Aton - A personificação do sol

16/07/2018

Aton protagoniza o mito da criação de Heliópolis. O seu nome em egípcio era Itemu, o que significa "Totalidade" ou "Estar completo". Inicialmente associado à terra, Aton passa a estar ligado ao sol, sendo entendido como uma manifestação deste ao entardecer. Era representado como um homem barbado usando a coroa dupla do faraó e menos freqüentemente, como uma serpente usando as duas coroas do Alto e do Baixo Egito. Era considerado o rei de todos os deuses, aquele que criou o universo. É o mesmo deus Rê ou Rá que gerou Chu o ar e Tefnut a umidade. Aton e Rê ou Rá, foram mais tarde unidos ao deus carneiro de Tebas Amon e ficou conhecido pelo nome de Amon-Rê ou Amon-Rá. Recentemente foi descoberto nas catacumbas do IAGA o suposto filho de Aton (ITEMU), Latarius, que teria participado na criação do universo com Aton, Latarius ficou apenas com o estatuto de servidor de Jonas, a sua função exacta até hoje é desconhecida pelas antigas inscrições egípcias.


Hino à Aton

Apareces belo no horizonte do céu, / ó Aton vivo, criador da vida! / Quando te ergueste no horizonte oriental, encheste toda a terra com a tua beleza. / Es gracioso, grande, resplandecente / e estás muito acima de todas as terras. / Os teus raios iluminam as terras / até ao limite de tudo o que criaste. / Es como Rá, chegas ao limite de todos os países, que unes para o teu filho que amas. / Embora estejas longe, os teus raios chegam à terra. Embora todos te vejam, ninguém conhece o teu percurso. / Quando desapareces no horizonte ocidental,
a terra Fica na escuridão, como morta. / Os homens dormem nos seus quartos, com a cabeça tapada. Ninguém vê os olhos do outro. / Podem roubar todos os bens / guardados debaixo das suas cabeças, / que eles não darão por nada! / Todos os leões saem das suas cavernas, / todas as serpentes mordem. / A escuridão é um manto, e a terra está em silêncio, porque o seu criador repousa no horizonte.

Mas na aurora, quando te ergues no horizonte, quando brilhas como disco solar durante o dia, afastas a escuridão e lanças os teus raios. Então as Duas Terras ficam em festa, acordadas e erguidas sobre os seus pés, porque tu as fizeste levantar.
Lavam os seus corpos e vestem as suas roupas.
Os seus braços erguidos adoram o teu aparecimento. Todas as pessoas vão trabalhar.
Todos os animais se alegram nas suas pastagens. As árvores e as plantas florescem.
Os pássaros voam dos seus ninhos
e as suas asas abertas adoram o teu ka.
Todos os animais saltitam,
e tudo o que voa e tudo o que anda sobre patas vive quando te ergues para eles.
Os barcos rumam para norte e para sul, porque os caminhos se abrem quando apareces. Os peixes no rio movem-se na tua direcção, porque os teus raios chegam ao fundo das águas.

És tu que amadureces a semente na mulher,
que produzes o sémen no homem,
que dás vida ao filho no ventre da mãe
e o acalmas para não chorar mais.
Tu és a ama no ventre materno,
que dás a respiração para fazer viver tudo o que crias. Quando a criança sai do ventre para respirar,
no dia do seu nascimento,
abres-lhe a sua boca e cuidas do seu sustento. Quando o pintainho no ovo já pia dentro da casca, dás-lhe a respiração lá dentro para o manter vivo. Quando lhe dás força para partir o ovo,
ele sai do ovo e pia quando é chegado o tempo,
e corre nas suas patinhas, mal saído da casca.

Quão numerosas são as tuas obras
e quão escondidas do entendimento do homem. Ó deus único, fora do qual não há nenhum! Criaste a terra, de acordo com o teu desejo, só tu, com homens, gado e animais selvagens,
com tudo o que na terra existe e anda sobre pés,

com tudo o que há no ar e voa com as suas asas, os países da Síria e da Núbia, a terra de Kemet [Egito]. Pões cada um no seu lugar e cuidas do seu sustento. Cada um tem o seu alimento,
e o seu tempo de vida está fixado.
As suas línguas são diferentes
e as suas características também.
As suas cores de pele são distintas,
porque tu distingues os povos.

Criaste o Nilo no abismo.
Faze-lo surgir segundo o teu desejo,
para dar vida aos homens do Egipto,
uma vez que os criaste para ti próprio.
Senhor de todos eles, que cuidas deles,
senhor de todas as terras, que brilhas para elas. Senhor do dia, grande em glória!
Dás também a vida a todos os países distantes,
pois fizeste um Nilo no céu
que desce para eles como chuva
e cria torrentes nos montes como um mar,
para regar os seus campos e as suas cidades.
Quão perfeitos são os teus planos, ó senhor da eternidade! O Nilo do céu é para os povos estrangeiros
e para todos os animais que andam sobre patas.
Para o Egipto vem o verdadeiro Nilo do abismo.

Os teus raios alimentam todos os campos, quando brilhas, eles vivem e crescem para ti. Fizeste as estações do ano para que se desenvolva tudo o que criaste. O Inverno, para refrescá-los,
e o calor, para que eles te possam saborear. Fizeste o céu distante para nele te ergueres e para veres tudo o que criaste.
Quando estás só, brilhando
na tua forma de Aton vivo, aparecendo radiante, distante ou próximo, fazes milhões de formas a partir de ti próprio. Cidades, povoados, campos, o curso do rio,

Todos os olhos te vêem lá em cima,
pois tu és Aton do dia sobre a terra.
Mesmo depois de te teres posto,
perm aneces no meu coração.
Não há outro que te conheça,
a não ser o teu filho Neferkheperuré-Uaenré. Fizeste com que ele fosse instruído
nos teus caminhos e no teu poder.
O mundo surgiu pela tua mão, como tu o criaste. Quando te ergues, eles vivem;
quando te pões no horizonte, eles morrem.
És a própria duração da vida,
porque só se vive através de ti.
Todos os olhos fixam a tua beleza, até te pores. Todo o trabalho acaba quando desces no Ocidente, e quando nasces de novo, tudo floresce para o rei.

Tudo se move desde que criaste a terra
e a ergueste para o teu filho, que saiu do teu corpo, o rei que vive pela maet, senhor das Duas Terras, Neferkheperuré-Uaenré,
o filho de Rá que vive pela maet, senhor das coroas, Akhenaton, grande no seu tempo de vida,
e a grande esposa real, que ele ama, senhora das Duas Terras, Neferneferuaton Nefertiti, que viva para sempre.

Notas

Este famoso e belo hino, que reflecte afinal o espírito cosmopolita e humanista da XVIII dinastia, em que todos os seres humanos se apresentam como criaturas do deus solar, dirige-se a três entidades: o deus Ré-Horahhti, de quem Aton, o astro vivo, é a manifestação visível, ao rei Akhenaton e a sua esposa Nefertiti, completamente associada à função monárquica (B. Alathieu). De facto, o hino termina com a nomeação de Akhenaton (com o seu sintomático prenome de Neferkheperuré-Uaenré) e da rainha Nefertiti (indicada também pelo prenome de Neferneferuaton).

São habitualmente sublinhadas as claras semelhanças de várias passagens do hino atoniano e o salmo 104 da Bíblia, mas tais correspondências devem ser vistas como uma comunhão de pensamento, que de resto nem coincidem no tempo. São antes cumplicidades culturais de duas civilizações aparentadas e geograficamente vizinhas, sem que exista uma interdependência específica (M. Lichtheim).

Além das habituais comparações com o salmo bíblico, o hino a Aton apresenta passagens que se inspiraram claramente em anteriores hinos a Amon. É o que se confirma, comparando com o capítulo 9 do hino amoniano contido no Papiro de Leiden 1-350, acima transcrito, e que, pela sua reconhecida importância em termos de exercício comparativo, aqui se repete:

Ele brilha para os que estão a dormir, os defuntos, para iluminar os seus rostos sob uma outra forma. Os olhos brilham, as orelhas estão abertas. Todos os corpos se vestem, assim que ele brilha. O céu é de ouro; o Nun, de lápis-lazúli.
A terra resplandece sob a turquesa quando ele se ergue.

Os deuses vêem os seus templos abertos.
Os homens começam a ver quando ele aparece. Todas as árvores se movem em direcção à sua face. Elas voltam-se para a sua pupila
e as suas folhas abrem-se.
Os peixes saltam na água e agitam-se de amor por ele nas suas poças.
Todo o gado miúdo cabriola na sua face.
Os pássaros batem as asas, porque o reconhecem quando ele atinge o seu momento de plenitude. Eles vivem, porque o vêem todos os dias.

Fontes: ARAÚJO, Luís Manuel de. Hino à Aton. in:__________. Mitos e Lendas: Antigo Egipto. Lisboa/PT: Livros e Livros, 2005. p.97-102.

ANET, pp. 369-371, e a d e M. Lichtheim, AEL, II, pp. 96-100. Entre outras traduções mencionam as de F. D aum as, La Civilisation de LEgypte Pharaonique, pp. 289-292; P. Grandet, HyninesdelaReligiondAton,pp. 99-119; B. Mathieu, «Le Grand Hymne à Aton», em Egypte,Afrigueet Orient, 13, pp. 35-44; e J. Jyldesley, Taledfrom Ancient Egypt, pp. 171-178. Há também uma versão portuguesa em L. Araújo, «Aton», em Dicionário do Antigo Egito, pp. 122-125.