As Cores dos Pássaros - Mitologia Norte-Americana

16/11/2019

Nos tempos antigos, na época em que o mundo era pequeno, o Velho Coiote resolveu dar um jeito nas aves. Ele andava aborrecido porque todos os pássaros tinham as mesmas cores, sempre em tons de marrom, os mesmos formatos, e suas vozes soavam todas iguais. E apesar de o Velho Coiote já ter matutado muito sobre o problema, não sabia o que poderia fazer a respeito. Numa manhã muito quente, passeando junto às margens do rio Porco-espinho, um afluente do rio Yukon, parou e se inclinou junto às águas para matar a sede; e foi então que viu o corvo voar ali por perto, gritando "craw, craw" com sua voz rouca.

Resmungando sobre a voz do corvo, que considerava horrenda, o Velho Coiote bebeu água e passou os olhos pelas pedrinhas à beira do rio. Algumas eram vermelhas, outras azuis; havia as esverdeadas e as cinzentas. Ao ver que não havia dois seixos iguais, ele exclamou:

- É isso! Agora sei exatamente o que fazer!

Na tarde seguinte, o Velho Coiote chamou todas as aves e explicou-lhes qual era seu plano. Ele criaria 61 novas e diferentes roupagens para todos eles, e assim nunca mais haveria confusão entre os pássaros.

- Cada um de vocês será belo - declarou ele. - Os pássaros pequeninos terão cores brilhantes, como os menores seixos do riacho. As grandes aves ficarão elegantes e imponentes, como as rochas nos penhascos acima dos rios.

Todos gostaram bastante da ideia e foram se organizando em filas para não perder nada do que iria acontecer. Iam pousando na beira do rio, nos galhos dos salgueiros, nas margens e nas rochas, ansiosos para ganharem suas novas roupagens. Apenas o Corvo não estava satisfeito. Ficou saltando entre os grupos de aves, murmurando contra o Velho Coiote, assegurando-se para que o Velho não o ouvisse resmungar pelo canto do bico. Mas o outro não prestou a mínima atenção aos resmungos; já estava trabalhando.

Os primeiros a ganharem novas cores foram os pássaros canoros, os menores e mais agitados. O Coiote foi usando pequenos pincéis e colocando um toque de vermelho aqui, um pouco de azul ali, asas verdes para uns e capuzes negros para outros.

Todos estavam interessados e adorando a agitação, chilreando sem parar, chegando perto para ver a pintura. O beija-flor pairou tão próximo do Coiote que levou uma pincelada.

- Saia daí e me deixe trabalhar! - o pintor reclamou, acidentalmente manchando o beija-flor com tinta carmim; desde então esse pássaro tem manchas cor de rubi no pescoço.

O tempo passava e o número de aves aumentava sem parar. O Velho Coiote resolveu usar pincéis maiores e começou a trabalhar mais depressa; o tordo ficou parcialmente vermelho e o azulão ganhou muitos tons de azul. Enquanto isso, o Corvo continuava descontente. As vezes ia mexer nas tintas e pegava um pouco de uma, um pouco de outra, e levava para longe, querendo examinar melhor as cores. Mas o Coiote continuava a não lhe dar atenção.

Quando foi hora de pintar as grandes aves, como falcões e águias, as cores estavam tão misturadas que eles foram coloridos em tons de marrons e cinzas; e quando restavam os cisnes e gansos, o pintor encontrou apenas tinta branca, e eles tiveram de se contentar com essa cor.

Ao terminar, o Velho Coiote pousou os pincéis; estava cansado, mas feliz com sua primeira tentativa de colorir. Foi então que o Corvo resolveu ir cutucá-lo.

- Você não me pintou - resmungou ele, sempre rouco.

- Não, sinto muito. Minhas tintas acabaram - foi a resposta do Coiote. - Não posso fazer nada por você.

O Corvo não se conformou.

- Pois eu não quero ficar marrom como antes, agora que todas as aves são coloridas! Acho que vou pintar a mim mesmo.

E, para espanto do Coiote, revelou que, enquanto este pintava, ele fora pegando bocados de várias cores para experimentar. Vendo que o outro não parecia zangado com ele, trouxe as tintas de volta e começou a fazer exigências.

- Eu já estou acostumado com o marrom, essa cor pode colorir as penas do meu corpo, mas gostaria de ter a cabeça mais vermelha que a do pica-pau.

O Coiote tentou não se irritar com a ousadia do Corvo. Tomou seus pincéis e coloriu da forma pedida, mas quando a ave foi se olhar no espelho das águas do rio, não gostou. 

Voltou para o pintor e pediu:

- Quero um círculo cor de laranja ao redor do pescoço, e as asas bem verdes.

Ainda sem dizer nada e tentando ser paciente, o Coiote o atendeu.

E quando a ave se olhou no reflexo das águas mais uma vez, detestou o que viu.

- Isso está horrível! E melhor pintar minhas cos­tas de azul e o resto de branco; o marrom é mesmo muito sem graça.

Porém, após mais uma etapa de pintura, ao olhar seu reflexo nas águas do rio, o Corvo voltou furioso.

- Como você fez com que os pássaros ficassem tão bonitos, e me deixou deste jeito? Estou parecendo um arco-íris estúpido! Faça alguma coisa!

O Velho Coiote, a essa altura, estava cansado de aturar tantas ofensas.

- O que quer que eu faça? - perguntou, muito irritado. - Só restou um último tom de tinta, quer que eu use esse ?

O Corvo, fora de si, berrou:

- Claro! E impossível ficar pior do que está, seu velho tolo!

Ninguém jamais chamara o poderoso Coiote de tolo.

- Pois muito bem! - desabafou ele, furioso. - A partir de hoje, você terá uma única cor: suas penas serão negras, e desta cor ficará para sempre! Será assim até que o mundo acabe, até que os rochedos desabem e que todos os peixes morram! Até que o Velho Homem do Rio corra pelo leito seco do rio Porco-espinho, levando num balde feito de casca de bétula as últimas gotas de água da Terra.

É por isso que, enquanto os pássaros têm tantas cores, o Corvo tem apenas uma.

Povo Yukon

O rio Yukon nasce no Noroeste do Canadá, e vai desaguar no Mar de Bering após atravessar parte do Alaska. O vale em que ele corre, chamado Vale do Yukon, deu nome a um território canadense e a seu redor se desenvolveram muitos povos nativos, falantes da linguagem Athapascana ou Atabascana, inclusive os Kutchin, os Nahani, os Hare e vários outros grupos.

Tradicionalmente, esses povos viviam entre as florestas e a tundra, e às vezes se deslocavam para buscar caça e melhor temperatura. Em tempos antigos viviam da caça do búfalo, do caribu e do salmão.

Os mitos dos povos Athapascanos do Yukon são inúmeros, e consta que seus anciães sempre foram grandes contadores de histórias. Na mito­logia dessa região incluem-se contos etiológicos sobre a forma como as coisas foram feitas, e como se tornaram diferentes - como esta, sobre as cores das aves. É dito ainda que muitos dos seus mitos são semelhantes aos de povos moradores do outro lado do Estreito de Bering, na Sibéria - o que alguns acreditam ser prova de que a origem dos povos indígenas americanos está mesmo na Asia.