Demeter - Deusa da vegetação e agricultura

30/07/2018

Consoante o historiador Heródoto 484-408 a.e.c., os cultos mais antigos de Demeter foram afogados pelas invasões dórias, a partir do século XII a.e.c. Ficaram, no entanto, alguns vestígios dessa fase antiga, particularmente na Arcádia, onde a deusa estava associada ao primitivo Poseidon, o Poseidon-cavalo, bem como em Elêusis. Nos arredores de Telpusa, querendo escapar dos deus, que a perseguia, disfarçou-se em égua, mas Poseidon, tomando a forma de um garanhão, fê-la mãe do cavalo Aríon e de uma filha, cujo nome só os iniciados conheciam. O povo chamava-a simplesmente (Déspoina), a Senhora. Foi por causa da cólera, provocada por essa violência de Posídon, que a mãe de Aríon passou a ser denominada também Demétir-Erínis. Recebeu, igualmente, o epíteto de Lúsia (a que se banha), pelo fato de ter-se purificado dos contatos do deus-cavalo no rio Ládon. Perto da Figalia, ainda na Tessália, chamavam-na (Mélaina), a Negra, porque, em seu ressentimento, cobriu-se com véus pretos e retirou-se para o fundo de uma caverna, onde sua estátua era encimada por uma cabeça de cavalo. Em Fêneo ainda havia traços de mistérios primitivos, celebrados num antro rochoso, onde o sacerdote tirava de um esconderijo uma máscara de Deméter, dita (Kidária), cobrindo o rosto e ferindo o solo com um bastão, rito destinado a provocar a fertilidade e evocar as forças ctônias.

O termo Grego (Kídaris) designa uma espécie de turbante e o sobrenome Kidária poderia derivar de máscara, mas deixa entrever que um coro bárbaro de sobrevivência zoomórfica não era estranho a esse culto primitivo. Ainda na Arcádia, as duas deusas, a dupla Deméter-Senhora, tinham características acentuadas de (Pótnia therôn), "Senhora das feras", associadas ao mundo animal e à fertilidade dos campos. Na região de Licúria (a montanha dos lobos) sua companheira era uma Artemis arcaica. À dupla se ofereciam frutos diversos e animais não degolados, mas despedaçados vivos. Em certos locais da Arcárdia, Artemis passava por filha de Deméter e um templo, consoante Pausânias lhes era dedicado em comum.

Um mito cretense, recolhido por Hesíodo, atesta que a grande deusa se uniu a Iásion sobre um terreno lavrado três vezes e que dessa ligação nasceu (Plutos). Existem algumas reminiscências de uma hierogamia à época das semeaduras e a Idéia desse tipo de união rústica se encontra talvez na Demeter de Olímpia, denominada Caminéia, isto é, "que está na terra". Sob esse epíteto se viu uma divindade oracular, mas que acabou sendo relacionada com o antigo hábito, segundo o qual o camponês e sua esposa dormiam sobre a terra que deveria ser cultivada, a fim de provocar a vegetação. Homero, na Odisséia, sem mencionar Pluto, refere-se à mesma tradição, ao dizer que o herói Iásion foi fulminado por Zeus, cujo mito olímpico, mais tarde codificado pelo mesmo Hesíodo, faz de Zeus esposo de Demeter, que dele teria tido Core, a jovem, ou Perséfone. Os sofrimentos por que passou a deusa, quando sua filha, com o consentimento e ajuda do pai, foi raptada por Diz, são relatados no importantíssimo Hino Homérico a Deméter, composto lá pelos fins do século VII a.e.c. e que, salvo um ou outro pormenor, pode e deve ser considerado como o (herós lógos), o "discurso sagrado" do Santuário de Elêusis. Nele a deusa augusta da terra é proclamada a maior fonte de riqueza e alegria. Com efeito, quando Demeter recuperou, por dois terços do ano, a companhia de Perséfone, a deusa devolveu (karpón pherésbion), o grão de vida, que ela própria, em sua cólera dolorosa, havia escondido.

Confiou-o, em seguida, a Triptólemo, que o Hino menciona apenas acidentalmente entre os chefes de Elêusis. Mais tarde este herói se tornará filho de Metanira e Céleo, rei de Elêusis. Triptólemo recebeu a missão sagrada de levar o grão de vida a todos os povos e ensinar-lhes a prática do trabalho. A esses dons a deusa de Elêusis acrescentou uma recompensa suprema: no templo que Céleo lhe mandou construir, exatamente no local em que se asilou, Demeter instituiu para sempre (órguia kalá, semná), belos e augustos ritos, penhor de felicidade na vida e para além da morte. Além do mais, as "duas deusas", mãe e filha, a todos os homens piedosos, que as cultuam, enviam-lhes Pluto, o deus da riqueza agrária.

Demeter é, pois a Terra-mãe, a matriz universal e mais especificamente a mãe do grão, e sua filha Core o grão mesmo de trigo, alimento e semente, que, escondida por certo tempo no seio da Terra, dela novamente brota em novos rebentos, o que, em Elêusis, fará da espiga o símbolo da imortalidade. Pluto é a projeção dessa semente. Se verdadeiramente o deus da riqueza agrária ficou eclipsado no Hino a Demeter pela evocação patética de Core perdida e depois "re-encontrada", uma estreita relação sempre existiu, desde tempos imemoriais, entre os cultos agrários e a religião dos mortos, e é assim que o rico em trito, Pluto, acabou por confundir-se com outro rico, o rico em hóspedes, (polydégmon), que se comprimem no palácio infernal. Pois bem, esse rico em trigo, com uma desinência inédita, se transmutou, sob o vocábulo (Plúton), Plutão, num duplo eufemístico e cultural de (Hádes).

Fundamentalmente agrário, o culto de Demeter está vinculado ao ritmo das estações e ao ciclo da semeadura e colheita para produção do mais precioso dos cereais, o trigo.

Deusa maternal da Terra, sua personalidade é simultaneamente religiosa e mítica, bem diferente, já se salientou, da deusa Géia, concebida como elemento cosmogônico. Divindade da terra cultivada, a filha de Crono e Réia é essencialmente a deusa do trigo, tendo ensinado aos homens a arte de semeá-lo, colhê-lo e fabricar o pão. Tanto no mito quanto no culto. Demeter está indissoluvelmente ligada à sua filha Core, depois Perséfone, formando uma dupla quase sempre denominada simplesmente As Deusas. As aventuras e os sofrimentos das Deusas constituem o mito central, cuja significação profunda somente era revelada aos Iniciados nos Mistérios de Elêusis. Core crescia tranqüila e feliz entre as ninfas e em companhia de Artemis e Atena, quando um dia seu tio Diz, que a desejava, a raptou com o auxílio de Zeus. O local varia muito, segundo as tradições: o mais correto seria a pradaria de Ena, na Sicília, mas o Hino homérico a Demeter fala vagamente da planície de Misa, nome de cunho mítico, inteiramente desprovido de sentido geográfico. Outras variantes colocam-no ora em Elêusis, às margens do rio Cefiso, ora na Arcádia, no sopé do monte Cilene, onde se mostrava uma gruta, que dava acesso ao Diz, ora em Creta, bem perto de Cnossos. Core colhia flores e Zeus, para atraí-la, colocou um narciso ou um lírio às bordas de um abismo. Ao aproximar-se da flor, a Terra se abriu, Diz apareceu e a conduziu para o mundo ctônio.

Desde Então começou para a deusa a dolorosa tarefa de procurar a filha, levando-a percorrer o mundo inteiro, com um archote aceso em cada uma das mãos. No momento em que estava sendo arrastada para o abismo, Core deu um grito agudo e Demeter acorreu, mas não conseguiu vê-la, e nem tampouco perceber o que havia acontecido. Simplesmente a filha desaparecera. Durante nove dias e nove noites, sem comer, sem beber, sem se banhar, a deusa errou pelo mundo. No décimo dia encontrou Hécate, que também ouvira o grito e viu que a jovem estava sendo arrastada para algum lugar, mas não lhe foi possível reconhecer o raptor, cuja cabeça estava cingida com as sombras da noite. Somente Hélio, que tudo vê, e que já, certa feita, denunciara os amores secretos de Ares e Afrodite, cientificou-a da verdade. Irritada Contra Diz e Zeus, decidiu não mais retornar ao Olimpo, mas permanecer na terra, abdicando de suas funções divinas, até que lhe devolvessem a filha.

Sob o aspecto de uma velha, dirigiu-se a Elêusis e primeiro sentou-se sobre uma pedra, que passou, desde então a chamar-se pedra sem alegria. Interrogada pelas filhas do rei local, Céleo, declarou chamar-se Doso e que escapara, há pouco, das mãos de piratas que a levaram à força, da ilha de Creta. Convidada para cuidar de Demofonte, filho recém-nascido da rainha Matanira, a deusa aceitou a incumbência. Ao penetrar no palácio, todavia, sentou-se num tamborete e, durante longo tempo, permaneceu em silêncio, com o rosto coberto por um véu, até que uma criada, fê-la rir, seus chistes maliciosos e gestos obscenos. Demeter não aceitou o vinho que lhe ofereceu Metanira, mas pediu que lhe preparassem uma bebida com sêmola de cevada, água e poejo, denominada (kykeón), cuja fonte é o verbo (kikân), "agitar de modo a misturar, perturbar agitando", onde ciceon, além de "mistura", significa também "agitação, perturbação". Trata-se, ao que parece, de uma bebida mágica cujos efeitos não se conhecem bem.

Encarregada da educação do caçula Demofonte, "o que brilha entre o povo", a deusa não lhe dava leite, mas, após esfregá-lo com ambrosia, o escondia, durante a noite, no fogo, "como se fora um tição". A cada dia, o menino se tornava mais belo e parecido com um deus. Demeter realmente desejava torná-lo imortal e eternamente jovem. Uma noite, porém Metanira descobriu o filho entre as chamas e começou a gritar desesperada. A deusa interrompeu o grande rito iniciático e exclamou pesarosa: "Homens ignorantes, insensatos, que não sabeis discernir o que há de bom ou de mal em vosso destino. Eis que tua loucura te levou à mais grave das faltas! Juro pela água implacável do Estige, pela qual juram também os deuses: eu teria feito de teu filho um ser eternamente jovem e isento da morte, outorgando-lhe um privilégio imorredouro. A partir de agora, no entanto, ele não poderá escapar do destino da morte". Surgindo em todo seu esplendor, com uma luz ofuscante a emanar-lhe do corpo, solicitou, antes de deixar o palácio, que se lhe erguesse um grande templo, com um altar, onde ela pessoalmente ensinaria seus ritos aos seres humanos. Encarregou, em seguida, Triptólemo, irmão mais velho de Demofonte, de difundir pelo mundo inteiro a cultura do trigo.

Construído o santuário, Demeter recolheu-se ao interior do mesmo, consumida pela saudade de Perséfone. Provocada por ela, uma seca terrível se abateu sobre a Terra. Em vão Zeus lhe mandou mensageiros, pedindo que regressasse ao Olimpo. A deusa respondeu com firmeza que não voltaria ao convívio dos Imortais e nem tampouco permitiria que a vegetação crescesse, enquanto não lhe entregassem a filha. Como a ordem do mundo estivesse em perigo, Zeus pediu a Diz que devolvesse Perséfone. O rei dos Infernos curvou-se à vontade soberana do irmão, mas habitualmente fez que a esposa colocasse na boca uma semente de romã e obrigou-a a engoli-la, o que a impedia de deixar a outra vida. Finalmente chegou-se a um consenso: Perséfone passaria quatro meses com o esposo e oito com a mãe.

Reencontrada a filha, Demeter retornou ao Olimpo e a terra cobriu-se, instantaneamente de verde. Antes de seu regresso, porém a grande deusa ensinou todos os seus mistérios ao rei Céleo, a seu filho Triptólemo, a Díocles e a Eumolpo "os belos ritos, os ritos augustos que é impossível transgredir, penetrar ou divulgar: o respeito pelas deusas é tão forte, que embarga a voz".

A instituição dos Mistérios de Elêusis explica-se, pois, pelo reencontro das duas deusas e como conseqüência do fracasso da imortalizarão de Demofonte.


Tipos e Atributos de Demeter 

Demeter, entre os gregos Demeter, é a Terra personificada, irmã e esposa de Júpiter, de quem teve uma filha, Perséfone (Koré) que, por sua vez, personifica mais especialmente a vegetação. Mas Demeter é a terra considerada na sua fecundidade; às vezes, assimila-se ao próprio trigo. como Dioníso-Liber se assimila ao vinho. Cícero, no seu Tratado da natureza dos deuses, cuida de nos prevenir que se trata, ali, simplesmente de uma forma de linguagem. "Quando damos, diz ele, ao trigo o nome de Demeter, ao vinho o de Líber, empregamos uma linguagem recebida ; mas, na realidade, qual é, neste mundo, o tolo bastante tolo para acreditar que o que come é uma parte de um deus?"

Vários escultores famosos, entre outros Praxíteles, fizeram a estátua de Demeter; mas dispomos hoje de pouquíssimas obras autênticas, representando a imagem de tal deusa. Os nossos museus possuem. É verdade, grande número de estátuas mutiladas, às quais, na restauração, se deram os atributos de Demeter, papoulas e uma coroa de espigas; mas as verdadeiras Demeter são raríssimas, e o tipo da deusa nos é sobretudo conhecido pelas pinturas de Herculanum. As duas figuras que reproduzimos são famosas. As atribuições das esculturas são muito menos certas. Algumas das estátuas que trazem o nome da deusa são, contudo, notabilíssimas : entre as mais famosas, devemos citar a Demeter colossal e a Demeter Borghese. A atribuição desta não é duvidosa, pois uma parte da coroa de espigas é antiga, mas a extrema mocidade da deusa parece convir antes a Perséfone e não a Demeter.

"Essa deusa, diz Ottfried Muller, reveste o caráter de mulher mais matrona e mãe que Hera; a expressão do rosto oculto na parte traseira pela veste de baixo erguida até a cabeça ou um simples véu possui algo de mais doce e terno ; ela somente se mostra envolta em vestes amplas e longas, únicas vestes que convêm à mãe universal. A coroa de espigas, a papoula e as espigas entre as mãos, a coroa de frutos, e o porco colocado ao seu lado, são os sinais que fazem com que a reconheçamos sem a menor sombra de dúvida. Não é raro ver Demeter sentada num trono, sozinha ou tendo a filha ao lado; no entanto, geralmente, estamos habituados a vê-la espalhar por toda parte a abundância, dando grandes passadas pela terra. O desenvolvimento mais amplo do caráter de Demeter depende, na arte como no culto, da maneira pela qual é encarada nas suas relações com a filha. No rapto de Perséfone, é concebida e representada como divindade profundamente irritada, que persegue o raptor da filha, tendo fachos nas mãos, as vestes flutuantes ao vento, num carro umas vezes puxado por cavalos, mas com maior freqüência por dragões. Não devemos confundir com esse rapto, obra da violência, a descida anual de Perséfone aos infernos e a separação de sua mãe. A ascensão de Perséfone aos céus e a sua introdução no seio das divindades do Olimpo, às vezes, em companhia das Horas e da Primavera, constituem interessante oposição com as cenas precedentes."

Por vezes é dificílimo distinguir Demeter de sua filha Perséfone, pelo motivo de se lhe darem os mesmos atributos; é, pois, simplesmente pelo seu ar de mocidade que reconhecemos Perséfone. Se as estátuas autênticas dessas duas divindades são raras, a sua imagem aparece em grande número de medalhas da Magna Grécia e da Sicília. Várias dessas medalhas, e notadamente as de Siracusa, são classificadas entre as obras-primas da arte antiga. Convém notar que as medalhas de Perséfone estão, às vezes, acompanhadas de três delfins.

As espigas formam o principal atributo de Demeter; no entanto, dá-se-lhe também a popoula. Narra Ovídio qua deusa se servira da papoula para curar as insônias do filho de Celeus, por quem fora acolhida, mas alguns filósofos dão causa inteiramente outra a esse atributo de Demeter. Segundo eles, a redondeza da cabeça da papoula representa o mundo, as suas desigualdades as montanhas e os vales, enquanto a multiplicidade das suas sementes é emblema da fertilidade.

O porco aparece às vezes ao lado da deusa. Numa medalha de Elêusis, Demeter está sentada no seu carro puxado por duas serpentes aladas e segura algumas espigas na mão direita; no reverso, vemos uma porca prenhe que parece ser aí um símbolo de fecundidade. Entretanto, dá-se às vezes desse emblema uma razão mitológica. Ovídio narra que, tendo alguns porcos destruído os vestígios do rapto de Perséfone por Plutão, cresceram os obstáculos à procura de Demeter. Virgílio diz também que, tendo esses animais devastado as colheitas de Triptolemo, este agarrou-os e sacrificou-os à deusa. É por tal motivo que nas festas de Elêusis se sacrificavam porcos a Demeter.


Honras Prestadas à Demeter  

"Demeter foi a primeira em lavrar a terra com o arado; a ela é que se deve a produção dos frutos, do trigo e de tudo quanto serve de nutrimento aos homens. Foi a primeira em lhes dar leis, e todos os bens que possuímos são presentes dessa deusa. Foi Demeter que obrigou os touros a abaixar a cabeça sob o jugo e a sulcar a superfície rebelde do solo. É por isso que os ministros do seu culto afastam do boi a faca assassina, e imolam, em seu lugar, a porca preguiçosa." (Ovídio).

"A deusa quer que o homem trabalhe, e muitos são os sacrifícios que se prendem à cultura dos campos. A ferrugem funesta corrói as espigas; o cardo inútil prejudica os campos; as colheitas perecem sob uma floresta de ervas daninhas; e no meio dos mais belos campos, domina freqüentemente o detestável joio. Se o infatigável ancinho não atormentar incessantemente a terra, se um contínuo ruído não afugentar as aves, se os teus votos não atraírem chuvas salutares, em vão contemplarás as riquezas de um vizinho; ser-te-á preciso, para acalmar a fome, sacudir o carvalho das florestas." (Virgílio).

Um baixo-relevo antigo nos mostra uma família de camponeses levando uma oferta a Demeter. O pai e mãe, precedidos de um menino que traz um cesto de frutos, conduzem à presença das deusas da agricultura uma porca que lhes vai ser imolada. Demeter, com o módio, símbolo de fecundidade, e segurando uma pátera, está de pé perto da filha Perséfone que, por sua vez, segura um feixe de espigas.

Os pobres que não pudessem oferecer aos deuses vítimas naturais, levavam-lhes pelo menos simulacros. É o que se vê nos epigramas votivos da Antologia : "Meus bois, pois lhes devo o pão que me nutre, perdoa, ó Demeter, ofereço-te feitos de massa. Permite que os meus verdadeiros bois vivam, e replena-me os campos de feixes, concedendo-me assim, em troca, os teus mais abundantes benefícios, visto que sou lavrador teu. Vejo brilhar o quarto ano além de outros oitenta, e se nunca tive colheitas coríntias, jamais conheci a dura pobreza sem espigas e sem pão."

"Esta foice de bronze que abre os sulcos e desfaz os torrões, este alforje de pele de boi, um aguilhão para

instigar a parelha, uni cabo de arado com a sua cavilha são as ofertas que consagra a Demeter o lavrador Calimene, após ter revolvido o solo fertilizado de um campo baldio. ó deusa, se me concederes uma abundante colheita, oferecer-te-ei também uma foice."


As Festas de Eleusis 

As festas de Elêusis, em honra a Demeter, eram célebres na antiguidade. O chefe do colégio de sacerdotes, chamado hierofante, tinha por missão dirigir a santa cerimônia, e iniciar nos mistérios da deusa.

Usavam os iniciados longas túnicas de linho, e os cabelos eram levantados e ligados com cigarras de ouro. Esse costume especial era o das épocas primitivas e relembrava, assim a época em que os mistérios foram instituídos; a tradição era tanto mais venerada pelo fato de as próprias deusas terem, noutros tempos, participado dos mistérios do seu culto. Toda o cerimonial dos mistérios estava inscrito em quadrinhos colocados nos santuários, e era figurado em pinturas místicas.

As festas duram vários dias, e até várias noites, pois os iniciados são despertados para irem às procissões noturnas, onde caminham dois a dois em silêncio e segurando archotes. De repente, a marcha precipita-se, e, lembrando-se das corridas de Demeter através do mundo, entregam-se a rápidas evoluções sacudindo os archotes que freqüentemente passam um ao outro, e que é símbolo da luz divina purificadora das almas; com ele os iniciados se comunicam, iluminando-se mutuamente com a mesma chama. De dia há festas de todo gênero, e sobretudo lutas atléticas, que se encontram em todas as cerimônias religiosas dos gregos; o prêmio do vencedor é uma medida de cevada, colhida no próprio campo da deusa que ensinou os homens a cultivar.

O sexto dia é o mais brilhante da festa, aquele no qual os iniciados conduzem de Atenas a Elêusis, e seguindo a via sagrada, a estátua de Iaco, o filho da deusa: o deus é coroado de mirto e segura um facho. Acompanha-o imensa multidão, pois naquele dia toda Atenas se encontra na via Sagrada. Trinta mil pessoas seguem o cortejo, acompanhando com hinos a música dos instrumentos. A grande procissão pára em diferentes lugares, onde as jovens a recebem executando em terno dos altares danças sagradas em honra da deusa.

O rito da iniciação abrangia cenas mímicas e simbólicas, em que os sacerdotes e os iniciados representavam, numa espécie de drama religioso, toda a lenda de Demeter e de Perséfone, o rapto da jovem, a dor de Demeter, e as suas buscas através do mundo para descobrir o paradeiro da filha. Demeter era, então, chamada mãe das dores, e durante a realização do mistério, instrumentos de bronze imitavam os seus clamores e gemidos. As cenas de alegria sucediam-se aos gemidos, quando Perséfone era descoberta. Os iniciados, obrigados a descrever penosos circuitos nas trevas, presa de terrores que produziam vozes confusas e desconhecidas, voltavam a encontrar-se no meio das mais esplêndidas luzes, no meio dos coros de dança e das harmonias sagradas. Aquelas mudanças à vista, as repentinas transições da treva à luz, da dor à alegria, representavam para os iniciados a passagem do sombrio Tártaro às beatitudes do Elísio, e tornavam-se, dessarte, símbolo da imortalidade da alma e da ventura prometida aos justos.

A imortalidade da alma era representada pela metamorfose do grão de trigo, que posto na terra, onde parece destinado a apodrecer, renasce à vida sob forma de nova espiga Perséfone levada ao seio da terra ali permanece durante seis meses, e, ao rever a luz na primavera, representa maravilhosamente essa espiga; a tristeza do mundo durante o inverno está representada pelos gemidos de Demeter, a terra, que chora a filha desaparecida. Perséfone, a vegetação.

Terceira personagem se une nos mistérios de Elêusis, a Demeter e a Perséfone. É o jovem Iaco, o mesmo que Zagreus, ou Dioníso místico. É filho de Júpiter e de Demeter, irmão e noivo de Perséfone, e representa o vinho, como Perséfone representa o pão. Aparece quase sempre sob forma de um deus menino; assim é que está representado numa terracota antiga, onde o vemos entre Demeter e Perséfone. Tornaremos a falar dele quando chegados a Dioníso Tebano, com o qual tem sido identificado.

Fontes: Templo de Apolo, BRANDÃO,Junito de Souza.A segunda geração divina: Crono e sua descendência.in:__________.Mitologia Grega, v1.18ª Ed.Vol 1.Rio de Janeiro/RJ:Vozes,2009.Cap. 13.p.283-290