Berchta - A senhora branca

12/07/2018

Nas lendas da Alemanha, Áustria e Suíça encontramos reminiscências dessa antiga deusa, que, junto com sua equivalente - ou irmã - Holda, foi ridicularizada com a caricatura da bruxa feia e malvada, voando sobre uma vassoura. Enquanto o mito e os atributos de Holda foram preservados, Berchta ficou conhecida apenas como a Senhora Branca ou a Mulher Elfo, que flutuava sobre os campos, coberta com seu manto cinzento de neblina.

Berchta era uma deusa da fertilidade - dos campos, das mulheres, dos animais domésticos - cujo nome significava "brilhante". Ela regia a tecelagem, a fiação, os arados e o tempo, trazendo neve, névoa, granizo ou chuva. Era descrita como uma mulher velha, com roupas velhas e cinzas, cobertas às vezes com um manto branco, cabelos desgrenhados e grisalhos, rosto enrugado e olhos brilhantes de um azul vivo. Berchta podia ser gentil, presenteando as tecelãs esforçadas com fios de ouro e novelos de linho de boa qualidade, ou raivosa, quando punia as preguiçosas. Assim, como Holda, ela inspecionava as rodas de fiar e os teares, desmanchava os trabalhos mal feitos, quebrava fusos ou espetava as mulheres com seu fuso. Em conjunto com Holda, regia os "12 dias brancos", e era comemorada no solstício de inverno com panquecas, leite e mel. Berchta aparecia principalmente no inverno percorrendo o mundo em uma carruagem puxada por um bode; durante o intervalo de tempo a ela dedicado - os 12 dias brancos - era proibido o uso de qualquer veículo ou instrumento com rodas ou movimentos giratórios.

Em seu aspecto de Senhora Branca, Berchta protegia os espíritos das crianças não nascidas, abrigando-as no seu poço encantado, de onde saíam para ajudá-la a cuidar dos brotos de arvores e das flores, molhando as plantas com pequenos regadores, a espera da sua reencarnação. Considerada a ancestral da família real alemã, a Dama Branca aparecia no palácio antes de uma morte ou infortúnio, uma crença tão arraigada, que, mesmo no século XIX, eram noticiadas suas aparições fantasmagóricas.

Assim como o personagem do Papai Noel (sendo considerada sua precursora) ou a deusa romana Befana, Berchta era uma figura misteriosa, que trazia presentes ou punia, vivendo ora nas montanhas e vales nevados, ora aparecendo no meio da neblina dos lagos no verão. Durante o inverno ela fiava e recompensava os pastores que tinham levado para ela nos meses de verão oferendas de linho para ela tecer, lima das suas manifestações sombrias era Stempe, simbolizando o amassar do linho com os pés ou o pisotear daqueles que a tivessem ofendido ou a punição das crianças colocadas no seu saco.

Perchta tinha varios nomes dependendo da região da Alemanha ou a época do seu culto, que era parecido com o da escandinava Holda. Holanda era conhecida como Vrou Elde, regente da Via Láctea. Era descrita às vezes tendo um pé grande e deformado semelhante ao de ganso ou cisne, a marca deixada pelo uso excessivo da roda de fiar, ou indicio da sua capacidade de metamorfose nessas aves, voando junto delas. Seus adeptos lhe deixavam comida e bebida, pedindo em troca fertilidade e prosperidade. A igreja proibiu o culto e as oferendas para esta "bruxa perigosa e nociva para a alma cristã", mas guardou resquícios do seu simbolismo na lenda de Santa Luzia e do Papai Noel. Na Escandinávia Berchta era equiparada a Huldra, que aparecia acompanhada de um séquito de ninfas da floresta, que, ocasionalmente, procuravam a companhia de homens para dançar. As ninfas - ou Huldrefolk - eram identificadas pelo rabo de vaca que aparecia sob as suas vestes brancas e eram conhecidas como protetoras do gado nos pastos das montanhas.

A denominação de Perchten (no plural) foi dada às acompanhantes de deusas anciãs como Perchta e suas equivalentes (as eslavas Baba Yaga, Pehta Baba, a alemã Saelde ou Selga e a etrusca Befana) e às máscaras com feições de animais, que continuavam sendo usadas até hoje nas regiões montanhosas da Austria e Suiça. Essas máscaras fazem parte dos costumes tradicionais de Natal, nas festas realizadas em Salzburgo, Suíça, Tirol e Áustria, além de serem usadas como fantasias no Carnaval, decorações e enfeites nas lojas destinadas aos turistas nas estações de esqui.

No século XVI as Perchten receberam duas apresentações: as benévolas e bonitas (Schöne Perchten) adornadas com fitas, folhagens, flores e correntes douradas e as escuras, malévolas e feias (Finster Perchten) com garras, presas afiadas, chifres, peles de animais pretos e rabos de cavalo. Encenava-se um combate ritualístico chamado Perchtenjagd entre os dois grupos almejando a vitória da luz sobre a escuridão, enquanto homens vestidos como as "Perchten escuras" passavam pelas casas fazendo muito barulho para afastar fantasmas e maus espíritos. As pessoas eram abençoadas pelas "Perchten luminosas" com uma mistura de cinzas e fubá, simbolizando o poder de regeneração da vida após a morte, ritualizando assim o triunfo da força vital e da luz sobre os poderes negativos, do caos, da escuridão e da morte.

No fim da Idade Média, um mito comum se espalhou do norte ao sul e do leste a oeste da Europa. Era a descrição da procissão de espíritos (de seres vivos ou dos mortos) conduzidos por uma anciã e que aparecia nas noites de Walpurgis, Samhain e Yule (respectivamente a véspera dos dias de 12 de maio, 31 de outubro e Natal). A condutora tinha nomes diversos, cavalgava um corcel negro com olhos de brasas e sua passagem por cima de uma casa era um mau augúrio. Até o ano de 1500 as pessoas deixavam oferendas de comida e bebidas para Perchta (ou Bertha) "com nariz de ferro", para obter a sua benevolência e proteção e evitavam sair nas noites da Caça Selvagem, para não serem por ela arrastados.

Resquícios dessa crença permaneceram nas fantasias usadas nos "12 dias brancos": máscaras com bicos de aves, pessoas cobertas com peles de animais, soprando cornetas ou batendo tambores e pratos, para afastar os maus espíritos, assustar as crianças e torná-las obedientes. Às vezes o antecessor de Papai Noel -Nicholas - aparecia junto, carregando um saco para levar presentes às crianças boazinhas ou levar nele as indisciplinadas. A procissão das Perchten devia visitar todas as casas e passar pelos campos para atrair a fertilidade da terra com encenações de danças e encantamentos.

Fontes: Templo de Apolo, Norse Mythology