A Arca de Nóe

09/08/2018

Depois de ter gerado os infaustos Caim e Abel, Adão foi pai, ainda, de inumerável prole. O tronco mais nobre desta verdadeira árvore da vida que foi Adão chamou-se Set. Dele veio, algumas gerações mais tarde, um certo Enoque, homônimo do filho de Caim, mas tão infinitamente superior ao filho deste que mereceu o maior dos favores de Deus, sendo dispensado de morrer. O Criador, de fato, extremamente agradado de sua fidelidade, arrebatou-o aos céus, um certo dia, como a um Ganimedes ancião, quando completara 365 anos de idade. Também a seu filho Matusalém esteve reservada outra graça - um pouco menor que a conferida a Enoque, mas ainda assim invejável -, pois que chegou a viver mais do que qualquer outro ser humano sobre a Terra. O bom Matusalém, enfim, viveu nada menos que 969 anos de idade - ou *31 menos que mil*, como diziam os amigos, para acentuar ainda mais o maravilhoso prodígio.

Matusalém ainda vivia quando já andava pelo mundo o seu netinho Noé. Este patriarca ilustre, que a tradição nos apresenta sempre como um ancião severo - que, de fato, realmente foi, especialmente no período da grande tribulação -, era, no entanto, nos seus verdes dias, um menino muito alegre e que, como todos os outros, também gostava de brincar. Um desses brinquedos já era um sinal de sua futura eleição. Era assim que, desde o raiar do dia, o pequeno Noé já andava por toda parte à cata de insetos e pequenos animaizinhos para juntá-los, sempre aos pares, encerrando-os depois em minúsculas caixinhas. Tão logo reunia nova parelha, corria radiante até o avô lhe estendia a caixinha, num grande sorriso ainda sem dentes.

O bom Matusalém recebia o presente com um sorriso divertido e o colocava de lado, para mais tarde soltar os pequeninos prisioneiros - pois o moleque, incansável na sua obra, esquecia-se sempre de libertá-los.

Mas o pequeno Noé cresceu, afinal, e tornou-se um robusto jovem, casando-se mais tarde com uma dedicada mulher (que a tradição identificou, posteriormente, como Naamá). Para sustentar a esposa e seus três filhos, o incansável Noé fez-se carpinteiro, talvez o melhor que já houve em todos os tempos.

Entretanto, no mundo, as coisas andavam de mal a pior, em termos morais. Totalmente corrompida, a raça humana entregara-se a todos os excessos, de tal sorte que um dia, enquanto Noé - já um velho de veneráveis barbas - trabalhava em sua oficina, foi visitado pela voz de Deus.

- Noé, largue a enxó e ouça a voz do Senhor! O velho carpinteiro, tomado pelo assombro, obedeceu. - Estou farto desta humanidade corrompida - disse Deus, com uma nota evidente de amargura. - Por isso decidi apagar da face da Terra os sinais não só da presença dela, como também dos animais que por aí andam e das aves que voam pelos céus.

Noé, pálido pelo simples de fato de estar diante da presença divina, ficou estupefato diante daquele terrível anúncio.

- Exterminar... a todos, meu Senhor? - disse ele, quase incrédulo. - Não - disse a voz. - A ti e aos teus pouparei do castigo. Noé sentiu-se um pouco mais aliviado, mas não a ponto de esquecer da

desgraça que poria fim aos dias de todas as coisas vivas sobre a Terra. - Farei desabar sobre a Terra inteira todas as águas represadas no céu, de tal sorte que em muito pouco tempo tudo perecerá debaixo d'água - disse Deus. Um estupor de espanto substituiu as feições normalmente serenas do patriarca.

- Mas como poderá minha família escapar à tua ira, Senhor? - Assim será, se fizeres como agora vou te dizer. Então Deus ordenou a Noé que construísse uma grande arca, de três pavimentos, a qual encheria de todas as espécies de animais - um casal para cada espécie; deveria embarcar nela junto com os seus familiares, e lá deveriam permanecer durante quarenta dias e quarenta noites, que seria o tempo de duração para o Dilúvio,

- Esteja alerta - concluiu a voz, em um tom admoestatório -, pois quando começar a grande tribulação, daqui a sete dias, não haverá muito tempo para providências.

No mesmo dia Noé reuniu a esposa e os três filhos, além das noras, e deu-lhes a conhecer o terrível veredicto proferido pelo Senhor.

- Comecemos imediatamente a construir a Arca - disse aos filhos, que, apesar de um tanto incrédulos, não ousaram pôr em dúvida a veracidade das palavras do velho pai.

Nos sete dias seguintes Noé e seus parentes não conheceram um único segundo de descanso, consumindo todo o tempo a recolher material para a construção da arca, além de reunir animais aos pares, deixando-os ajuntados em uma espécie de redil enorme construído nos fundos da casa. Naamá, a esposa de Noé, também ficou encarregada de juntar quantidades enormes de alimento para manter vivos a família e os animais durante a longa quarentena sobre as águas. Durante todos esses dias de preparativos - mesmo naquele que antecedeu ao sétimo -, não se viu uma única nuvem cruzar os céus, pois Deus queria testar a fé de Noé, ver se ele era digno de sua escolha. Noé, contudo, nem por um instante, durante todo esse período, ergueu os olhos para o céu; ao contrário, manteve-os sempre voltados para a terra, pois sabia que o tempo urgia.

- Depressa com o betume! - dizia ele a seus filhos, que engrossavam em uma caldeira o material destinado a calafetar todas as frestas da grande nave.

Aos poucos a imensa arca foi ganhando forma, suspensa sobre dois gigantescos tripés de madeira que Noé fizera erguer, com a ajuda de outros homens, os quais, assalariados para tal, o faziam com empenho, mas também com grandes mostras de deboche.

- O velho endoideceu - dizia um, enquanto enfiava as cunhas das junturas. - Também, seiscentos anos nas barbas...! - dizia outro, a serrar uma tábua. E não só entres estes, mas também em meio à população do lugar se espalhou a maledicência. a ponto dos fofoqueiros se reunirem em pequenos bandos para perturbar o trabalho do velho marceneiro;

- Lá vem a chuva, Noé! Larga a arca e dá no pé!

Mas o forte ancião, a quem a escolha divina dava uma segurança acima de qualquer escárnio, continuava inquebrantável em sua obra.

E assim foi até que chegou a noite que antecedeu o dia fatal.

Uma verdadeira multidão acompanhou o extraordinário movimento daquela última e memorável noite sobre a terra. Sob a luz espectral de dezenas de archotes, uma extraordinária procissão de animais começou a subir a enorme rampa que dava acesso aos dois primeiros pavimentos da enorme arca.

Foi, realmente, um espetáculo magnífico, uma noite de sonho que antecedeu o pesadelo: debaixo de uma mistura de aplausos e assobios, subiam os animais, tendo por fundo o grande disco prateado da lua. Elefantes prodigiosos, leões selvagens, tigres inquietos, zebras - toda espécie, enfim, de animais de grande porte precederam a dos menores, como ovelhas, lobos, coelhos, cães e vários tipos de animais domésticos.

- Venha logo, Mimi! - disse Jafé ao velho gato de estimação, que surgira com a fêmea no seu manso passo aveludado.

Logo atrás veio o grande cortejo dos insetos, guardados em pequenas caixas, o que trouxe de imediato à memória de Noé o seu brinquedo antigo, além do saudoso avô, fazendo com que seus olhos se enchessem subitamente de lágrimas.

E assim, ainda antes que a aurora se anunciasse com seu rubor no horizonte, estavam já todas as criaturas irracionais acomodadas no interior da grande arca suspensa sobre os dois gigantescos tripés.

Então foi a vez de Noé e sua família adentrarem a grande nau. Apoiado em seu bastão, o velho patriarca subiu levando ao lado a esposa, os filhos e as noras, debaixo do riso delirante da multidão. Noé, porém, assim que pisou no terceiro pavimento, sentiu uma pena tão grande daquelas pobres almas chafurdadas no pecado, que lhes dirigiu, ainda, um último apelo:

- PorcosI Até quando desafiarão a ira do Senhor?

Um coro sonoro de risos estourou lá embaixo, com alguns chegando mesmo a lançar objetos sobre a arca.

Entretanto, apesar do tom de deboche, a maioria daquelas pessoas eram mais supersticiosas do que cínicas, e por isso resolveram esperar até o fim para ver no que ia dar aquilo tudo. "Vai que o velho maluco estava certo?", pensavam secretamente.

Mas quando o sol surgiu outra vez no horizonte, espalhando amplamente os seus raios, a expectativa do povo esmoreceu. Entendendo que aquela anedota já se estendera em demasia, aos poucos a multidão começou a dissolver-se, indo no rumo de suas mesquinhas tarefas cotidianas. Logo a barca ficou entregue á solidão, debaixo de um sol abrasador.

- Meu pai, como faremos para zarpar aqui de cima? - disse o jovem Cam ao velho marceneiro, ao perceber que não teriam quaisquer meios de fazer a arca se liberar dos dois tripés onde estava assentada.

- Deus o fará- disse Noé, laconicamente.

Mal Noé terminara de pronunciar essas palavras e uma pequenina nuvem surgiu, bem ao longe, no horizonte. Avançando velozmente, foi logo sucedida por mais algumas, e logo atrás, por um exército de outras, de uma cor ferruginosa verdadeiramente assustadora.

- Veja, Noé! - disse Naamá. O ancião voltou suas barbas naquela direção e disse, com vigor na voz: - Chegou a hora de o Senhor demonstrar todo o seu poder! Um rumor surdo, como que de rochedos a rolar sobre a cúpula côncava dos céus, desceu do alto, enquanto o firmamento escurecia como a mais negra das noites. Apesar de as nuvens correrem alucinadamente pelos céus, na terra o ar estava morbidamente parado. Então uma lufada de vento surgiu de repente, levantando uma nuvem de pó e indo de encontro à arca. Os tripulantes oscilaram para trás, como se uma mão invisível os tivesse empurrado ao mesmo tempo.

- Sem! - berrou Noé.- Recolha as escadas!

Imediatamente Sem deu cumprimento às ordens do pai. Outra lufada abateu-se sobre a arca, fazendo com que os tripés de madeira que a sustentavam rangessem. Jafé viu a arca desprendendo-se das escoras e indo mergulhar sobre o solo ainda seco, num espalhar de madeira e animais. Mas sua visão foi obstada pelo ruído desses mesmos animais, os quais, inquietos com a escuridão, começaram a remexer-se nos pisos abaixo, fazendo tremer a arca toda com os golpes surdos de suas patas.

Noé mirava o céu, em uma espécie de transe místico, quando sentiu nas barbas a primeira gota da chuva prometida. E então, o temporal verdadeiramente começou. Em uma fração de segundos, a chuva fina evoluiu para uma tempestade de impressionante violência. As águas caiam dos céus com tanta intensidade que parecia que o mundo recebia sobre si o jorro continuo de uma gigantesca cachoeira. Em menos de um minuto a terra desapareceu sob os olhos dos marinheiros improvisados, e a única coisa que puderam ver lá embaixo eram formas opacas a correr alucinadamente de lá para cá, com as pernas já submersas até os joelhos.

- Pobres coitados! - gritava Naamá.

- Silêncio, mulher! - disse-lhe Noé, com autoridade. - Quer atrair, também sobre nós, a ira que o Senhor destinou aos imprevidentes?

Uma legião de desesperados - que a chuva espessa tornava meros vultos - arremessava-se aos tripés, tentando escalá-los desesperadamente para alcançarem o primeiro pavimento da arca. Entretanto, um a um, iam sendo arrancados antes que conseguissem alcançar seu objetivo, mergulhando de ponta cabeça para a morte. Apenas um destemido conseguira colocar a mão sobre a madeira lustrosa da grande nau, mas. sem poder encontrar um apoio, fora perdendo aos poucos o fôlego, até que, afinal, vencido pela adversidade, foi juntar-se à massa dos desgraçados no turbilhão das águas.

Rapidamente as casas foram sendo engolidas pela elevação das águas. Pessoas e animais rodopiavam como bonecos desengonçados em gigantescos redemoinhos até desaparecerem na vastidão do grande mar no qual a Terra ia se convertendo.

- Meu pai, a água está quase alcançando o casco da arca! - berrou Jafé.

- Segurem-se todos! - disse Noé, sabendo perfeitamente o que os aguardava.

Tão logo o nível das águas alcançou o casco, a arca foi subitamente impelida para cima, provocando um violento movimento que fez todas as juntas da mesma rangerem. Ao mesmo tempo, o barulho dos animais em desespero atroou a arca inteira. Uma gritaria sobrenatural elevou-se de todas aquelas criaturas espremidas em seus compartimentos, em um grito único de mil vozes estridentes e desparelhas que fez eriçarem os cabelos de toda a família de Noé.

O tripé dianteiro, entretanto, tendo perdido sua base de sustentação, saiu fora do lugar e terminou sendo levado pelas águas, o que fez a arca, ainda presa ao tripé traseiro, mergulhar a proa violentamente para baixo. Agarrado a escoras e cordames, Noé viu a proa onde estava inclinar-se de tal modo que chegou a ficar em uma posição horizontal sobre as águas abaixo de si.

- O Senhor nos reerguerá! - bradou ele, frente a frente com a morte.

No mesmo instante o tripé traseiro, não suportando o peso inteiro da arca, partiu- se em dois sob as águas revoltas, e desta vez a popa da embarcação, até então suspensa, desceu para as profundezas com toda a força. Convertida num balanço diabólico, a arca oscilou várias vezes, fazendo com que a proa fosse arremessada ora para as nuvens, ora para um vórtice profundo, a ponto de colocar grande quantidade de água para dentro. Noé e seus familiares, solidamente agarrados, estiveram submetidos a este vaivém continuo até que a arca, finalmente liberta de seus dois entraves, conseguiu estabilizar-se livremente sobre a água.

A chuva, entretanto, continuava a cair com fúria inacreditável. Tudo era escuridão, somente quebrada pelos estilhaços dos relâmpagos, que permitiam aos ocupantes da arca ter uma brevíssima visão do que acontecia ao redor.

- Oh, não há mais nada sobre o mundo! - lamentava-se a esposa de Noé.

- Quando não existir mais o Senhor, então me unirei aos seus lamentos - disse Noé, entrando para o interior da nave, pois agora nada mais havia a fazer senão entregar-se aos desígnios do Criador, uma vez que a arca não tinha leme algum.

Enquanto a chuva durou, não foi possível distinguir o dia da noite, de tal sorte que o mais exato seria dizer que a arca navegou no curso de oitenta noites. Empurrada pelo ímpeto desencontrado das águas, a arca de Noé flutuou durante todo o tempo, porém não tão mansamente quanto se podia esperar de uma nau comandada pelo Senhor. Depois de sofrer diversos abalroamentos, a arca começou a apresentar algumas sérias avarias.

- Não imaginaram, de certo, que o Senhor os colocaria aqui dentro para que estivessem a se fartar o tempo todo - disse o patriarca à família, vendo em tudo, sempre, a mão de Deus. - O Senhor tem duas mãos: com a destra nos abençoa e com a outra nos experimenta.

A maior parte dos quarenta dias passados sobre as águas - que não devem ser tomados, necessariamente, ao pé da letra, pois quarenta era um número genérico usado pelos cronistas para representar um tempo muito longo (assim como os quarenta anos que os fugitivos do Egito passariam no deserto) - os sobreviventes do dilúvio gastaram em dar de comer à verdadeira legião de animais encerrada na arca, além de mantê-la limpa, expulsando do seu interior a quantidade enorme de dejetos.

Então aproximou-se. finalmente, o termo do prazo dado por Deus para que a chuva cessasse. Sem e Jafé estavam de pé, ao abrigo da grande coberta, observando o temporal, que continuava a cair com semelhante intensidade.

- É inacreditável! - disse Jafé a seu irmão, apontando para o cume de uma elevadíssima montanha, quase inteiramente submersa pela água.- Até onde irá a elevação das águas?

- O Senhor é quem sabe- disse Sem, piedosamente, mas também com grande temor em sua alma.

Entretanto, naquele mesmo dia a chuva começou a amainar, enquanto um grande sopro varria a superfície das águas, tornando-a prateada. Noé e os demais foram chamados aos gritos pelos dois irmãos, e logo surgiram todos juntos para contemplar o abrandamento da ira de Deus.

- Nada pode ser mais doce sobre a Terra do que o momento em que a ira do Senhor começa a aplacar-se - disse Noé, com os olhos rasos d'água.

Em seguida o comandante da arca ergueu uma ação de graças junto com toda a sua família. Em resposta, surgiu no grande teto coberto de nuvens escuras uma pequena brecha por onde insinuou-se um estreito porém vivido raio de sol, que foi bater em cheio sobre a arca.

- Bendito seja o Senhor! - disse a esposa de Noé. - É o primeiro sinal da reconciliação! - disse Sem, com um alivio profundo. As águas, porém, continuavam muito altas, e a arca ainda navegou o dia e a noite inteiros sem que fosse possível imaginar haver alguma parte seca em toda a Terra.

- É cedo, ainda - disse Noé.

E realmente era. Mas em breve um pequeno susto, muito parecido com aquele que dera início à imprevisível jornada, veio alterar a situação. Repentinamente, a arca cessou de navegar. - Acho que encalhamos - disse Jafé, correndo de um lado a outro da borda da nave para ver se enxergava algo. Mas ainda não era possível saber exatamente no que eles haviam encalhado, o que só aconteceu quando as águas baixaram mais um pouco. - Se não estou enganado, meu pai - disse ainda o mesmo Jafé - , acho que encalhamos sobre o Monte Ararat. De fato, a arca havia encalhado sobre uma encosta daquela montanha, localizada na Armênia. A medida que as águas baixavam, a arca foi ajustando-se sobre o terreno elevado, de tal sorte que em alguns dias já podiam avistar boa parte da montanha abaixo de seus pés.

- Chegou a hora - disse Noé, saindo do convés.

Logo em seguida retomou trazendo um corvo sobre o pulso, à maneira dos falcões.

- Vá, ave escolhida - disse Noé, liberando-a para o voo. - Vá e somente regresse se não houver solo onde pousar.

E assim fez o corvo, regressando depois de algum tempo, pois ainda não havia nada sobre a superfície da Terra senão água. Mais adiante Noé soltou uma pomba, que não teve melhor sorte. Mas na segunda tentativa, esta regressou trazendo no bico um ramo de oliveira.

- Glória a Deus! - disseram todos, pois agora tinham certeza de que a água já havia secado em algum lugar da Terra o suficiente para descobrir a vegetação.

Sete dias depois. Noé soltou novamente a pomba, mas desta feita ela não regressou, dando a todos a certeza de que já havia condições sobre a Terra para ser novamente habitada.

- Vamos descer! Vamos descer! - disseram as noras de Noé.

- Aquietem-se- disse o sogro, rudemente. - Sabem vocês, por acaso, se o Senhor já decretou a hora do retomo?

Um silêncio obediente seguiu-se ás palavras do velho, pois naqueles piedosos dias uma palavra do patriarca era o bastante para pôr fim a qualquer alarido.

Algum tempo depois, o próprio Senhor tratou de confirmar a atitude de seu servo, declarando a Noé, com suas próprias palavras:

- Já podes desembarcar. Noé. Leva contigo os teus e todos os animais, pois a terra já está completamente seca. Ali homens, animais e toda espécie de seres poderão procriar livremente, enchendo-a novamente de vida.

As rampas foram baixadas e os casais de animais começaram a descer, cada qual tomando o seu rumo para poder se multiplicar e povoar a Terra inteira, até que não restasse mais nenhum dentro da arca.

Assim que Noé pôs seu pé sobre o solo, mandou erigir um altar a Deus e ofereceu-lhe um holocausto com alguns animais (o que deve ter feito com as crias dos casais, pois senão alguma espécie inevitavelmente seria extinta).

Quando a fumaça chegou ao nariz do Senhor, este regozijou-se a tal ponto que afirmou jamais voltar a infligir um flagelo igual àquele a Terra e a todas as suas criaturas. (Deus, depois de ter se arrependido de criar o Homem e os demais seres, parecia agora arrependido de quase tê-los exterminado.)

Outra vez o Senhor entregou às mãos do homem o império de toda a natureza, declarando que maldito seria aquele que tornasse a verter o sangue de outro homem. Ele estava, de fato, tão feliz com aquele recomeço de sua criação que estendeu por sobre o céu um grande arco colorido.

- Este é o sinal da aliança que solenemente renovo com o Homem - disse o Criador -. E desde hoje, todas as vezes que vir este arco suspenso sobre as nuvens me lembrarei da aliança que fiz convosco neste dia, suspendendo todo e qualquer novo dilúvio.

Depois da nova aliança, Noé estabeleceu-se com sua família em tendas, para dar início à nova era. O patriarca, feliz em poder ser o novo Adão, abandonou o seu oficio de marceneiro e decidiu tornar-se agricultor.

- Plantarei a vinha e verei o que dela sairá - disse Noé.

De fato, algum tempo depois, a vinha brotou com extraordinária vitalidade. Noé, provando dos frutos da videira, teve a ideia de transformá-la numa bebida saborosa, dando origem ao vinho. O velho patriarca gostou tanto da bebida que se embriagou.

Coube ao seu filho Cam a sorte funesta de entrar inadvertidamente na tenda do pai e encontrá-lo caído sobre os tapetes e inteiramente nu.

- Sem...! Jafé..! - gritou ele, saindo da tenda, ansioso para contar a novidade. - Venham ver em que estado se encontra nosso venerável pai!

Os dois irmãos correram até lá, mas, tendo sido informados em qual estado iriam encontrar o velho, tiveram a precaução de apanhar um manto e de cobrir seus próprios olhos.

- Cubra-lo de uma vez, antes que as mulheres o vejam neste estado e percam todo o respeito que lhe devem - disse Jafé a Sem, lançando sobre a nudez do pai o manto protetor.

No dia seguinte, entretanto. Noé, ao ficar sabendo da atitude de Cam, bradou:

- Maldito seja Cam! Por causa de seu desrespeito, sua descendência será serva de Sem e de Jafé!

Depois deste incidente as coisas tomaram o rumo normal, e Noé pôde desfrutar ainda de anos bastantes para ver sua raça multiplicar-se, morrendo apenas aos 950 anos de idade (contando apenas 19 anos menos que seu avô Matusalém).

Dos três ramos de sua descendência - Sem, Cam e Jafé - fez-se a base para as raças futuras que se espalhariam por toda a Terra. Sem, o mais importante, segundo a ótica divina, se tornaria o tronco dos hebreus ou "semitas" (palavra derivada de Sem): Jafé viria a ser o tronco das nações gentias: e finalmente a Cam seria atribuída a descendência de todos os habitantes de Canaã, bem como dos povos de pele escura das partes da África.


Fontes: Templo de Apolo, FRANCHINI,A. S.,SEGANFREDO,Carmen.A Arca de Noé.in:__________.As 100 melhores histórias da bíblia. Porto Alegre/RS:LPM,2005.p..