Balder - O mais amado dos deuses

12/08/2018

Baldur é um arquétipo intrigante do panteão nórdico, seu destino sendo entrelaçado com o de Loki, tendo poucos registros sobre um eventual culto organizado dedicado a ele. Sua importância se resume à sua morte provocada pelo Loki e à fracassada tentativa de trazê-lo de volta a vida, bem como à sua ressurreição no Ragnarök participando junto com outros deuses da construção de um novo - e melhor - mundo. Alguns estudiosos tentam defini-lo como um deus da fertilidade, cuja morte e renascimento seguem o ciclo das estações, ou como um deus solar celebrado no solstício de verão, a sua morte pressagiando o aumento da escuridão e a chegada do inverno. No entanto, nem a morte, nem o renascimento de Frey, são associados ao plantio, à colheita ou à abundância da terra, elementos básicos do seu mito e culto. No Prose Edda Frey é visto como a personificação do bem martirizado pelo mal, sendo, portanto um deus sacrilicial, cuja morte anuncia o fim do mundo e a sua volta acontecendo após a purificação.

Na descrição de Saxo Grammaticus, Baldur aparece como um herói, semi­deus e filho de Odin, que disputa junto com o deus cego Hódur a mão da bela Nanna. Hódur é avisado das investidas amorosas de Baldur por algumas Vaiquírias e armado com uma espada mágica e o anel da fortuna (Draupnir, que pertence a Odin) cruza armas com ele e depois de várias lutas fere mortalmente seu rival (ajudado pelas mesmas Valquírias, que lhe fornecem o alimento mágico que sustenta Baldur). Odin gera um filho com a giganta Rind, Vali (que vingará a morte de Baldur). Nessa versão, Baldur aparece como um guerreiro poderoso e forte e não uma vítima, o nome Baldur sendo equivalente ao "Senhor" (assim como o de Frey). É possível que antes da versão cristianizada que o apresenta como um jovem pacífico e inocente, Baldur representasse o jovem herói guerreiro (semelhante aos guerreiros descritos em várias lendas). Mesmo jovem e inocente, Baldur teve visões e sonhos que o alertaram sobre a sua morte iminente, mas sem saber como ela iria acontecer. Um fato relevante e o autor da sua morte, seu irmão cego Hódur, cuja mão é guiada pelo invejoso Loki e que tambem lhe entrega a flecha mortal, confeccionada com uma planta mágica (visco).

Em outra interpretação, essa lenda representa uma iniciação de guerreiros no culto de Odin, em que o neófito ficava no meio de um círculo de homens que lhe atiravam diversos tipos de armas. Odin aparece com a íorma de Hódur e ao jogar a flecha de visco, o neófito cai no chão, possivelmente em um estado de transe, do qual acorda "renascido" no meio do grupo de guerreiros. Para compreendermos melhor a extensão e as implicações do arquétipo de Baldur, devemos conhecer o seu mito na totalidade, conforme foi relatado por Sturluson, baseado nas sagas islandesas.

Baldur era filho de Odin e Frigga, amado e admirado por todas as divindades de Asgard por ser belo, bondoso, gentil, compassivo, eloquente, justo e resplandecente, um contraste evidente com seu irmão gêmeo Hódur, um ser sombrio, taciturno e cego. Baldur personificava bondade, inocência e luz radiante, Hódur, escuridão e ignorância. Baldur tornou-se adulto com uma espantosa rapidez e foi recebido ainda jovem no concílio dos deuses, onde passou a revelar seu conhecimento mágico através das runas e da cura pelas plantas. Ele morava em Breidablikk, um lugar puro e luminoso, num templo com teto dourado e pilares prateados, junto com sua esposa Nanna, uma encantadora deusa, porem pouco conhecida, cujo nome significava "flor". Baldur era descrito como um jovem louro, com olhos azuis e irradiando uma aura dourada ao seu redor. O seu mito é dividido em vários episódios que foram condensados por Sturluson em tres partes: sua morte, seu funeral e a tentativa de resgatá-lo do mundo dos mortos e a punição de Loki pela sua morte.

O mito começa com sonhos repetidos e presságios nefastos recebidos por Baldur que o deixavam triste e deprimido. Para preservá-lo de qualquer mal, Frigga - mesmo sabendo que o destino traçado pelas Nornas era imutável - age com seu amor materno e pede a todas as criaturas, animadas ou não, de todos os reinos da natureza e de todos os mundos, que façam votos se comprometendo em não prejudicar seu amado filho. Porém, Frigga esqueceu-se de incluir o modesto e escondido visco, e ao descobrir seu esquecimento o ignorou, acreditando ser inofensivo.

Para comprovar a invulnerabilidade de Baldur foi feito um teste: ele foi colocado em um círculo formado pelos deuses, cada um deles jogando vários tipos de armas, paus e pedras na sua direção, mas ele permaneceu ileso, para a alegria de todos.

Enquanto isso, Odin decidiu consultar uma profetisa acerca do destino do seu filho. Montado no Sleipnir, ele atravessou a ponte Bifrost e seguiu caminho até o reino de Niflheim, onde atravessou o portal guardado pelo feroz cão Garm e penetrou no escuro reino da deusa Hel. Com surpresa ele constatou que o lugar tenebroso estava sendo preparado e decorado para uma grande festa. Sem saber a razão, procurou o corpo inerte de uma renomada vala (profetisa) e, entoando encantamentos rúnicos, despertou o espírito da vidente do sono da morte e lhe fez várias perguntas, sem revelar sua identidade. Consternado, ele soube que o motivo da festa era a chegada de Baldur, junto com sua esposa Nanna - por ter sido morto pelo seu irmão cego Hódur. Indagando o que fazer para vingar esse ato cruel e inimaginável, a vala lhe disse que deveria gerar um filho com a giganta Rind e que seria este filho, Vali, o vingador da morte de Baldur. Sem dar mais detalhes, a vala mergulhou novamente no sono letal e, sabendo que as leis de orlóg não podiam ser mudadas, Odin voltou triste para Asgard, mas sabendo das providências tomadas por Frigga, ficou aliviado, esperando que o mal pudesse ser evitado.

Porém o destino traçado continuou o seu curso inexorável. Como Loki ficou aborrecido com a invulnerabilidade de Baldur, ele procurou saber se não havia uma possível brecha na sua defesa. Disfarçou-se em uma velha e armou uma armadilha para Frigga que lhe contou - sem perceber quem era a velha -ter esquecido de pedir o juramento do visco. Imediatamente Loki confeccionou uma flecha de um ramo de visco e procurou o deus cego Hódur, atiçando-o para participar da brincadeira dos deuses. Hódur era um ser retraído, sombrio e solitário devido à cegueira e por isso recebeu o convite de Loki com alegria, aceitando que ele guiasse sua mão para lançar a flecha, que acabou matando o brilhante e inocente Baldur. Esse fato afetou profundamente todos os deuses, que sem poder vingar a injusta morte - por ter acontecido no local sagrado de Asgard - iniciaram os preparativos para o funeral de Baldur.

Ainda lutando para reavivar seu filho, Frigga pediu que um dos deuses fosse até o reino de Hel e pedisse o retorno de Baldur. O deus Hermod se ofereceu como mensageiro e cavalgando Sleipnir chegou à ponte de Gjallar guardada por Mordgud pedindo permissão para passar. No sombrio salão de Hel ele viu com consternação o espírito do seu irmão, Baldur, que lhe confirmou a impossibilidade da sua volta ao reino dos - vivos. Mesmo assim, Hermod implorou a sua libertação à deusa Hel, que concordou desde que fosse cumprida a sua condição: "que todas as criaturas chorassem a morte de Baldur e implorassem por sua volta". Cheio de esperança Hermod levou essa boa nova aos deuses reunidos em Asgard, que imediatamente lançaram esse apelo a todos os cantos e recantos dos mundos. Porém, Loki novamente interferiu com outro gesto de maldade: disfarçado como uma velha escondida em uma gruta, chamada Thokk, recusou-se a derramar uma lágrima sequer e disse que "por ela, Baldur jamais iria voltar à vida".

Com essa recusa, mas decisiva, os deuses começaram a preparação da pira funerária de Baldur, assentada sobre o convés do seu navio Ringhorn, decorado com guirlandas de flores, armas e oferendas de valor, conforme a tradição. Todos os deuses começaram a se despedir do seu amado companheiro, mas quando sua esposa Nanna foi abraçá-lo, ela caiu fulminada pela dor da sua perda, sendo colocada na pira ao lado do seu consorte. Os deuses ofertaram na pira funerária objetos valiosos, Odin colocando seu próprio anel mágico Draupnir. Na hora de lançar o navio na água, o peso não permitiu seu deslocamento e apenas com a ajuda da giganta Hyrrokin - que chegou cavalgando um lobo e usando uma coleira de serpentes -conseguiram empurrar o navio e atear fogo à pira. Os deuses acompanharam com tristeza as chamas que engoliam o navio e tudo que nele existia, transformando o céu e o mar em uma imensa projeção de luz incandescente.

Quando os deuses descobriram que a inveja e maldade de Loki tinham causa­do a morte do bondoso e lindo deus, decidiram que tinha chegado o momento de acabar, em definitivo, com suas ações maléficas. Após várias peripécias e manobras conseguiram finalmente prendê-lo e mantê-lo em cativeiro, ate o Ragnarök. Enquanto isso a profecia da vala consultada por Odin tornou-se realidade: o seu filho gerado com a giganta Rind matou Hódur com uma flecha, recebendo o título de Vali (guerreiro), "o vingador" e retificando dessa maneira o crime cometido com o sangue conforme escrito no código de honra nórdico.


Análise do mito

As diferenças entre as versões desse mito devem-se às interpretações feitas por historiadores a partir de antigas lendas e sagas. Alas alguns elementos são comuns como: a importância dos sonhos e presságios, a viagem de Odin para receber orientações do reino de Hel (técnica usada nas sessões de Seidhr), a importância dos encantamentos mágicos, a retificação de um crime com a punição dos culpados. Existem diferenças na relação dos atributos e funções de Baldur, visto como deus solar (associado com a jornada solar e reverenciado nos solstícios), deus da vegetação (sem muito respaldo histórico) e acima de tudo e sempre - como o mensageiro do Novo Mundo, que surgirá após a purificação pelo Ragnarök e assumirá o lugar do seu pai.

Uma explicação física desse mito pode ser vista no pôr do sol (simbolizando Baldur) quando o astro-rei mergulha no mar ou na terra ao ser perseguido pela escuridão, ou no final do curto verão escandinavo quando se inicia o longo reinado do frio e da escuridão. A morte de Baldur representa a vitória da escuridão e do inverno sobre o calor e a luz do verão; a vingança de Vali anuncia o retorno da luz após a derrota da escuridão. A morte de Baldur não é uma descida no desespero e na dor, mas uma medida do destino para promover o conflito final e a renovação após o Ragnarök, com a sua volta do reino de Hel, acompanhado pelo seu irmão Hódur, que foi perdoado por ter sido apenas uma peça na complexa trama cósmica.

As lágrimas derramadas por todos descrevem o degelo na primavera, apenas a velha Tokk não demonstra ternura ou compaixão, por ela simbolizar o carvão das entranhas da terra escura, que não precisa da luz solar. Das profundezas do submundo, Baldur (o sol) e Nanna (a vegetação) tentam alegrar Odin (o céu) e Frigga (a terra) enviando-lhes o anel Draupnir (emblema da fertilidade) e o tapete florido (o desabrochar da plantas). Baldur simboliza a alegria e a esperança da alma no renascimento, que segue após os inevitáveis testes, desafios, injustiças e sofrimentos da vida. Baldur e Hödur são personificações das forças do bem e do mal, da luz e da sombra, enquanto Loki é o trapaceiro, um mestre disfarçado atuando através de tentações, desafios e testes, um verdadeiro agente da transformação e renovação.

A celebração de Baldur era no solstício de verão, quando ele descia para o mundo subterrâneo e sua volta acontecia no solstício de inverno. Atualmente ele é celebrado nas festas juninas, com fogueiras e danças.

Fontes: FAUR,Mirella.O princípio masculino. Os deuses e seus mitos.in:__________.Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.São Paulo/SP:Cultrix,2011.Cap. 4.p.188-