A Criação do Egíto

03/03/2019

A criação segundo Toth - Toth era venerado no Médio Egito, no local atualmente chamado Ashmunein. A arqueologia tem agora de verificar a verdadeira idade deste sítio, tão grande e onde os vestígios estão tão profundos, mas há a concordância de que os mitos originados na cidade são muito anteriores à unificação do Egito. Embora houvesse a crença de que a Criação tinha tido lugar nesta cidade em um tempo demasiado antigo para ser recordado, Toth representava apenas uma parte minoritária. Segundo o mito, no tempo anterior à Existência, só havia um vazio profundo, sem forma e cheio de água. Neste «caldo»Mprimevo existiam demiurgos femininos e masculinos - espíritos primitivos que se podiam juntar para criar formas físicas.

Atum, Senhor da Plenitude e deus supremo para além do tempo e do espaço, convocava machos e fêmeas. Havia Nun e o seu contrário Nunet, que simbolizavam o Nada; Kek e Kekt, a Escuridão; Amun e Amunet, o Segredo; e Huh e Huhet representando o Silêncio.

Os machos assumiam a forma de sapos, as fêmeas de répteis; e da sua reprodução era semeada a sementeda Criação. Então Atum, em um ato supremo de poder, criava uma superfície sobre a Profundeza e sobre ela um monte de terra. O centro deste monte era o Egito e o próprio Nilo jorrava diretamente das águas primordiais. No epicentro deste monte estava Ashmuneim e aí Toth, criado pelo seu senhor Atum, fixava a administração efetiva, estabelecia todo o saber e ciência e registava-os em 42 volumes de conhecimento. Estes rolos eram depois escondidos no mais profundo segredo até que a humanidade estivesse pronta para os descobrir.

A ação combinada dos oito demiurgos gerou a Criação no monte de Ashmunein. Plantas, animais e a humanidade passaram a existir. Muito mais tarde, os gregos identificaram Toth com o deus Hermes, o mensageiro dos deuses e a cidade de Toth passou a ser designada por Hermopolis.

Quanto aos textos em si mesmos, existirão? Quem pode responder? Eles estavam registrados em lendas como os textos Herméticos, e os homens sábios e alquimistas, desde o período medieval até aos nossos dias, ao procurarem «o saber do universo» têm ansiado pela descoberta dos originais. Os reis egípcios ao longo dos séculos desejaram mais do que tudo adquirir este saber original de Toth. Olhavam para o passado do seu reino como um tempo de perfeição, antes da chegada da humanidade e desta ignorar as regras de Toth - uma época a que chamavam a Primeira Ocorrência.

O Papiro Westcar, em Berlim, Alemanha, conta como Khufu, um rei da IV Dinastia e o construtor da Grande Pirâmide de Gizé, foi apresentado por um dos filhos a um grande mágico. O rei perguntou-lhe se ele sabia pormenores sobre a perda da sabedoria. O mágico, Djedi, disse-lhe que os rolos se encontravam em uma série de sete caixas, guardadas por uma serpente imortal enrolada à volta da caixa de fora. Esta, por sua vez, encontrava-se na parte mais funda de um rio perto de Coptos. Khufu ordenou-lhe que fosse lá e a trouxesse, mas o mágico teve de recusar.

O destino, incontestável para todos os Egípcios antigos, tinha deliberado que não seria ele a encontrar a caixa nem a sua família, mas sim a família de reis a seguir, a V Dinastia.

Os reis dessa dinastia fadada encontraram os textos perdidos? A história não o registra, mas no centro de Heliopolis, os videntes tornaram-se os herdeiros do saber. Eles passavam o conhecimento de uma geração de reis para a seguinte, incluindo os segredos sobre a forma como comunicar com a terra dos deuses e como manter o Maat..

A criação segundo Ptah - A Unificação trouxe a construção da cidade capital do Egito para Mênfis (por volta de 3000 a.e.c.), onde o deus local Ptah era identificado com os artífices. Como o rei construiu e depois serviu no grande templo ali localizado, a estória antiga da criação segundo Toth acabou por sucumbir e dar lugar a um novo mito.

A Pedra Shabaka, que agora se encontra no British Museum, relata como o rei líbio Shabaka, por volta de 850 a.e.c, encontrou «um verme que comia rolos de couro» na biblioteca do templo de Ptah, pelo que ordenou que fossem reescritos em pedra para a posteridade. A linguagem que neles se encontrava era realmente arcaica e não podia ser escrita com facilidade no tempo de Shabaka - sugerindo que a estória era verdadeira.

A nova narrativa mantém quase completamente o mito anterior sobre a Criação, do deus Toth, mas os oito demiurgos deixaram de fazer parte da mitologia. Em vez deles, conta-se agora, que no monte de Atum, foi criado o deus Ptah. Este mito é interessante pois concebe idéias no coração, avalia-as com a razão e depois as palavras saem da sua boca. Como as palavras partem da língua, passam a ser entidades físicas. Esta é a mais antiga narrativa da Criação através da lógica, literalmente logos, a palavra falada.

Fontes posteriores, que têm sido consideradas por muitos investigadores serem bastante mais ortodoxas registaram este mesmo conto com pequenas diferenças. «No início era a palavra; e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus». São muito poucas as pessoas que hoje consciencializam quão semelhante a frase inicial do Evangelho Segundo. João é ao mito de Ptah do antigo Egito.

A criação segundo Rá
O culto do Sol como o criador da vida floresceu em finais da IV Dinastia (por volta de 2600 a.e.c.) e durou pouco tempo. Estava centrado em Heliopolis, durante os reinados dos últimos reis da IV e os primeiros da V Dinastia (c. 2350 a.e.c.) e foi a primeira adoração solar. Em Heliopolis, os celebrantes religiosos eram chamados Videntes. A sua tarefa consistia na interpretação dos sinais, na leitura dos sonhos (incluídos como os Homens Sábios e o Magos da Gênese) e também na instrução do príncipe herdeiro sobre os seus deveres futuros como rei.

Ré, ou Rá era o Sol em todos os seus variados aspectos. Não sabemos como é que o nome se pronunciava, mas segundo os arquivos do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Egito deveria ser «Ria». No Egito, o Sol tem muitas faces como aliás sempre teve: a primeira luz pálida que se espalha sobre as colinas nubladas a leste; depois as línguas de luz que trazem o dia, mas ainda não o calor; mais tarde chega a força impressionante quando a bruma se dissipa e o calor abrasador queima a terra; o Sol mais suave a meio da tarde quando os raios começam a enfraquecer; e, finalmente, o pôr do Sol escarlate das fábulas e o Sol desaparece passando para o Outro Mundo.

Em termos mitológicos, Rá tinha sido introduzido no mundo físico por Khepri, um escaravelho cósmico que empurrou a bola solar para cima do reino mortal. A primeira luz era Ré-Hor-em-akhet, ou Harmachis como os Gregos lhe chamavam, «Rá, que é o Hórus do horizonte», em que Hórus é representado como um falcão, com as asas estendidas e as sua rémiges refletindo os raios do Sol. À medida que o Sol vai ficando mais intenso, cria-se que o próprio deus Rá guiava o barco do sol para dentro do meio do céu, onde, no zénite, se tornava em Aton.

Conforme se ia dirigindo para ocidente, tomava a forma de Ré-Hor-akhetwy, ou Horakhte o «Falcão do segundo horizonte. Quando o Sol se punha, Rá entrava na barca da noite e navegava para o mundo paralelo dos espíritos dos mortos, tornando-se em um deles com Atum o grande senhor da Criação e da Plenitude.

No primeiro monte da existência, conta o mito que cresciam flores de lótus. Quando o botão se abria em toda a sua plenitude, Rá, o Sol, emergia do coração da flor, trazendo a primeira luz ao mundo.

Emergia então a ave bennu, a lendária Fénix que mais tarde surgiria nas lendas gregas. Criada com a imagem de uma garça-real, o bennu foi o primeiro ser vivo a surgir neste original monte da existência e os seus gritos quebraram pela primeira vez o silêncio. Rá, o Sol e o maior todos os deuses, começou a criar Chu, o ar, e depois Tefnut, a humidade, que seriam irmão e irmã. Em certa altura, casaram é tiveram dois filhos: Geb, o filho, e Nut, a filha. Geb e Nut cresceram amando-se e queriam casar-se mas Chu, o pai, opôs-se. Um dia, encontrou-os abraçados e, furioso, separou-os, forçando Geb a permanecer deitado enquanto levantava Nut e afastava do corpo do irmão amado. Geb tornou-se terra, enquanto Nut, autorizada apenas a tocar nas pontas dos pés e dos dedos em Geb, passou a ser o arco de céu sobre a terra, com o seu vestido cheio estrelas. E assim ela permaneceu, para sempre afastada do irmão amado através da força do ar, o pai de ambos.

Finalmente, Rá, lamentando ser forçado a afastar-se da Terra todas as noites, ordenou que Toth fosse a Lua, a luz mais fria que a sua, mas mantendo um pouco do velho mito de Toth.

Em dada altura, Nut deu à luz quatro filhos: Osíris, Ísis, Seth e Néftis. Mais tarde, Ísis teve Hórus e estes tornaram-se os Nove deuses de Heliopolis e eram conhecidos como a Grande Enéade: Chu, Tefnut, Geb, Nut, Osíris, ísis, Set, Néftis e Hórus.

Fontes: Templo de Apolo, Egito Antigo, Mtythology & Culture, Wikipedia, MAHDY,C.Mitos de criação.in:CHEERS, Gordon.(org.) Mitologia:Mitos e lendas de todo o mundo.Lisboa/PT:Caracter Editora,2011.Cap. 9.p.288-291.