3 Lendas Amapaenses

23/01/2020

O Poraquê

Poraquê era um valente guerreiro de uma tribo às margens do Rio Amazonas. Caçador por excelência, era sempre quem trazia o maior animal durante as festividades da tribo. Também ele era muito forte, destacando-se dos outros membros da aldeia.Mas Poraquê era ambicioso. Não lhe bastavam a destreza do arco e da flecha. Não lhe bastava a força de seus braços e nem mesmo sua supremacia em combate. Ele queria ser o maior guerreiro da face da terra.

Foi assim que tentou dominar o fogo, mas sua força nada valeu contra as labaredas. O índio então quis comandar os rios, mas Iara mandou contra ele a pororoca, que o derrotou. Vencido pela segunda vez, Poraquê subiu em um pé de vento e tomou um relâmpago emprestado ao deus trovão. Com ele fez uma borduna com a qual podia invocar os raios.

Certa vez uma tribo indígena atacou a aldeia em uma guerra que durou vários dias. Poraquê, com sua borduna de raios, dizimou milhares de inimigos. Tendo vencido a batalha, notou que a arma estava manchada de sangue e foi lavá-la à beira do Rio Amazonas. Um dos raios caiu na água e o transformou em um peixe feio, que quando atacado dispara rajadas elétricas para se proteger.


A Cobra Sofia

O Boto Tucuxi apaixonou-se pela indiazinha, possuindo-a através de um encantamento.

Há muito tempo, em uma aldeia próxima à Ilha de Santana, vivia Icorã, uma índia de olhos cor-de-mel e muito linda. A beleza da índia, incomparável entre todas as mulheres da tribo, transformava em suplício sua felicidade. É que pela formosura Icorã era cortejada pelos bravos, ao mesmo tempo em que estava destinada ao Deus Tupã quando estivesse em idade apropriada. Prisioneira de sua beleza, a indiazinha vivia muito triste, rara vezes deixando a oca. Quando o fazia era para dirigir-se até a beira de um grande lago, à noite, para contar à lua seu sofrimento.

Certa noite, enquanto banhava-se ao luar, Icorã foi avistada pelo boto Tucuxi, que perdeu-se de amores por ela. Transformando-se em um cisne, Tucuxi aproximou-se da indiazinha, possuindo-a através de um encantamento. Meses depois Icorã sentiu a prenhez em suas entranhas e só então descobriu que aquele cisne lindo com quem brincara no lago era na verdade um boto.

Mortificada de remorsos Icorã embrenhou-se nas matas, permanecendo longe de tudo e de todos para ter a criança. Quando as dores vieram e a indiazinha teve seu rebento, deu-lhe o nome de Sofia e atirou a criança no lago, na esperança que esta se afogasse e ninguém tomasse conhecimento de seu pecado. Depois retornou à aldeia, como se nada tivesse acontecido.

O boto Tucuxi, arrependido do que fez, transformou a criança em uma cobra d'água, evitando assim sua morte. Muito tempo passou e certo dia, quando Icorã encontrava-se à beira do lago, sentiu as águas se revolverem e viu quando uma cobra imensa, de estranhos olhos cor-de-mel, deixou seu refúgio. Era a Cobra Sofia, que procurava águas profundas para acomodar-se. Os sulcos deixados durante o trajeto, dizem as lendas, formaram o Rio Matapí.

Sofia, acreditam os mais antigos, parou para descansar onde hoje fica localizado o antigo Porto da mineradora ICOMI, na área urbana do município de Santana. Há alguns anos (mais precisamente em Outubro de 1993), uma grande parte daquela plataforma desabou por força de uma misteriosa onda d'água que se formou no início do Rio Matapí e terminando na embocadura do Rio Amazonas. Dizem que foi a Cobra Sofia que moveu-se durante o sono


A Lenda do Manganês

Conta-se que há muitos anos atrás alguns negros conseguiram fugir da escravidão e chegaram na região de Serra do Navio, formando um quilombo. Época em que existia também o quilombo no Curiaú, ambos abrigando centenas de famílias, que plantavam mandioca, arroz, feijão, cana-de-açúcar e viviam preservando sua cultura. 

Soldados portugueses um dia invadiram suas terras, aprisionaram e escravizaram todos, forçando-os ao trabalho pesado, principalmente na garimpagem. Mas eles não aceitavam a dominação e sempre pensavam em sua liberdade para saírem da maldade e dominação dos portugueses. Esse povo sofrido, valendo-se de suas tradições e força de vontade, um dia pediu proteção à Taimã para se libertarem e resolveram lutar contra seus exploradores. 

Foi uma batalha ferrenha e os negros - em quantidade muito inferior, sem armas e enfraquecidos pelos trabalhos forçados - acabaram derrotados e dizimados. Muito sangue foi derramado na Terra. Diz a lenda que Taimã transformou o sangue negro na pedra preta que foi encontrada no local da luta, parecendo sangue congelado. Surgiu assim a origem do manganês, uma das maiores riquezas do Amapá.

Fonteshttps://sites.google.com/site/folcloreamapaenseflavia/mitos-e-lendas, Livro "Mitos e Lendas do Amapá", 3ª Edição, 2006, do jornalista Joseli Dias, página 10-11., memorialstn