A punição de Loki

09/08/2018

Após a morte de Baldur e a conduta agressiva e desrespeitosa no jantar do deus Aegir, Loki sabia que não mais ia ser permitida a sua entrada em Asgard e que, mais cedo ou tarde, os deuses iriam impedir suas trapaças nos mundos, o amarrando ou matando. Por isso, Loki procurou um lugar afastado e deserto nas montanhas de Midgard, onde construiu com pedras e rochas uma pequena cabana, que tinha aberturas para as quatro direções. Mesmo ficando alerta e vigiando o horizonte o tempo todo, Loki não se sentia seguro, pois sabia que do seu posto de observação em Hlidskjalf, Odin podia enxergar tudo que se passava nos mundos e que assim os deuses iam descobrir seu esconderijo. Por isso, ele pensou em uma forma diferente de se proteger e salvar: se metamorfosear em salmão (ágil e escorregadio) e se esconder no rio das proximidades, que desaguava em uma estrondosa cachoeira. Ainda lembrando-se da rede mágica de Ran, com a qual tinha pescado o anão Andvari, ele se entretinha entrelaçando fios e pensando como poderia escapar, metamorfoseado como salmão, se os deuses usassem uma rede de trama fechada, como a que ele usou. Distraído, não percebeu a aproximação de Odin, Kvasir e Thor a não ser quando estavam muito perto e, temendo o pior, ele jogou apressado o simulacro da rede na lareira e saiu correndo para o rio, onde assumiu a forma de peixe e se escondeu no meio de pedras no fundo da correnteza.

Kvasir - deus sábio e observador - descobriu os restos da rede nas brasas e teve a inspiração de imitar a sua trama e tecer uma idêntica. Assim que a rede ficou pronta, os deuses foram para as margens do rio e jogaram a rede, mas por duas vezes Loki conseguiu escapar, ora saltando, ora se ocultando sob as pedras. Mas na terceira tentativa, quando Loki tentou pular na cachoeira, Thor conseguiu agarrá-lo e por mais que o salmão tentasse deslizar ou saltar, o punho de aço de Thor não lhe permitiu escapar. Após reassumir sua forma física normal, Loki foi arrastado pelos deuses para uma gruta escura, habitada por morcegos, onde o amarraram firmemente, prendendo sua cabeça, seu tronco e suas pernas em três lajes de pedra. As amarras usadas eram as entranhas do próprio filho de Loki, Narvi, enquanto Loki ficou em silêncio, sem olhar para ninguém, nem pedir clemência, pois sabia que o seu destino estava selado.

Skadhi apareceu trazendo uma serpente venenosa, que foi presa em uma estalactite acima da cabeça de Loki, de tal forma que o veneno iria escorrer continuamente sobre sua face. Mas Sigyn, a leal e devotada esposa de Loki, permaneceu ao seu lado recolhendo o veneno em uma vasilha, saindo do lugar apenas para esvaziar a vasilha. Durante a sua curta ausência, as gotas de veneno que respingavam sobre o rosto de Loki lhe provocavam tanta dor, que ele se contorcia gritando e nas suas tentativas de se libertar das amarras, fazia a terra tremer. Uma cena gravada sobre uma cruz encontrada em Cumbria, Inglaterra, mostra uma mulher ajoelhada segurando uma vasilha, ao lado de um homem amarrado. O sofrimento de Loki e a permanência de Sigyn ao seu lado foram destinados a durar até o Ragnarök, quando ele iria conseguir se soltar e sair louco de fúria e desejo de vingança, para conduzir os gigantes na batalha final contra os deuses, na planície de Vigrid. Lá ele irá lutar contra Heimdall e ambos irão sucumbir devido às feridas mútuas, terminando assim a sua eterna rivalidade.

Sigyn é pouco mencionada nos mitos, sendo conhecida apenas como a consorte fiel e abnegada de Loki. Porém ela representa também a proteção e a vulnerabilidade, a compaixão e o amor, a aceitação e a resignação perante o destino. Ela é forte e resistente, seu nome significando "vitoriosa", comparada às montanhas e rochas, mas também vista como um santuário para as pessoas sofridas, que ela recebe e cuida com gentileza.

Visto como uma metáfora, o mito descreve o aprisionamento do fogo subterrâneo personificado por Loki, enquanto a serpente é o riacho gelado que, ao cair sobre o fogo, evapora-se como vapor, que escapa pelas fissuras da terra causando os terremotos e formando os gêiseres, comuns na Islândia

Fontes: Templo de Apolo, Faur,M. (2011).O princípio masculino os deuses e seus mitos.in:M .Faur,(Ed.), Ragnarok:O crepúsculo dos deuses.(pp.200-201).São Paulo/SP:Cultrix