se no espelho, Zagreu tornou-se presa fácil dos Titãs.


O Segundo Dioniso  

Zagreu voltou à vida. Atena, outros dizem que Deméter, salvou-lhe o coração que ainda palpitava. Engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dioniso. O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual fora Zeus quem engolira o coração do filho, antes de fecundar Sêmele. A respeito de Sêmele diga-se logo que se trata de uma avatar de uma Grande Mãe, que, decaída, porque substituída em função de grandes sincretismos operados no seio da religião grega, se tornou uma simples princesa tebana, irmã de Agave, Ino e Autônoe, todas filhas do legendário herói do ciclo tebano, Cadmo, e de Harmonia.

A Etimologia de (Seméle), Semelô, frígio (dzemelô), postulada por P. Kretschmer, com oriunda do traco-frígio, com o significado de "terra", é hoje normalmente aceita.

Tendo pois, engolido o coração de Zagreu ou fecundada por Zeus, Sêmele ficou grávida do Segundo Dionisio, Hera, no entanto, estava vigilante. Ao ter conhecimento das relações amorosas de Sêmele com o esposo, resolveu eliminá-la. Transformando-se na ama da princesa tebana, aconselhou-a a pedir ao amante que se lhe apresentasse em todo o seu esplendor. O deus advertiu a Sêmele de que semelhante pedido lhe seria funesto, uma vez que um mortal, revestido de matéria, não tem estrutura para suportar a epifania de um deus imortal. Mas, como havia jurado pelas águas do rio Estige jamais contrariar-lhe os desejos, Zeus apresentou-se-lhe com seus raios e trovões. O palácio da princesa se incendiou e esta morreu carbonizada. O feto, o futuro Dionisio, foi salvo por gesto dramático do pai dos deuses e dos homens: Zeus recolheu apressadamente do ventre da amante o fruto inacabado de seus amores e colocou-o em sua coxa, até que se completasse a gestação normal. Tão logo nasceu o filho de Zeus, Hermes, o recolheu e levou-o, às escondidas, para a corte de Átamas, rei beócio de Queronéia, casado com a irmã de Sêmele, Ino, a quem o menino foi entregue. Irritada com a acolhida ao filho adulterino do esposo, hera enlouqueceu o casal. Ino lançou seu filho caçula, Melicertes, num caldeirão de água fervendo, enquanto Átamas, com um venábulo, matava o mais velho, Learco, tendo-o confundido com um veado. Ino, em seguida, atirou-se ao mar com o cadáver de Melicertes e Átamas foi banido da Beócia. Temendo novo estratagema de Hera, Zeus transformou o filho em bode e manou que Hermes o levasse, dessa feita, para o monte Nisa, onde foi confiado aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros, que lá habitavam numa gruta profunda.

Através de um fragmento de Plutarco, concernente às antigas festas beócias da (Daídala) "Dédalas", com honra de Hera, ficamos sabendo que, em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dionisio. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente conseqüência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado Hera, a teléia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dioniso, o deus das orgias, dos "desregramentos". O mais sério é que tanto as orgias dionisíacas como as práticas coletivas das mulheres de Platéias, em homenagem a Hera Teléia, tinham por cenário o monte Citerão, o que inevitavelmente contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e aumentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais do Olimpo.


O Surgimento do Culto de Dioníso em Atenas 

Dioniso somente fez seu aparecimento solene e "oficial" na pólis de Atenas, assim como na literatura grega e, por conseguinte, na mitologia, a partir do século VI a.e.c. por que tão tardiamente, se, como se disse, o filho de Zeus e Sêmele já aparece "atestado" lá pelo século XIV a.e.c.? A explicação não parece difícil. Dioniso é um deus essencialmente agrário, deus da vegetação, deus das potências geradoras e, por isso mesmo, permaneceu por longos séculos confinado no campo. É que Atenas, até os fins do século VII a.e.c, foi dominada pelos Eupátridas, os bem-nascidos, os nobres, que, sendo os únicos que se podiam armar, eram igualmente os únicos que podiam defender a pólis, tornando-se esta propriedade dos mesmos. Assim, o governo, as terras, o sacerdócio, a justiça sob forma temística (expressa pela "vontade divina") somente a eles, aos Eupátridas, pertenciam de direito e de fato. Senhores de tudo, eram também senhores da religião. Seus deuses Olímpicos e patriarcais (Zeus, Apolo, Posídon, Ares, Atena...), projeção de segue regime político, em troca de hecatombes e de renovados sacrifícios, mantinham-lhes a pólis e o status que. A Pólis e seus Eupátridas eram politicamente guardados pelos imortais do Olimpo.

Somente no século VI a.e.c. com o enfraquecimento militar e, por conseqüente, político dos Eupátridas, balançados pela criação do sistema monetário (a terra até então era a forma principal de riqueza), pelo vertiginoso desenvolvimento do comércio, pelo descontentamento popular - a revolução era iminente, segundo expressa o grande Sólon em seus Iambos e Elegias - e sobretudo pela constituição do mesmo legislador, com sua famosa (seisákhtheia), inclusive acerca da reforma solonina, quando se lançaram em Atenas as primeiras sementes da democracia, é que o povo começou a ter certos direitos na pólis. As sementes da democracia frutificaram-se rapidamente, como é sabido, e de Sólon, passando por Pisístrato e depois por Clístenes, Efialtes e Péricles, a árvore cresceu e o povo teve, afinal, uma vasta sombra onde refugiar-se. Sua voz soberana se fez ouvir: era a ekklesia, a assembléia do povo. Com o povo e a democracia, Dionisio, de tarso em punho, seguido de suas Mênades ou Bacantes, suas sacerdotisas e acólitas, fez sua entrada triunfal na polis de Atenas.

A respeito dessa oposição feita à penetração do culto de Dionisio na Grécia escreveu Mircea Eliade: "qualquer que seja a história da penetração do culto dionisíaco na Grécia, os mitos e os fragmentos mitológicos que aludem à oposição encontrada têm uma significação mais profunda: eles nos informam ao mesmo tempo da experiência religiosa dionisíaca e da estrutura específica do deus. Dionisio devia provocar resistência e perseguição, pois a experiência religiosa, que suscitava, punha em risco todo um estilo de vida e um universo de valores. Tratava-se, sem dúvida, da supremacia ameaçada da religião olímpica e de suas instituições. Mas a oposição denunciava ainda um drama mais íntimo, e que aliás está abundantemente atestado na história das religiões: a resistência contra toda experiência religiosa absoluta, que só pode efetuar-se, negando-se o resto (seja qual for o nome que se lhe dê: equilíbrio, personalidade, consciência, razão, etc.)".

Poderia parecer estranho que um deus tão perseguido e tão distante dos demais deuses olímpicos tenha sido tão festejado na Hélade e sobretudo em Atenas, a polis que sempre buscou o equilíbrio apolíneo. Talvez se possa explicar o fenômeno levando-se em consideração dois fatos incontestáveis: a política de Pisístrato e, de modo particular, o esvaziamento e a transformação do conteúdo dionisíaco de algumas das festas que celebravam o deus do êxtase e do entusiasmo.

Na realidade, a política de Pisístrato (605-527 a.e.c.), que tanto fez por Atenas e por seu povo, buscou com afinco o nivelamento das classes sociais e a conciliação dos diversos cultos, tentando realizar uma verdadeira confraternização entre os deuses. Pois bem, foi a partir principalmente desse tirano que em Atenas se celebravam quatro grandes festas em honra do deus do vinho: Dionísias Rurais, Lenéias, Dionísias Urbanas ou Grandes Dionísias e Antestérias.

Dionisio é o deus da metamórphosis, o deus da transformação. Um dos mais profundos conhecedores da tragédia grega. A. Lesky, é taxativo a esse respeito: "O elemento básico da religião dionisíaca é a transformação. O homem arrebatado pelo deus, transportado para seu reino por meio do êxtase, é diferente do que era no mundo quotidiano".

Assim, se essa "transformação" operada no homo dionysíacus pelo êxtase e pelo inexoravelmente a romper com todos os interditos de ordem política, social e "religiosa", ela, ipso facto, ia de encontro aos postulados da polis, mesmo "democrática" e dos deuses olímpicos, que lhe serviam de respaldo. Ora, se a tragédia é uma liturgia e um verdadeiro apêndice da religião grega, como admiti-la, se o deus do Teatro, na ótica da pólis, é exatamente o "contestador religioso" da religião política dessa mesma pólis?

Sintetizando algumas das idéias expostas na obra célebre de Walter Otto, Dionysos, Mircea Eliade mostrou que o filho de Sêmele é realmente o deus da metamórphosis interna e externamente: bem mais que todos os imortais do Olimpo, "Dionisio assombra pela multiplicidade e pela novidade de suas transformações. Ele está sempre em movimento; penetra em todos os lugares, em todas as terras, em todos os povos, em todos os meios religiosos, pronto para associar-se a divindades diversas, até antagônicas (...) Dionísio é certamente o único deus grego que, revelando-se sob diferentes aspectos, deslumbra e atrai tanto os camponeses quanto as elites intelectuais, políticos e contemplativos, ascetas e os que se entregam a orgias. A embriaguez, o erotismo, a fertilidade universal, mas também as experiências inesquecíveis provocadas pela chegada periódica dos mortos, ou pela mania, pela imersão no inconsciente animal ou pelo êxtase do enthusiasmós - todos esses terrores e revelações surgem de uma única fonte: a presença do deus. O seu modo de ser exprime a unidade paradoxal da vida e da morte. É por essa razão que Dionisio constitui um tipo de divindade radicalmente diversa dos Olímpicos". Walter Otto mostrou bem como o deus do Teatro é capaz de múltiplas hierofanias: surge de repente e desaparece misteriosamente. Nas Agriônias, as festas solenes que se celebravam em sua honra na cidade Beócia de Queronéia, as mulheres, num dado momento, procurando-o por toda parte, voltavam com a notícia de que o deus havia regressado para junto das Musas. Mergulhava no lado de Lerna ou no mar e reaparecia, como no segundo dia das Antestérias, sobre uma embarcação. Todos esses desaparecimentos periódicos e hirofanias tinham por escopo mostrar que Dionisio é um deus da vegetação e, com efeito, suas festas mais populares se realizavam em função do calendário Agrícola. Como a semente, o deus morre para dar novos frutos. Todas essas ocultações e retornos, aparecimentos e ausências súbitas, traduzem o surgimento e o desaparecimento da vida, o ciclo da vida e da morte e, por fim, sua unidade.

Foi exatamente como deus da vegetação, da vida e da morte, que Dionisio celebrou um solene hieròs gámos com Ariadne, em torno de cuja união com o deus, na ilha de Naxos, se teceram narrativas romanescas. Uma delas se relaciona com o retorno de Teseu a Atenas, após eliminar o Minotauro. Tendo ajudado o herói ático a escapar do Labirinto de Cnossos, Ariadne, apaixonada pelo filho de Egeu, fugiu com ele. Quando o navio ateniense fez escala na ilha de Naxos, Teseu a abandonou, adormecida na praia, por amor a outra mulher. Diz-se ainda que foi em obediência a uma ordem dos deuses, que não lhe permitiram desposá-la. Embora em prantos, quando viu o navio de velas desfraldadas já fora da barra, logo se consolou com a chegada intempestiva de Dionísio e seu cortejo de Sátiros e Mênades. Fascinado pela beleza da jovem cretense, desposou-a e levou-a consigo para o Olimpo. Como presente de núpcias, deu-lhe uma diadema de ouro, cinzelado por Hefesto. Quando o casal chegou à mansão dos imortais, a diadema foi transformada em constelação.

De um ponto de vista simbólico, o deus da mania e da orgia configura a ruptura das inibições, das repressões e dos recalques. Na feliz expressão de Defradas, Dionisio "simboliza as forças obscuras que emergem do inconsciente, pois que se trata de um divindade que preside à liberação provocada pela embriaguez, por todas as formas de embriaguez, a que se apossa dos que bebem, a que se apodera das multidões arrastadas pelo fascínio da dança e da música e até mesmo a embriaguez da loucura com que o deus pune aqueles que lhe desprezam o culto". Desse modo, Dionisio retrataria as forças de dissolução da personalidade: a regressão às forças caóticas e primordiais da vida, provocadas pela orgia e a submersão da consciência no magma do inconsciente.


Dioníso oriental 

Dioníso (Baco) é a personificação do vinho. O seu culto, menos antigo que o dos demais deuses, revestiu-se de certa importância, à medida que se foi ampliando a cultura da vinha. Associou-se, então, a Demeter, e ambos foram honrados nas mesmas festas como príncipes soberanos da agricultura, "A Grécia antiga dos tempos primitivos, diz Ottfried Mueller, contentava-se de um Hermes fálico, como representação figurada desse deus; e a arte grega de todas as épocas conservou o hábito de erigir cabeças de Dioníso, sozinhas, ou até simples máscaras dessa divindade. O Hermes fálico foi em breve substituído pela figura soberba e majestosa do velho Dioníso; a cabeça está ornada de uma cabeleira magnífica cujas madeixas são seguras por meio de uma mitra, descendo a barba em linhas sinuosas, e respirando em todos os traços da sua fisionomia algo de aberto. O seu costume, de magnificência oriental, é quase o de uma mulher, e o deus segura geralmente nas mãos o rhyton e um pâmpano. Foi somente mais tarde, na época de Praxíteles, que do cinzel do escultor saiu o jovem Dioníso, representado e concebido com as feições de um efebo, ou de um adolescente em quem as formas do corpo, suavemente fundidas e sem musculatura bem acentuada, anunciam a natureza quase feminina do deus; as feições da fisionomia constituem uma singular mescla do delírio dionisiaco e de um ardor indeterminado, sem precisa finalidade.


Não confundir Dinoniso com Dionisio

Dionisio é nome de homem que significa «dedicado ao Deus Dioniso» 


Fontes: Templo de Apolo, BRANDÃO,Junito de Souza.Dioniso ou Baco: o deus do êxtase e do entusiasmo.in:__________.Mitologia Grega, v2.15ª Ed.Vol 2.Petrópolis/RJ:Vozes,2009.Cap. 4.p.113