5 Lendas/Folclore Brasileiro Que Talvez Você Não Conheça

21/12/2019

Existem lendas folclóricas como a do Saci-Pererê, da Mula Sem-Cabeça e do Curupira, que são conhecidas por todas as partes do Brasil e despertam interesse em muita gente. No entanto, há milhares de lendas que estão escondidas entre as linhas que delimitam uma região e não as ultrapassam, fazendo que somente as pessoas daquela localidade as conheçam. Reuni cinco lendas do folclore brasileiro que talvez vocês nunca escutaram falar.

A Lenda da Praia do Amor

Nas proximidades de João Pessoa, no município do Conde, localizado no litoral Sul da Paraíba, próximo do centro do distrito de Jacumã, há uma praia conhecida como a Praia do Amor.

Antes da chegada dos portugueses ao Brasil, o local era habitado por indígenas Tabajaras e outras tribos menores. E, foi justamente de uma destas que surgiu, vindo de Pernambuco, um índio do tronco Caetés, que se perdeu dos demais enquanto caçavam depois de seguir um bom tempo para o Norte. E foi na Praia do Amor que ele encontrou uma índia Tabajara muito linda. Bastou os olhos dos dois se encontrarem para que a fagulha do amor se transformasse num grande incêndio.

Mas o amor entre povos de tribos diferentes não era aceito pelos Tabajaras mais antigos e, diante da reprovação, ambos decidiram se unir e morar na praia.

O amor dos dois era imenso e a felicidade não tinha dimensões.

Certo dia o jovem Caeté construiu uma canoa para que pudesse pescar e se colocou no mar, contudo, a correnteza o arrastou para muito longe da praia e ele nunca mais retornou.

A desolação da índia foi tamanha que depois de tanto esperar e procurar, caiu em si, o mar havia levado para sempre o seu amor. A tristeza então tomou conta de seu coração, ela sentou-se sobre uma pedra e chorou sem parar. Por mais que o tempo passasse, ela não parava de chorar, até que chegou a velhice e seu pranto só secou quando ela morreu.

Segundo a lenda, foram as lágrimas da índia que abriram um buraco na pedra, que desde então ficou conhecida como a Pedra do Amor.

Dizem, que o solteiro que passa por debaixo dessa pedra, consegue logo se casar, já o casado que fizer isso, em breve se separará.


A Lenda do Piolho-De-Cobra

Esta é uma daquelas lendas que provavelmente sofreram influências externas, deve ter surgido entre os negros vindos da África e sofrido adaptações com o passar do tempo. O piolho-de-cobra é um Myriapoda diplópode que possui corpo cilíndrico formado por segmentos que lembram anéis. 

A maioria dos piolhos-de-cobra possui em torno 22 anéis e 700 pernas. Não são venenosos e se fazem presentes em todos os continentes, exceto na Antártida. Embora no Brasil os piolhos-de-cobra predominantes sejam os castanhos e pretos, há pelo mundo algumas espécimes nas cores vermelha, laranja, verde e até azul-metálico.

Segundo a lenda um grupo de mercadores portugueses capturaram um casal de negros, o príncipe Upenyu e Farai, uma princesa de outro reino, durante a cerimônia de casamento de ambos, na costa africana, e os trouxeram ao Brasil para trabalharem como escravos. Cativos no navio negreiro e depois vendidos no mercado dos escravos, os dois não conseguiram consumar as núpcias. 

Upenyu foi encaminhado para uma fazenda e Farai para a fazenda vizinha, sem que eles soubessem. Sem conseguir ficarem juntos, Upenyu jurou aos gritos à amada enquanto se afastavam que faria de tudo para salvá-la e que a procuraria por todos os cantos.Não demorou para que o jovem príncipe tentasse escapar, mas foi pego e castigado. 

O tempo passou até que ele tivesse uma nova chance de fuga, mas novamente não obteve sucesso, desta feita, um capitão-do-mato o capturou, um castigo maior foi-lhe infringido. Depois de mais de um ano Upenyu soube por uma escrava da fazenda, que Farai estava na fazenda vizinha, ele se desesperou e fez de tudo para escapar, e conseguiu, mas quando viu Farai lavando roupas no rio se deixou levar pelo desespero e acabou sendo visto. 

Desta vez ele foi levado de volta para a fazenda e espancado com o chicote barbaramente, quando estava quase morto, implorou aos ancestrais que não o deixassem morrer sem ter um herdeiro. Assim, quando deu seu último suspiro, o pênis de Upenyu adquiriu centenas de pernas, desprendeu-se de seu corpo e seguiu à procura de Farai, até que a encontrou dormindo e a fecundou. Assim que concluiu o ato, o pênis de Upenyu saiu do corpo de Farai e se perpetuou na forma de um piolho-de-cobra e se proliferou na natureza para que preservasse a semente de Upenyu, caso Farai não sobrevivesse, tivesse uma filha, não conseguisse perpetuar a linhagem do príncipe, ou se seu filho viesse a morrer.

Farai teve um menino e este cresceu e se procriou, mas os ancestrais de Upenyu decidiram manter os piolho-de-cobra se multiplicando na natureza, caso uma fatalidade pudesse afetar sua linhagem.

Cabra-Cabriola

Personagem de Pernambuco e Piauí, cabra-cabriola é um caprino que se assemelha aos demais de sua espécie, no entanto, quando visto de perto, percebe-se que se trata de um animal meio cabra, meio monstro, possui dentes afiados, solta fogo pelas ventas, é muito malcheiroso e se alimenta de crianças ou viajantes desavisados de sua presença.

As crianças malcriadas são as que mais interessam à cabra-cabriola, quanto mais traquina for, melhor. Para enganá-las, a cabra-cabriola imita a voz humana de qualquer pessoa, na maioria das vezes ela fica à espreita para ouvir os pais ou algum adulto de confiança da criança a chamar o nome da traquina, para então imitar a voz dessa pessoa para atrair suas vítimas a um local onde poderá capturá-la e se banquetear.

Mesmo a moradia das crianças não serve para protegê-las contra a cabra-cabriola, pois ela não hesita em invadir as casas para capturar suas vítimas. A única forma de evitar que a criatura capture uma criança é que esta seja obediente.

Esta lenda foi originária nos países ibéricos, Portugal e Espanha, muito provavelmente junto aos portugueses, que a trouxeram para cá quando do período de colonização, adentrando pelo Estado do Pernambuco.

Cabra-cabriola também é chamada de papa-meninos e é a representação do medo, associada aos bodes que possuem pacto com o demônio.

Segundo a lenda, quando uma criança começa a chorar do nada, é sinal de que a cabra-cabriola fez uma vítima, o choro só para quando ela termina de comer. Nestas horas muitos adultos se ajoelham e rezam pela alma daquela que alimentou a criatura.


O Tupinambá Medroso

Conta-se no interior de São Paulo que um índio tupinambá (sem definição específica do tronco a que pertencia), filho de um grande guerreiro, não trazia as características desejadas pelos membros da tribo, apesar de ter muito amor pelo seu povo, faltava-lhe coragem, habilidade e determinação, por isso, era uma preocupação constante para aqueles que lutavam para defender a tribo e que pretendiam realizar suas vinganças históricas contra outras tribos.

Muitas foram as tentativas da família em dar ao rapaz os requisitos necessários para guerrear, mas de nada adiantava. Alguns até queriam abatê-lo na tentativa de eliminar aquele que poderia fracassar na defesa dos ideais do grupo.

A família do rapaz buscou várias formas para integrá-lo aos guerreiros, mas sua ineficiência já havia lhe dado fama, assim, os outros guerreiros não o queriam por perto.

Certo dia a mãe do jovem tupinambá procurou o pajé para pedir-lhe a interferência dos deuses. O pajé, então, iniciou os preparos para um ritual, pegou penas de algumas aves da noite para que ele enxergasse na noite, ervas para dar alimento ao espírito, frutos muito maduros para lhe dar maturidade, sementes para lhe dar futuro e algumas pedras do rio para que ele adquirisse rigidez em seus atos. Preparou tudo no casco de uma tartaruga com água da cachoeira, que tinha por objetivo dar-lhe a coragem, mesmo não sendo firme,e deu início a um ritual ao cair da tarde. Rezas e danças foram realizadas, em seguida, o jovem teve de beber aquela poção e ir dormir. No dia seguinte, ele havia desaparecido, na esteira em que se deitava havia apenas um tatuzinho-de-jardim. O pajé foi chamado e, após analisar e, após fazer alguns movimentos e entoar um pequeno cântico, revelou que aquele era o jovem tupinambá medroso, que os deuses haviam transformado em um tatuzinho-de-jardim para poder se esconder embaixo da terra, uma vez que seu medo era maior que qualquer feitiçaria. O pajé revelou também que o rapaz havia desenvolvido uma forma para se defender dos inimigos transformando-se em uma pequena bola para ser confundido com os pedriscos da beira de rios.

O pai do jovem pensou a respeito e entendeu que aquela transformação do filho era, também, uma forma que ele encontrou para ensinar aos demais como se defender por todos os lados e que, apesar de ser medroso, tinha uma preocupação com todos da aldeia. No final, o jovem desprezado foi muito importante por ensinar a todos uma técnica importante de camuflagem, mostrando que todos tem algo de valioso a ensinar para o próximo.


A  Lenda da Cachorra da Palmeira

Originária de Palmeira dos Índios, Alagoas, esta lenda foi difundida pelo Nordeste e aparece com frequência na literatura de cordel.

A versão mais conhecida diz que uma jovem culta e abastada desprezava e debochava de um religioso tido como santo - em algumas versões é o Frei Damião, em outras, o Padre Cícero, mas há também variáveis -. Algumas derivações apontam que ela cometia pecados considerados gravíssimos e, por isso, a jovem foi transformada em uma cadela para viver o resto da vida correndo pelo sertão, fugindo do homem, ou presa e uma jaula.

Uma das versões mais populares conta que esta bela jovem vivia em um sítio com o pai, um rico coronel letrado e a mãe muito gentil. E, por isso, recebeu boa educação e vivia com muito requinte. Mas, de que adiantava a boa educação e ser da elite se ela não respeitava os demais, era, como dizia o povo, uma sábia ignorante. Até que um dia desdenhou Padre Cícero Romão, gerando imensa indignação.

A bela moça tinha uma cachorrinha de estimação, que criava desde pequenina e a amava imensamente. Contudo, o destino não perdoou, no dia em que Padre Cícero morreu, a cachorrinha também faleceu atacada pela raiva. Triste com o ocorrido, a jovem comprou um maço de vela, cobriu o corpo da cachorra com um véu, colocou flores e velou o animal em uma capela, embaixo de um cruzeiro. No dia seguinte pediu que enterrassem a bichinha e diante da cova se ajoelhou aos prantos.

Passados alguns dias, para tentar aliviar a dor, foi às compras e gastou boa quantia comprando roupas, sapatos, perfumes e tudo mais que sua vaidade podia comprar. Mas, enquanto comprava tecidos para que lhe fizessem lindos vestidos, viu uma senhora chegar e pedir um pedaço de tecido preto para comprar. A moça olhou para mulher e quis saber se a mulher havia enviuvado para vestir-se de luto, perguntou: é viúva ou amanhã é dia de chuva? Sentindo um quê de deboche a mulher respondeu de modo acanhado e choroso, que estava de luto pela morte do padrinho. Curiosa a jovem quis saber quem era o tal padrinho, pois não havia ouvido falar da morte da alguém da cidade naqueles dias. A mulher então revelou que era o Padre Cícero. Desrespeitosamente a moça gargalhou diante da mulher pesarosa e, na mesma hora, começou a transformar-se lentamente em uma cachorra, um discreto rabo começou a surgir sem que percebesse. Ainda aparentemente na forma humana, falou para a mulher não colocar luto pelo padre, mas sim pela cachorra dela que havia morrido no mesmo dia. A mulher fez o sinal da cruz e pediu que não desdenhasse do padre. A jovem grunhiu e caiu de quatro. Já na forma de cachorra ela mordeu a perna da mulher que gritou tão alto que as pessoas que estavam fora da loja conseguiram ouvir. O dono da loja viu que uma cachorra ali estava mordendo aquela senhora e tentou pegá-la, mas ela rosnou, correu para fora e começou a morder todos pelo caminho. Rapidamente um grupo de homens decidiu persegui-la, achavam que a danada estava com raiva. Ela corria e eles iam atrás, só após fazerem um cerco que conseguiram capturá-la e enjaulá-la. Assim ela permaneceu até a morte, para só então ser carregada para o inferno.