A Torre de Babel

04/08/2018

Durou pouco tempo a nova trégua estabelecida entre Deus e suas criaturas. Nem bem havia secado a última poça de água do devastador Dilúvio e já os descendentes de Noé haviam começado a reincidir alegremente na prática do mal. Espalhados pelo mundo, os filhos de Sem, de Cam e de Jafé construíram grandes civilizações, tão adiantadas materialmente quanto eram atrasadas espiritualmente (segundo a ótica do Senhor). Uma dessas civilizações era a babilônica, cuja capital era a cidade de Babel, lugar onde viviam seres muito industriosos, porém pouco morais. Naqueles distantes dias, todos os povos falavam a mesma língua, pois ainda era recente a época em que haviam coabitado sob as mesmas tendas. E, sendo fácil a comunicação, igualmente fácil era fazer circular toda a espécie de ideias soberbas. O ser humano, como que renascido das águas, sentia-se senhor do seu destino. A velha estória do castigo divino havia sido relegada a condição de fábula, da qual se riam os homens abertamente pelas ruas da grande cidade erguida sobre a planície de Shinear.

- Que Deus, que nada! - diziam os potentados, dos quais os grandes construtores eram os maiorais. - Basta dessas bobagens! O que vale é construir, construir cada vez mais!

Empolgados por um frenesi construtivista, espalhavam-se canteiros de obras por toda parte, e o que mais se via em toda Babel eram andaimes espalhados pelos ares, repletos de formigas humanas com seus instrumentos de trabalho.

- Vamos lá, temos de entregar ainda este mês este maldito palácio! - berravam os construtores, de chicote em punho.

Ao mesmo tempo, circulavam pela corte as mais extravagantes ideias. Tomados pela inveja, ao saberem que os egípcios haviam erguido uma monumental pirâmide para louvar o seu faraó corrupto (a célebre pirâmide de Gizé), os babilônios decidiram erguer um majestoso zigurate - palavra suméria que significava 'pináculo' - para homenagear os governantes e os deuses do seu pais.

- Pirâmide alguma chegará aos pés de nossa elevada torre - dissera um dos construtores ao rei da Babilônia. - Será tão imensamente alta que tocará os portões do céu e dilúvio algum poderá submergi-la.

Os babilônios também pretendiam que o topo da torre fosse a habitação do deus Marduk, divindade suprema que haviam criado para substituir o velho Yahweh de Noé, divindade arcaica que os tempos modernos, empreendedoristicos e amorais haviam tomado obsoleta.

- O grande Marduk estará instalado em um enorme aposento, no topo d ozigurate, onde receberá as oferendas de seus fiéis - dissera o mesmo construtor.

Aprovado o projeto audacioso, o rei deu a ordem para que começassem as obras imediatamente. Em poucos dias, a construção, que mais parecia um vasto cupinzeiro, já havia crescido de maneira espantosa. Ultrapassando em muito o tamanho do maior dos palácios existentes, elevava-se cada dia mais, de tal sorte que em um mês já não se podia mais divisar seu topo.

Todos os dias um mensageiro corria ao rei para levar a notícia do andamento da prodigiosa obra.

- Já tocou o céu? - perguntava o soberano. - Ainda não, alteza, mas já alcança as nuvens - dizia o leva-e-traz. - Redobrem, então, os trabalhos, até que perfure o céu - dizia o rei, ávido de realizar o inédito prodígio. No outro dia, nova remessa de material era enviada para o local da construção. Juntamente com mais alguns milhares de homens. Famílias inteiras estavam entregues à tarefa exaustiva; muitas centenas de pessoas morriam no duro afã de escalar as escadas que conduziam até o pináculo, atravancando os degraus, e acabavam sendo arremessadas do alto para desobstruir os caminhos que levavam ao céu.

Os milhares de andaimes, suspensos por um verdadeiro emaranhado de cordas, subiam e desciam como pequenos elevadores de madeira, levando aos céus homens e materiais, e era uma verdadeira festa quando os trabalhadores se cruzavam, e então irrompiam os gritos, cumprimentos e brincadeiras que uns dirigiam aos outros.

Depois de uma certa altura, dependendo do clima que reinava no dia, era impossível enxergar-se algo embaixo, e era, então, como se os trabalhadores estivessem a construir um palácio sobre as nuvens.

- Até onde isto nos levará? - perguntavam-se, invariavelmente.

E assim foi até que o Senhor, tomando conhecimento da grande irrisão, perdeu finalmente a paciência diante do atrevimento daquelas formigas.

- Então ajuntam-se todos sob uma mesma língua para desafiar o meu poder?! - disse Deus, enfurecido.

Decidido a colocar um ponto final em tanta soberba, o Senhor fez, então, com que descesse sobre toda a terra dos babilônios uma grande confusão.

Era a manhã de mais um dia de trabalho na grande torre de Babel. Os operários, espremidos em seus andaimes, começavam a ser suspendidos outra vez para as nuvens, enquanto, pelas escadarias, milhares de trabalhadores galgavam exaustivamente os infinitos degraus. Os feitores e capitães-de-obra acompanhavam o serviço, impedindo por todos os meios que a preguiça se introduzisse na alma dos assentadores de tijolos.

O dia começara nublado, mas não foi assim por muito tempo, já que de repente o sol surgiu no horizonte, banhando a construção com seus raios ofuscantes.

- Bfofé liziu diguritu, fegumibe! - disse um feitor a outro, com o semblante alegre. (Na verdade, ele dissera: "Vamos ter um lindo dia de sol!", e o que reproduzimos não era, naturalmente, o novo idioma que surgira, senão a tradução figurada de como ela soara aberrantemente aos ouvidos do outro.)

- Hunji-kinjú? - perguntou o companheiro. ("Como é que é?') Os dois olharam-se com o pasmo estampado no rosto. Então um dos feitores, ao perceber dois operários que conversavam- e que também não conseguiam se entender de modo algum -. Os interrompeu com uma chicotada no lombo.

- Plotatunda, fadú! - disse o feitor, enfurecido ("Ao trabalho, ralé!") Entre os andaimes a coisa se repetia. Por toda parte a desinteligência estava instalada. Não havia duas pessoas que se entendessem entre si, de tal sorte que um alarido infernal ergueu-se em poucos minutos em todos os andares da construção. Homens agarrados às barbas dos outros tentavam fazer-se entender a qualquer custo.

A verdade é que Deus, decidido a impedir o avanço da obra blasfema, decidira também poupar, por esta vez, as suas criaturas da sua fúria sanguinária (pois não lhe custaria nada fazer ruir a torre inteira, sepultando em seus escombros toda a legião de obreiros), fazendo simplesmente com que as línguas se embaralhassem num caldeirão de idiomas diferentes e ininteligíveis.

A partir daquele dia, não houve mais quem se entendesse em toda a Babel. Dispersos pelo mundo, seus construtores foram buscar outros lugares para viver, fundando comunidades onde pudessem se desentender no mesmo idioma. A torre gigantesca, por sua vez, abandonada como lugar de maldição, permaneceu como um monumento inconcluso da vaidade e do orgulho humanos frente ao poder soberano do Deus supremo de Adão e de Noé.

Fontes: Templo de Apolo, FRANCHINI,A. S.,SEGANFREDO,Carmen.A torre de Babel.in:__________.As 100 melhores histórias da bíblia.Porto Alegre/RS:LPM,2005.p.